Oh! musa santa dos mestres
Dai-me força, rima e arte
Pra contar as aventuras
De um tal Pedro Malazarte
Nos truques e palhaçadas
Nunca perdeu uma parte
Os planos todos acertados
Nem um cálculo ele perdia
Tinha conversa bonita
Nos negócios que trazia
Tinha ciladas bem feitas
Que até o diabo sorria
Morava com a mãe dele
Junto com o seu irmão
Mais velho do que ele
O seu nome era João
Desses que nasceu pateta
Liso, leso e bestalhão
A mãe dele adoeceu
E começou a sofrer
Pediu logo a confissão
Pedro disse: — João vai ver
O padre da freguesia
Antes da velha morrer
Sele a biscaia e vá logo
Dê o recado ao vigário
Ensine o caminho a ele
E vá comprar um rosário
Uma vela e um caixão
Porque isto é necessário
João foi buscar o padre
E Pedro não teve acanho
Disse: — Eu vou mornar água
Na velha vou dar um banho
Se por acaso ela morrer
A minha herança eu ganho
Botou um tacho no fogo
E quando a água ferveu
Pedro mergulhou a velha
Ela subiu e desceu
Foi logo esticando a perna
No mesmo instante morreu
A velha ficou tão dura
Parecendo um espigão
Pedro botou-lhe um chocalho
E uma vara de ferrão
Uma máscara e um chapéu
E na boca um cachimbão
Amarrou em um cavalo
E botou na direção
Quando o padre foi chegando
O cavalo viu então
A égua, e correu atrás
E a velha tome ferrão
De maneira que o padre
Entrou na rua gritando
O povo em grande alvoroço
Saíam fora olhando
Com pouco lá vem a velha
Em um cachimbo fumando
João demorou na viagem
Chegou já de manhãzinha
Pedro disse: — Mamãe morreu
Enterrou-se à tardinha
Nossa herança é essa égua
Uma banda é sua, outra é minha
Meteu o facão na égua
Fez a partilha legal
João arrastou uma banda
Botou no mato afinal
E Pedro pegou a dele
Retalhou e botou sal
Levou a carne pra feira
Fez a maior propaganda
Eu corto aonde quiserem
O comprador é quem manda
Nisto a negrada encostou
Foi pego pra toda banda
Pedro voltou para casa
Que chega vinha corcundo
Alegre e bem satisfeito
Que só peixe em poço fundo
Disse a João: — Agora mesmo
Eu vou andar pelo mundo
Na outra banda da égua
Ligeiro armou um laço
E pegou um urubu
Botou debaixo do braço
Seguiu dizendo: — O mundo
Pra mim não tem embaraço
Na porta de uma casa
Ouviu a mulher chamar
— Negra cuida do almoço
Teu senhor vem almoçar
E guarde comida das boas
Pra quando meu bem chegar
Pedro ouviu a mulher
Dizer com muita atenção
— Guarde a carne da galinha
Arroz e o macarrão
E guarde o vinho do Porto
Para a minha refeição
Pedro conheceu a trama
Ficou bastante animado
Com o urubu no braço
Ficou distante sentado
Esperando o dono da casa
Que chegava do roçado
Pedro botou-se pra lá
Com o passarinho na mão
Disse: — Bom dia, senhor!
Quero pedir ao patrão
Pra descansar um pouquinho
O homem disse: — Pois não
Ele amarrou o pássaro
Bem na perna da mesa
Porque ficava mais fácil
Sua janta com certeza
E na hora da comida
Fazia a sua defesa
Chamaram para o almoço
Pedro sentou-se então
Olhou os pratos e só viu
A farinha com feijão
Bateu com o pé no urubu
Foi a maior confusão
Ele nesta mesma hora
Levantou-se e foi dizendo:
— Se sabes, fique calado
Tanto que te recomendo!
Perguntou o homem: O que é
Que esse bicho está dizendo?
Pedro disse: — É porque ele
É um pássaro que adivinha
Ele agora disse a mim
Que lá dentro na cozinha
Tem vinho, arroz, macarrão
Carne de porco e galinha
A mulher ficou suspensa
Quase morre nesta hora
Gritou pela negra e disse:
— O que tu mereces agora?
A negra logo botou
Toda comida pra fora
E depois que almoçaram
O homem falou pra ele:
— Quer me vender este pássaro?
