Março 2006 - Ano VIII - nº 88
Não sei se o leitor já reparou como esse inseto importuno e buliçoso se tem prestado à formação de frases-feitas onde o sentido maior é, estranhamente, o de preguiça, paralisia, inércia e vadiagem.
Veja só: de um sujeito que se posta ociosamente, sem nada fazer, diz-se que está papando moscas. Tal como no espanhol: "Papar moscas: estar sin hacer nada, con la boca abierta". A outro, que passa o tempo a vadiar, anda às moscas. A uma loja, uma empresa, uma administração qualquer, parada, sonolenta, sem movimento e trabalho, diz-se que está ou vive às moscas.
Também a uma pessoa que não dá de si nenhum esforço, incapaz de trabalhar e agir, que postado num posto qualquer, aí permanece inerte, sem idéias, sem ação, parado e lerdo, chama a sabedoria popular, com muito acerto, um mosca morta.
É verdade que, aí, à mosca se acrescenta o adjetivo paralisante: morta. Por vezes, em lugar de mosca morta, se emprega mosca molenga, como se vê, por exemplo, no Dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti (São Paulo, 1945, p.238): "Mosca-molenga: indolente, vagaroso".
Mas, se mosca morta é, hoje em dia, o mesmo que um sujeito parado, inativo e preguiçoso, outrora não era este o sentido da expressão. No seu Grande dicionário português ou Tesouro da língua inglesa (Porto, tomo 4, 1878), frei Domingos Vieira nos informa que mosca morta era "a pessoa que afeta mansidão e disfarça seus intuitos até que tenha ocasião em que possa causar dano".
É a mesma significação que se encontra no dicionário da Academia Espanhola: "Mosca muerta: persona, al parecer, de ánimo o genio apagado, pero que nopierde la ocasión de su provecho, o no deja de explicarse en lo que siente".
No Dicionário de modismos de la lengua castellana (Lib, Ateneu, Buenos Aires, 1947, p.1015), de Ramón Caballero, também se consigna a expressão, na forma "Ser una mosquita muerta", a que se dá, além do sentido de pessoa tímida e covarde, o de "persona que aparenta bondad excessiva de caracter, aun cuando sienta al contrário".
No Tesouro da fraseologia brasileira (Rio de Janeiro, 1945, p.252), Antenor Nascentes registra a locução com o significado de "pessoa dissimulada, manhosa, que parece inofensiva. E, a seguir: "pessoa indolente".
Em minhas leituras e releituras de lápis na mão, recolhi dois exemplos literários, em que se embute a velha e pitoresca expressão vulgar. Um deles figura no livro de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma (Rio de Janeiro, 1915, p.43):
"Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.
— Mas, minha filha, — dizia ela, — até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece uma mosca morta!
— Mamãe, que quer que eu faça?
— Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas tambem assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.
Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a pobreza se sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria".
Como se vê, o sentido da frase-feita, nesse tópico de Lima Barreto, não envolve o de simulação ou artimanha hipócrita. Todo ele é de cansaço, lassidez, torpor e inatividade.
É o mesmo que deparamos em noutro exemplo, que fui topar em mestre Machado de Assis.
No recentíssimo livro Contos esparsos (Rio de Janeiro, 1956), organizado por esse admirável rebuscador de jóias machadianas, que é Magalhães Júnior, apeamos, no conto Quem boa cama faz... (p.178), o seguinte trecho:
"— Casas com tua prima Fernanda, — concluiu o desembargador.
Um sorriso de lástima entreabriu os lábios de Luís ao ouvir o nome da noiva. A razão era que de todas as mulheres então existentes debaixo do sol, Fernanda lhe parecia a mais aborrecível de todas. Não lhe negava algumas graças naturais, mas achava-lhe um ar de mortal insipidez. Nada que ela vestisse lhe parecia bem; e tudo o que ela dissesse lhe parecia mal. Mosca morta foi o nome com que ele a brindou um dia de anos ao ver a indiferença (diferença) que havia entre ela e as outras moças alegres e vivazes".
Não quero pôr fecho a estas nótulas despretensiosas, sem o registro de um velho refrão espanhol, que também insere a mosca (uma mosca cheia de si, metida a importante e operosa) — provérbio atualíssimo nos dias que por aqui correm.
No citado dicionário da Academia de Espanha, no verbete mosca se faz menção ao seguinte adágio: "Aramos, dijo la muesca al buey" (Aramos, ou aremos, diz a mosca ao boi) — "ref. que se aplica a los que se jactan de la participación que tienen en el trabajo de una casa, cuando en realidad poca o ninguna les corresponde".
Atualíssimo, como se vê...