A primeira procissão que tivemos ocasião de observar, foi a de quarta-feira de cinzas. Organizada pela Ordem Terceira de São Francisco, partiu da capela da Misericórdia, percorreu as ruas principais da cidade e entrou no convento de Santo Antônio. Cerca de vinte ou trinta andores, carregados ao ombro pelos homens, tomaram parte no cortejo. Alguns levavam imagens isoladas, outros transportavam grupos representando passagens das Escrituras ou da história da igreja. As vestimentas das imagens eram todas muito vistosas. Os andores sobre os quais estavam instaladas aparentavam grande peso, necessitando às vezes de quatro, seis e oito homens para carregá-los, e estes mesmos não os agüentavam por muito tempo. Precisavam revesar com outros que iam ao lado, como se costuma fazer nos enterros. As ruas ficavam apinhadas de povo, notando-se numerosos escravos que pareciam se divertir vendo seus senhores empenhados em trabalhos pesados. De fato, estes se cansavam a ponto de correr o suor sobre seus rostos, como água. As imagens passavam pelo meio da rua entre alas de homens que levavam tocheiros com velas de cera, de diversos pés de comprimento. A frente de cada grupo de imagens ia um anjo conduzido por um padre e espalhando pétalas de flores pelo trajeto.
Como talvez o leitor deseje saber que espécie de anjos eram esses que tomavam parte nas festas, devemos explicar que constituíam eles uma classe especialmente criada para em tais ocasiões servir de guarda de honra aos santos.
Meninas de oito a dez anos eram geralmente as escolhidas para saírem de anjo, sendo então paramentadas com indumentária fantástica. A idéia dessas roupas parecia ser a de imitar o corpo e as asas dos anjos, para o que as mangas levavam armações especiais sobre as quais esvoaçavam gases, fitas, rendas, ouropéis e penas de variegadas cores. Na cabeça levavam uma espécie de tiara. Os cabelos caíam em cachos, e, o ar triunfal com que as crianças marchavam indicava que compreendiam perfeitamente a honra de constituírem os principais objetos de admiração.
Contrastando com a pompa e o aparato desses anjos, caminhava ao lado o escravo servil, levando sobre a cabeça uma caixa ou cesta cheia de flores para, de vez em quando, suprir a salva de prata de onde o anjo as tirava para espargir sobre o chão.
Guardas e bandas militares abriam e fechavam o cortejo. O passo era lento e medido, com paradas freqüentes para proporcionar aos irmãos pequenos descansos, e ao povo, oportunidade de admirar a procissão. Pouca gente parecia se emocionar com o espetáculo. Quando quisessem podiam ver nas igrejas essas mesmas imagens ou outras dos mesmos santos, e, se a idéia dessas demonstrações era a de edificar o povo, poderiam adotar outras maneiras mais fáceis e proveitosas. De fato a cena apresentava pouca solenidade e essa mesma era emprestada principalmente pelos irmãos que iam suando e se estafando sob o peso dos andores; até estes, de vez em quando procuravam se estimular dando prosa uns aos outros ou gracejando, quando os rendiam os substitutos.
Quando, levavam a hóstia, nessas procissões, pouca gente se ajoelhava à sua passagem; mas, ninguém jamais se lembrava de obrigar os recalcitrantes a tão profunda reverência.
Nenhuma outra classe se entregava com maior devotamento a tais demonstrações religiosas que os negros, particularmente lisonjeados com o aparecimento, de vez em quando, de um santo de cor ou de uma Nossa Senhora preta. “Lá vem o meu parente”, exclamou certa vez um negro velho que se achava perto de nós quando viu surgir em meio à procissão a imagem de um santo de cabelo encarapinhado e lábios grossos; e, no seu transporte de alegria, o velho exprimiu exatamente os sentimentos visados com tais expedientes.
A procissão de Nosso Senhor dos Passos é feita na Semana Santa. No primeiro dia sai da capela imperial e vai para a Misericórdia; no segundo, faz o trajeto inverso. O andor usado nessa procisão é muito grande e pesado; mesmo assim, porém, dom João VI e seu filho dom Pedro costumavam ajudar a carregá-lo.
