Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

A cabeça da jibóia para atrair mulher

Alberto Canelas Filho

A jibóia (Constrictor constrictor), grande serpente espalhada de São Paulo para cima, e muito abundante no Norte, é um réptil que na Amazônia é estimado. Os espécimes de 6 metros não são muito raros e falam que já encontraram destes ofídios de 8 metros de comprimento. A jibóia como a sucuri, não possui veneno, mata a vítima enrolando-se-lhe no corpo e moendo-lhe os ossos, para depois degluti-la.

Chega a engolir animais do tamanho da jaguatirica e não ataca o homem. É lerda, habita na floresta, e durante o dia, quase só descansa ou dorme. O povo diz que o seu "bafo" produz feridas terríveis, e também que quando este réptil fica velho, atingindo proporções enormes, ele passa a viver quase que somente na água.

A respeito da jibóia, na Amazônia há diversas lendas interessantes. Aliás, sobre cobra há muita crença, pois ela representa a perfídia e a traição. O fato da Bíblia contar o caso de Adão e Eva, motivado pela serpente, os povos com religião fundamentalista nesse livro, tem todas as cobras, mesmo as não venenosas, como a maldade personificada. Mas respeitam-nas porém, devido a astúcia e poderes sobrenaturais que lhes atribuem, como também repelem-nas pela sua forma horripilante. Todos nós sabemos, que a grande fealdade causa admiração, respeito e medo.

Contaram-me no Amazonas e Pará, que a jibóia fica de emboscada na floresta; passando ainda que de longe, um animal de vulto médio ou mesmo o homem, sente uma força que o atrai para um determinado ponto, tenta ir embora, mas qual, fica meio desnorteado até ir parar direitinho onde a cobra está. Também me contaram, que para se atrair mulher, basta levar no bolso uma cabeça embalsamada de jibóia. É tiro e queda, mulher daí sobra... Liguei uma crença à outra; nas duas há o fascínio da jibóia. A forma fálica do réptil talvez tenha induzido o caboclo a formular e aceitar a segunda crendice. Coibido pelo sentimento de pudor e pelos preconceitos morais, religiosos e sociais — que se orientam pelo super ego — de mostrar-se nas partes pudicas as mulheres, então o inconsciente do homem simples da mata, ou mesmo da cidade, fez esse impulso se exteriorizar transformado.

Como toda cobra pelo seu olhar fixo e aspecto repugnante, causa terror, principalmente as grandes, a vítima fica apalermada de medo, como se estivesse magnetizada, provindo disto que a jibóia atrai a presa mesmo de longe. A primeira crença se entrosa na segunda, que procuramos explicar pelo fenômeno psicanalítico da transferência.

Vi um amansador de jiboia no cais de Belém do Pará; domesticava em pouco tempo, os filhotes já grandinhos, (com cerca de 1,5 m), para vendê-los depois. É costume no norte todo usarem este ofídio nas casas, para a exterminação de ratos, prestando assim um bom serviço ao homem. Apesar da jibóia ser muito mansa, quando ela vai atingindo seus 4 metros, soltam-na no mato. Lá perto do famoso Ver-o-Peso, vendiam cabeças preparadas de filhotes de jibóia, (sendo menores são mais fáceis de se carregá-las no bolso) para quem quisesse se por à dom Juan. O caboclo e o morador inculto e mediocremente culto da cidade, acreditam nessa crendice.

Conheci um prático dos rios Madeira e Amazonas, que me mostrou uma cabeça de jibóia, que ele trazia consigo e que dizia lhe dar muita sorte com o belo sexo; pois se não me engano, já era casado quatro vezes...

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