Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

As castas das baratas

Desconhecendo as bases científicas da sistemática zoológica, o nosso povo possui seus próprios conceitos para classificar os animais. No caso das baratas, o povo está em completo desacordo com os zoólogos, pois coloca dentro deste grupo não somente as verdadeiras baratas, mas também outros insetos, e por vezes até crustáceos.

Animalejos de corpo de contorno oval, ou clíptico, rebatados dorsoventralmente, de coloração escura e vida oculta, têm grande probalidade de serem classificados pelo povo como baratas.

Primariamente a sistemática popular divide este mundo das baratas conforme o "porte" (tamanho) — baratão ou baratona, barata e baratinha. Depois, qualificam-nas segundo o ambiente em que vivem. Assim, temos: barata de casa ou caseiras, baratas do mato, baratas d'água, baratas de praia.

Além desta última divisão, distinguem várias culidades ou castas, cujas as principais são:

Avoadéra: Tratam-se assim as formas adultas e aladas pertencentes às espécies Periplanela australasiae e P. americana.

Cascuda: Especialmente as espécies do gênero Blabecus, que costumam domiciliar-se nas habitações humanas. Existem também as cascudas do mato, que vivem sob cascas de árvores e sob paus podres, baratas pertecentes aos gêneros Monastria, Petasodes e outros.

Chimanga: Não tivemos ocasião de ver esta barata. Recebemos este nome de Minas Gerais, com a anotação de que se trata de "uma barata caseira, de cor vermelha". (informante: dona Maria Franca).

Das miúda: Referente sobretudo à barata cosmopolitana Blatella germânica. Este termo abrange também outras espécies que se encontram ainda em estádios de primeiras ninfas.

De corpo mole: Denominam-se assim as baratas que mudaram suas peles recentemente, não tendo sua quitina endurecido suficientemente.

De luxo: Baratas bonitinhas, de cor esverdeada e que costumam aparecer durante certa época do ano, à noite, nas casas, atraídas pela iluminação. Pertencem ao gênero Panchlora.

De oito baixo: São as ninfas maiores de Periplanela americana e P. autralasiae, desprovidas de asas e mostrando seus segmentos abdominais, cujo aspecto foi associado pelo povo com as dobras de uma sanfona de oito baixos.

Descascada: Quando as ninfas de uma barata mudam sua pele, até que sua quitina escureça, permanecem estes insetos de coloração branca. isto dá a impressão de que foram "descacadas" e se apresentam nuas.

Grã-fina: São as mesma baratas já mencionadas sob o nome de luxo.

Miudinha: As ninfas dos primeiros estádios das baratas pertencentes a diversos gêneros.

Noiva: O mesmo que descascada.

Paulista: Este termo foi registrado em Corumbá (Mato Grosso), (informante: José Feliciano Batista Neto), e designa as espécies do gênero periplaneta. Os matogrossenses culpam os paulistas pela introdução desta praga, e daí seu nome. É interessante que em outras partes do mundo encontram-se também sensações mútuas de importação de várias espécies de baratas cosmopolitas, e que permanece bem documentado pelos nomes populares que estas possuem. Assim, por exemplo, os polacos chamam prusak (prussiano) à Blateila germanica, pois acreditam que os prussianos as introduziram na Polônia. Também os russos afirmam que esta espécie chegou a seu país comos exércitos que retornavam da Alemanha após a guerra de 1756-1762, e tratam-na por prusak. Enquanto isso, os ucranianos acusam os russos pela introdução da Blatto orientalis e denominam-se moseal (moscovita); acusam-se também os suecos, chamando as baratas de sebwied.

Vermeia: As espécies do gênero Periplaneta.

Os nossos caipiras, na hora da raiva, por causa dos danos ou dos grandes incômodos que trazem estes insetos, insultam-nos de "barata excomungada". Quando querem acentuar que no paiol ou nas habitações existe grande quantidade de baratas dizem: "diluve de baratas", "desepero de baratas" ou ainda "miões de miares de baratas".

Denomina-se baratas do mato às espécies que vivem fora das habitações, especialmente nas floresta. Geralmente recebem elas os nomes específicos das plantas em que são mais freqüentemente encontradas.

Barata de indaiá: Na região de Teófilo Otoni (Minas Gerais) chama-se assim uma espécie de barata muito comum nas palmeiras de indaiá e que importuna bastante os garimpeiros em seus barracões.

Baratas dos coqueiros: Não têm nada com as baratas verdadeiras, pois denomina-se assim, erroneamente, à larva de besouros pertecentes ao gênero Coraliomeia, da família Ilispidae, praga de várias espécies de nossas palmeiras.

Baratão do café: Registramos este nome em Araraquara, estado de São Paulo. Infelizmente não tivemos ocasião de ver o inseto pessoalmente. Segundo nosso informante, sr. Luiz Capra, vive sob a casca de cafeeiros velhos e abandonados.

As chamadas pelo povo baratas d'água servem-nos mais como exemplo de classificação popular errônea, pois realmente tratam-se de percevejos aquáticos da ordem Hemiptera.

Assim, também impropriamente, são denominados certos crustáceos da ordem tsopuda como baratinha d'água ou da praia: são animaizinhos que acompanham a linha da maré, vivendo entre pedras. Ainda outras espécies, parentes destas últimas, pertencentes, à mesma ordem, conhecidas geralmente como tatuzinhos ou papa-breu (Família Oaiseilue) são às vezes erradamente tratados pelo povo como baratinhas.

("As 'castas' das baratas. Chácaras e quintais. 15 de novembro de 1962)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005