Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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Põe-mesa

Osvaldo Orico

É comum nas cidades e vilas do norte, quando se está reunido em família, num jantar ou serão, pular na sala um grande gafanhoto, saltitante e passeador, que parece fazer momices e desafiar as pessoas. Os garotos, sobretudo, adoram sair em perseguição do inseto verde, interceptando-lhe a ginástica faceira. É a locusta viridissima, conhecido vulgarmente no norte por “põe-mesa” e, no sul, por “louva-a-deus». Sua presença é indício de bom agouro. Significa promessa, esperança, notícia agradável que vem por aí.

A velha aspiração de saber-se o sexo da criança por nascer é resolvida pela crendice do povo em torno do põe-mesa . Assim, quando se tem pessoa grávida em casa, a coisa mais fácil, para antecipar se o bebê será menino ou menina, é apelar para o concurso da saltitante visita. Segura-se o inseto e dá-se-lhe um sopro: se apenas move as pernas dianteiras, é mulher; se grimpa e tenta saltar sobre a pessoa, é homem.

Com essa profética utilidade, o põe-mesa justifica o interesse com que é saudado toda vez que salta do escuro para uma sala onde a luz o atrai e tonteia.

Em seu Vocabulário nheengatu, informa Afonso A. de Freitas que os indígenas davam ao louva-a-deus a designação de emboici, de mboi, cobra e ci, mãe.

“Mãe de cobra, pela circunstância curiosíssima de ser encontrado, ordinariamente, no ventre do inseto, uma parasita de forma capilar, não raro atingindo a metros de comprimento e que, solta n’água, movimenta-se com todas as ondulações da cobra. Emboici, é um animalzinho elegante em seus movimentos, que as crianças se comprazem em irritar para vê-lo tomar posição de defesa, elevando as duas patas dianteiras e juntando-as à altura da cabeça, como em atitude de imploração, vindo-lhe daí a denominação vulgar de louva-a-deus.”

 

(Orico, Osvaldo. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Rio de Janeiro, Civilização / Brasília, INL, 1975. Retratos do Brasil, 93, p.239-240)
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