Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Toda a verdade sobre as cartas cruzadas (que não mentem jamais)

Era um velho manuscrito, encontrado por acaso numa não menos velha — e miserável — choça. Ambos muito importantes: a choça, porque lá vivera seus últimos dias São Cipriano (o feiticeiro que virou santo depois de romper seu pacto com o diabo); o manuscrito, porque ensinava a arte de deitar cartas como o faziam e fazem as ciganas, em forma de cruz.

E o manuscrito foi levado a Roma, onde os religiosos puseram à prova sua autenticidade em matéria de adivinhação. Dos resultado de tal experiência nenhuma notícia ficou, mas foram certamente assustadores e desconcertantes. Tanto que decretaram a imediata destruição do papel pelo fogo. Ao que parece as cartas só esqueceram de fazer uma previsão aos padres: tal destruição não aconteceria. O fâmulo encarregado de dar fim ao manuscrito substitui-o por outro, enganando a todos que presenciaram à cremação.

Daí em diante as andanças do documento estão envoltas em mistério. Só se sabe que — levado supostamente por parentes do santo — ele hoje se encontra na Biblioteca do Vaticano, guardado lado a lado com os autos da condenação de São Cipriano. Pode ser visto e copiado por que se interessar pela arte da cartomancia cruzada. Conta a disposição certa das cartas, seus valores, a maneira certa de deixá-las, suas rezas e bênção.

Virtude antes de tudo

A iniciação à cartomancia cruzada começa com o batismo das cartas — quarenta — que devem ser passadas pelas águas do mar precisamente ao meio-dia de uma sexta-feira, enquanto se invoca "que os espíritos celestes vos ponham a virtude". Só então o baralho estará preparado para profetizar o futuro.

Mas não são usadas todas as cartas; apenas sete de cada naipe — do ás ao sete — e as quatro figuras indispensáveis: dama de ouros, rei de ouros, dama de espadas (ou o valete) e valete de copas. As outras figuras — oito ao todo — não são postas na mesa e servem apenas para representar pessoas ligadas à vida do consultante.

Só então pode começar o ritual do deitar as cartas. Separam-se os setes e ases (conhecidos como tentações), embaralha-se cuidadosamente, dizendo em voz baixa a seguinte oração:

"Que estas cartas, pelo poder de São Cipriano, hoje santo e outrora feiticeiro, digam a verdade, para glória do mesmo santo e satisfação de minha alma" (esta oração deve ser repetida sempre que as cartas forem embaralhadas).

As tentações são em seguida colocadas na mesa, viradas para baixo, formando o centro da cruz.

As 24 cartas restantes são deitadas depois, oito a oito. E, para que a consulta seja útil, é preciso, cada vez que forem deitadas oito cartas, benzer-se com as demais dizendo: "São (leva-se a mão a testa) Cipriano (põe-se a mão no peito) seja (mão no ombro esquerdo) comigo (mão no ombro direito)".

Estará tudo pronto para começar a leitura; primeiro tire as quatros cartas colocadas em sentido vertical, depois as quatro horizontais e, no fim, uma tentação. As cartas, interpretadas de acordo com seu significado, devem formar uma frase de sentido completo. Se tal não acontecer, deve-se embaralhar novamente as tentações, colocá-las em seu lugar, embaralhar as outras cartas e iniciar novo ritual. Porque, embora as cartas não mintam jamais, às vezes é difícil para um principante conseguir ler a verdade logo na primeira tentativa.

Os mistérios da leitura

Ouros

Ás: promessas
Dois: matrimônio
Três: mimo de amor
Quatro: apartamento
Cinco: sedução
Seis: fraca fortuna
Sete: riqueza

Espadas

Ás: paixão
Dois: correspondência
Três: lealdade
Quatro: na habitação
Cinco: enredo
Seis: brevidade
Sete:desgostos

Copas

Ás: constrangimento
Dois: reconciliação
Três: simpatia
Quatro: banquete
Cinco: ciúmes
Seis: demora
Sete: surpresa

Paus

Ás: vício
Dois: traição
Três: desordem
Quatro: leviandade
Cinco: fora de casa
Seis: cativeiro
Sete: obstáculo

As quatros cartas indispensáveis:

Dama de ouros: a consulente
Rei de ouros: o marido ou amante
Dama de espadas: a rival
Valete de copas: um pessoa intermediária (não importa o sexo)

No caso do consultante ser homem, estas quatro cartas têm outro valor:

Rei de ouros: o consultante
Dama de ouros: A mulher ou amante
Valete de espadas: o rival
Valete de copas: uma pessoa intermediária (não importa o seu sexo)

Outras figuras:

As demais figuras representam outras pessoas de quem o consultante por acaso suspeitar:

Damas: serão chamadas de "esta mulher".
Reis e valetes: serão chamados de "este homem".

As tentações:

Os ases e setes têm também o nome de "tentações" e são embaralhados e deitados na mesa separadamente.

O valor das circunstâncias:

De acordo com as circunstâncias da consulta e a vida do consultante, algumas cartas podem ser interpretadas de maneira diferente do seu valor natural. Por exemplo:

Três de ouros (mimos de amor): pode significar carinhos e afagos, uma prenda.
Ás de copas (constrangimento): pode representar uma carta.
Dois de espadas (correspondência): pode representar uma carta.
Ás de paus (cativeiro): será compreendido como prisão de amor, prisão civil ou calabouço.

("Toda a verdade sobre as cartas cruzadas (que não mentem jamais)". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 26 de maio de 1968)
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