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Ano VI - Edição 76
Março de 2005
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A cerâmica dos carajás

Maria Heloisa Fénelon Costa

Os índios carajás constituem um grupo de língua isolada que vive em diversas aldeias às margens do rio Araguaia, de Leopoldina a Conceição do Araguaia, concentrando-se principalmente na ilha do Bananal. São cerca de 1.000 ou mais indivíduos, incluindo-se o subgrupo Javaé, localizado no interior e leste da ilha. Têm pequena agricultura de subsistência, mas se dedicam especialmente à pesca cujos excedentes são vendidos à população regional brasileira. Hoje os homens se alugam como trabalhadores aos empreiteiros de pesca e aos turistas que necessitam de remadores.

Representa também para os carajás uma importante fonte de renda a venda de seus produtos artesanais aos negociantes civilizados.

A mulher carajás dedica-se ao fabrico de figurinhas de barro cozido, as litxokó ou bonecas e de potes e panelas, especialidade feminina já registrada por Ehrenreich em 1888, quando visitou este grupo indígena. As últimas são feitas para seu próprio uso, embora ocasionalmente atendam a encomendas de vasilhas destinadas à população sertaneja. no posto indígena Getúlio Vargas, porém, são as figuras humanas e zoomorfas objeto de produção intensiva, porque a sua acessibilidade por via aérea e fluvial permite a afluência de viajantes, compradores em potencial da cerâmica, e ainda de negociantes que percorrem o Araguaia trazendo produtos industriais a fim de trocá-los pelos artefatos indígenas. Preferem as estatuetas às vasilhas devido ao peso menor facilitar o transporte e também em razão de sua originalidade.

Há cerca de trinta ou mais anos, elaboravam as artesãs figuras de argila crua, esteatopígicas e esteatoméricas, sem braços e com pernas terminando em apêndices cônicos, e tendo cabeleiras de cera negra. Nas femininas colocavam uma tanga de líber (à imitação da usada pela mulher carajá). Eram brinquedo de meninas. Hoje, as figuras recebem cozimento e apresentam braços e pernas completos, e por vezes muita movimentação, ao contrário da rigidez própria às anteriores. E além de figuras isoladas, são construídos grupos que documentam cenas da vida tribal: dança de máscaras, fases do ritual de casamento, pescarias e de seios. São elas apenas o produto da imaginação das ceramistas, sem qualquer significado específico. Mas há outras de cabeça cilíndricas ou trapezoidais que representam seres fantásticos e têm uma origem antiga. Algumas simbolizam aves.

Aliás, dão os carajás um significado zoológico aos padrões geométricos usados na decoração da cerâmica, idênticos aos da pintura corporal e do trançado artístico: ziguezagues, listas, gregas, desenhos cruciformes e losangos.

Quanto à temática, há modas, variando ela de acordo com a aceitação no mercado. Isto é observado no posto indígena Getúlio Vargas, que é o centro de difusão do novo estilo cerâmico, pois agora tentam imitá-lo as mulheres dos mais próximos grupos locais carajás, Fontoura e mato Verde. O assunto preferido pela artista carajá, porém, seja dentro do antigo ou do novo estilo, é a representação de moças e rapazes, pois a juventude é o ideal de beleza e vida feliz.

a cerâmica é executada em barro avermelhado ou argila cinzenta, que tomam depois da queima coloração mais clara. Empregam de preferência a última, porque a pintura vermelha e negra usada na decoração das peças nela adquire mais realce.

Fazem a tinta vermelha com hematita de ferro e duas tintas pretas vegetais: uma à base de caroços de algodão e outra tirada de uma mirtácea: a primeira produz um negro intenso, aveludado, e a segunda é mais transparente e tem um leve brilho. A fim de proceder ao cozimento das peças pequenas, são estas depois de secas aquecidas um tanto longe do fogo e após algum tempo colocadas junto às chamas e brasas, o que por vezes ocasiona manchas escuras na superfície. As panelas e potes grandes, modelados segundo o procedimento de superpor rolos sobre uma placa circular, são queimados de início num brasido de fogo fraco e depois submetidos a fogo forte.

Embora as artesãs tenham modificado o estilo próprio do grupo indígena com o propósito de agradar aos compradores civilizados, a cerâmica dos carajás não perdeu certos traços antigos e típicos, entre os quais o gosto pelas figuras gordas — pois muitas peças recentes apresentam ligeira esteatomeria e esteatopigia — e a decoração delas com os padrões geométricos tradicionais da tribo. Tal nos permite considerar essa modalidade de arte como expressiva, ainda, de um caráter nacional carajá, entretanto fadado ao desaparecimento devido ao contato cada vez mais estreito do grupo com a sociedade brasileira.

 

(Costa, Maria Heloisa Fénelon. "A cerâmica dos carajá". Calendário Willis Overland para 1963)
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