Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 76
Março de 2005
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A lua e o caipira

Carlos Borges Schmidt

Voltemos às informações que o emérito divulgador das coisas do nossos caboclos — o sorocabano Aluísio de Almeida — através de um jornal da capital paulista, escreve a respeito das "conjunções da lua". Lua com til, como pronuncia o nosso habitante rural, anota aquele autor: Relativamente a uma área que abrange o centro e o sul do planalto paulista, Aluísio de Almeida registra as informações que "os velhos, em seu saber feito de experiência", "zelosos guardiões da tradição", proporcionam aqueles todos que os inquirem. Para estes, "a lua nova é a conjunção mais importante". Nesta fase "começam a crescer os cornos, palavra que os antigos iletrados sabiam. Hoje dizem apenas "o arco da lua".

Muitas das influências da nova são atribuídas ao quarto-crescente. Por outro lado, as influências da lua cheia assemelham-se às da minguante. A fase da lua vale durante três dias e três dias depois. Por nosso lado já ouvimos de gente muito antiga, que a "força" da nova são quatro dias antes e quatro dias depois, no que toca à influência sobre o tempo. Nesse espaço de tempo, encontra-se sempre a maior probalidade das perturbações. Abramos um parêntesis para registrar que as grandes chuvas que caíram sobre a capital bandeirante no ano 1960, causando tantas desgraças e tantos prejuízos tiveram início no dia 17 daquele mês. Fechemos o parentêsis. Quatro dias antes e quatro dias depois, ou três; neste período estaria a máxima influência de qualquer as fases da lua, fosse qual fosse ela. Anota Aluísio de Almeida que o nosso homem rural prefere dizer quarto-crescente, e para o quarto-minguante usa o verbo calar e o substantivo calação.

Na lua nova não costumam plantar milho, nem feijão, de vez que o caró, comum às duas plantas, as estragam. Como o arroz perfilha em muitos caules, esse pode ser semeado, sem perigo de prejuízo. A propósito, lembra que o caró de pau piúca, que a bugrada mistura com mel de pau e "passa para o peitos", segundo versão de antigos sertanejos. O milho e o feijão são deixados para plantar no quarto-crescente. Nesta fase da lunação são roçados os pastos e plantados o inhame, a mandioca e a batata. O cipó não fica quebradiço e portanto é ocasião oportuna para amarrar as cercas. As galinhas devem ser postas a chocar. É na lua minguante ou calante, que se cortam as madeiras e taquaras para ficarem imunes ao caruncho e durarem "um século". O fruticultor possui nesta fase o melhor ensejo para enxertar suas plantas.

Até no reino mineral influi a lua nova. Não serve para determinadas obras; as pedras não ficam bem ligadas, num tanque, por exemplo; solta-se o reboco e o barro abre-se em mil e uma rachaduras. No quarto-minguante o fabricante de tijolos ou cerâmica utilitária tira o barro, deixando-o em descanso à sombra, durante muitos dias.

Estudando o assunto desde 1945, e pelo menos até 1959, o sr. Salim Simão chegou à conclusão que nenhuma influência exerce a lua sobre as semeaduras, as chuvas, as colheitas, a conservação dos produtos, o crescimento dos vegetais, a produção e o corte das madeiras. Baseado em observações não encontrou qualquer relação entre as fases da lua e esta última operação. Quanto à influência decorrente por ocasião da lua cheia, lembra que essa claridade recebida pela terra é inferior à de uma vela, o que a luz do sol é meio milhão de vezes mais poderosa. Quanto a este aspecto, pois, seria descabida qualquer justificação. Quanto à influência da lua sobre a relva, atraindo-a e elevando-a na árvore, também aí nada encontra que justifique. Em uma planta de um metro de altura a ação da lua não poderia elevar a seiva mais de 0.1 de micro. Sabendo-se que o micro corresponde a um milésimo de milímetro, pode ser aquilatado da inutilidade da ação lunar. Em qualquer fase da lua a árvore derrubada pode ser atacada por insetos, antes de tudo atribuir à lua. Existem espécies de madeira mais apreciadas pelos insetos, sendo que a parte branca da madeira — o alburno — é mais atacada que o cerne. O alburno contém amigo e substâncias açucaradas enquanto o cerne possui tanino.