A 19 de março comemora-se o dia de São José, o esposo da Virgem Maria. Sendo grandemente popular a sua devoção, a festa do “glorioso patriarca” é celebrada com grande pompa em várias igrejas, mas, especialmente nas que lhe são consagradas.
As festas do Domingo de Ramos são feitas com aparato e gosto que dificilmente podem ser ultrapassados. Os brasileiros não são indiferentes às belezas do mundo vegetal que os cerca, pois, em todas as solenidades empregam grande profusão de folhas, flores e ramos de árvores; no Domingo de Ramos, porém, a quantidade de palmas reais chega a ser grandiosa.
A Semana Santa, que encerra a Quaresma, é particularmente dedicada a serviços religiosos em comemoração à vida de Nosso Senhor. A história religiosa, é, porém, de tal forma modificada pela tradição e mistificada pelo excesso de cerimônias, que por elas, poucos poderão fazer idéia dos fatos que precederam a crucificação de Cristo. Os dias da semana são designados: Quarta-feira de Trevas, Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão e Sábado de Aleluia.
O dia do Lava-pés — como os ingleses chamam a Quinta-feira Santa — é guardado a partir do meio dia, até a mesma hora do dia seguinte. Não se tocam sinos nem se queimam foguetes nesse dia. As igrejas são vedadas à luz do dia e seu interior profusamente iluminado por velas de cera no meio das quais fica exposta, no altar-mor, a sagrada hóstia. Dois homens paramentados em seda roxa, postam-se de guarda. Em algumas igrejas fica exposta a imagem do Senhor morto, sob um pequeno dossel, tendo apenas uma das mãos para fora, de maneira que o povo possa beijá-la. Numa salva de prata que fica ao lado da imagem, depositam óbolos em dinheiro. À noite o povo passeia pelas ruas e visita as igrejas. Por essa ocasião, há geralmente, profusa troca de presentes o que redunda em benefício das escravas que nesses dias têm licença para vender doces por conta própria.
A Sexta-feira da Paixão continua em silêncio, havendo nesse dia a procissão do Enterro em que se leva pelas ruas a imagem do corpo de Cristo. À noite há sermão e nova procissão em que os anjos, paramentados como já tivemos ocasião de descrever, levam os instrumentos da crucificação. Um leva os pregos, outro o martelo, um terceiro a esponja, mais um a lança, o quinto empunha a escada e, finalmente, o sexto leva o galo que deu o aviso a Pedro. Centenas de pessoas levam tochas nessa procissão noturna, dando assim grande imponência à cena.
O Sábado de Aleluia é mais conhecido como o “Dia de Judas” devido às diversas maneiras simbólicas pelas quais o inglório patriarca sofre a vingança do povo. Os preparativos são feitos com antecedência, e, a certa altura da missa, soltam-se foguetes em frente à igreja. O espoucar dos rojões indica que está sendo cantada a aleluia. Começa então, em todos os recantos da cidade, a brincadeira da molecada. Bonecos grotescos representando Judas sofrem toda espécie de tormentas. São enforcados, estrangulados, afogados, etc. Em resumo, o traidor é representado em fogos de artifício e das maneiras mais fantásticas concebíveis, cercado de dragões, demônios e diabretes que o agarram de todos os lados.
Além das cenas mais custosas e complicadas que preparam para esse dia, os garotos e os negros também fazem seus Judas, que enforcam numa esquina ou arrastam pelo pescoço, nas ruas. Ao que consta, muitos dos costumes descritos pelo sr. Walsh com relação às comemorações destes dias, já caíram em desuso; pelo menos nunca os vimos praticados com tanta profusão como presenciou aquele autor no Rio de Janeiro de dez ou doze anos atrás.
Terminada a Quaresma, o Domingo da Ressurreição é saudado com triunfal descarga de foguetes e de salvas de artilharia pelos fortes e baterias. Sem dúvida que o povo, acostumado a essas exterioridades, não apenas como divertimento, mas, também como cerimônias religiosas, por força há-de apreciar a Bíblia visto como apenas meia hora de leitura das Sagradas Escrituras lhe proporcionaria maior soma de conhecimentos exatos e lhe daria impressão mais solene da paixão e morte de Cristo que as custosas cerimônias da Semana Santa, assistidas durante anos consecutivos.
[1837-1840]