O mesmo autor, em outra oportunidade, teve ensejo de reproduzir as opiniões de vários técnicos que se dedicaram à procura da verdade, no que tange à influência ou não, das fases da lunação. A maioria contraria a aceitar a crença popular, positiva; alguns concordam em dar razão ao que o povo pensa e admite. Examinaremos a opinião de dois destes últimos. Para Kolisko é possível a influência da lua na oportunidade da semeadura e da germinação das sementes. Experimentando com ervilhas, couves, feijões, alfaces e tomates concluiu que melhores eram as semeaduras realizadas dois dias antes da lua cheia. O mesmo resultado foi obtido com nabos, beterrabas, cenouras. Convenceu-se mais que a semeação feita antes da lua cheia superava em 50% a 60% as executadas em outras fases. Outro experimentador que chegou a resultados positivos foi Azzi. Ele averiguou que a alface semeada na lua minguante desenvolvia-se muito bem, ao contrário da semeada na crescente, que florescia em duas ou três semanas. Assim também o rabanete; semeado na crescente, floresce em quinze a vinte dias; se na minguante prolonga-se até cento e vinte dias. As cebolas semeadas na crescente apresentavam bifurcação e floresciam, ao passo que as da minguante produziam belos bulbos. Afirmava Azzi que "o período que vai da lua nova até a cheia age no sentido favorável ao desenvolvimento vegetativo". Encerrando este artigo, dizia o sr. Salim Simão que voltaria a fazer referências, "com todos os dados obtidos, no sentido de demonstrar que a ação da lua, não possui tanta influência como querem muitos lhe atribuir". Se não possui a lua tanta influência, é que alguma interferência o autor admite existir.

De anos a esta parte a produção agrícola, dizem quase todos, tem caído bastante, de maneira a justificar em parte, a grande alta do custo de vida. Porque essa queda? A vários motivos pode ser atribuída. Inclusive, por parte de alguns como velhos lavradores da região de Cunha, entendem ao abandono, por parte dos agricultores, de certas normas de especial cautela, quais sejam, aquelas de atentar à fase da lua por ocasião das semeaduras. "Os mais idosos nos têm contado que muitas lavouras não vão para diante por que já não se observam a mais essas épocas não escolhem a lua certa". Esta explicação foi registrada pelo professor Alceu Maynard Araújo, em pesquisa entre 1945 e 1950 que levou a cabo naquela tradicional área paulista. No trabalho elaborado em decorrência de mencionada pesquisa, premiado em primeiro lugar num concurso promovido pela prefeitura paulistana, podem ser encontradas informações outras sobre a influência da lua na lavoura, tal como a entende o habitante rural daquela região de São Paulo. Para o lavrador cunhense, a primeira semeadura do arroz deve ser feita na nova de setembro; a do amendoim na lua cheia, porque na minguante dá chocho; milho e feijão devem ser plantados na minguante para não caruncharem; o alho planta-se na crescente; a cana-de-açúcar na minguante, pois na crescente bichará; a plantação da batatinha das águas e da seca, sempre três dias antes da lua cheia, quando está brotada, e, caso contrário da minguante em diante; batata-doce planta-se na cheia de novembro, pois plantada na minguante só dá rama; a mandioca deve ser plantada somente na crescente; a cebola é semeada na minguante e mudada na crescente, que é lua forte.

E continuam as observações feitas em Cunha. A lua da nova em diante é forte; planta de chão é na crescente e planta de ar, que são as que frutificam fora da terra deve ser semeada na minguante; os frutos que se apresentam rachados, os "que não agüentam crescer", resultam de floradas abertas na lua nova; a abóbora, o melão, o pepino e a melancia são plantados no minguante para não bicharem; cenoura, pimentão, o tomate na crescente; alface e repolho são semeados em qualquer lua, mas o transplante é feito na minguante para fecharem bem; a couve de muda é feita na minguante, será evitado o pulgão. Na mesma região, "até para barrear casa, observam a lua. Não se deve barreá-la na lua crescente porque o barro rachará: na minguante é bom porque o barro mingua e não se racha.

(Schmidt, Carlos Borges. "A lua e o caipira". Diário de São Paulo. São Paulo, 19 de março de 1961)
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