Diga quanto quer por ele
— Lhe dou por cem mil réis
Pode tomar conta dele
Contou todo mistério
Que o passarinho tinha
E disse: — Preste atenção
Toda essa história minha
Se alguém mijar-lhe a cabeça
Nunca mais ele adivinha
O homem passou-lhe as notas
E Pedro se retirou
Antes do homem ir pra roça
O passarinho amarrou
Com pouco tempo o amante
Da mulher também chegou
A mulher disse: — Meu bem
Para aqui hoje veio mandado
Um homem com um passarinho
Adivinhão que é danado
Adivinhou as comidas
Que eu pra ti tinha guardado
Para mais endireitar
Meu marido comprou ele
Comprou-lhe por cem mil réis
E hoje é o dono dele
Mas adivinhar assim
Eu nunca vi como aquele
A negra disse: — Eu faço ele
Nunca mais adivinhar
E foi logo se abaixando
O urubu pôde pegar
A negra com muito jeito
Mesmo naquele lugar
O homem correu pra casa
E vendo aquele mistério
Deu uma surra na mulher
Pela falta de critério
Pegou o cabra no reio
Mandou-lhe pro cemitério
O homem disse: — Eu vou dar
Mais cem mil ao rapaz
E saiu atrás de Pedro
Um adiante, outro atrás
Dizendo: — Pegue o dinheiro
Seu passarinho vale mais
Mas Pedro não escutava
O que o homem dizia
Quanto mais ele gritava
Ainda mais Pedro corria
Ele dizia: — Pegue o dinheiro
Mas Pedro não entendia
Adiante ele entendeu
Esperou com muito medo
O homem chegou e disse:
— Descobri todo segredo
Contou o que se passou
Deu mais cem mil réis a Pedro
Pedro souber por notícias
Que nas terras de um reinado
Dos passarinhos do rei
Tinha um pássaro se soltado
A rainha dava um conto
A quem pegasse o pintado
Pedro defecou de um lado
De uma estrada que tinha
E cobriu com o chapéu
Quando um cavaleiro vinha
Disse: — Patrão, peguei hoje
O pintado da rainha
A rainha dá um conto
À pessoa que pegá-lo
Mas é um pássaro tão brabo
Eu tenho medo de soltá-lo
Vou chamar gente na rua
Fique, me dê o cavalo
O homem era interesseiro
E disse: — Eu vou ser o maior
Pegue a minha roupa e vista
Fique igual a um major
Que eu fico com a sua
Cheia de grude e suor
Pedro saiu na carreira
O homem ficou no caminho
Dizendo: — Agora eu vou
Pegar só o passarinho
E vou levar no palácio
Ganho o dinheiro sozinho
E meteu a mão por baixo
Conheceu perfeitamente
Que não era passarinho
Era defeque somente
Com o desgosto que teve
Enlouqueceu de repente
Pedro vendeu o cavalo
E a roupa negociou
Seguiu pelo mundo a fora
Muito adiante avistou
A fazenda de um ricaço
Logo pra lá se botou
Chegando, bateu na porta
Uma mulher veio olhar
— Bom dia, senhora dona
Seu marido aonde está?
A mulher disse: — Saiu
Talvez demore a chegar
Se tem negócio demore
Ele disse: — Sim, senhora
A mulher lhe perguntou:
— O senhor aonde mora?
Pedro disse: — Sinhá dona
Eu cheguei do céu agora
A mulher já tinha sido
Viúva a primeira vez
Muito alegre conversando
Perguntou com rapidez
Disse ele: — Venho do céu
Falando muito cortês
— E como vai lá no céu?
A mulher lhe perguntou
Ele disse: — Lá no céu
A crise agora atacou
Não tem roupa e nem dinheiro
O tempo agora arroxou
— O senhor conhece Fernando
Que há dois anos morreu?
É meu primeiro marido
O senhor o conheceu?
Pedro disse: — Conheço
Ele é muito amigo meu
Dona eu vou lhe contar
Deste pobre a triste cena
Para melhor lhe dizer
Só em conversar faz pena
Ele está passando fome
Chora que só Madalena
O pobre está tão magrinho
Se você ver não reconhece
Está pedindo cigarros
Mas ninguém lhe oferece
Logo ele é muito acanhado
Por isto é quem mais padece
Com a notícia a mulher
Chorou sem consolação
Botou num saco bem grande
Arroz, farinha e feijão
Mandou roupa pro marido
Cem mil réis e um capão
Pedro agarrou tudo e disse:
— Eu agora vou sair
Muito obrigado sinhá dona
Por ali eu vou seguir
Porque de cima da serra
Fica melhor de subir
E pegou logo o carrego
Que quase não se ajuda
Pensou dentro de si:
— Fiz uma feira graúda
Se o marido dela pegar-me
Não tem santo que me acuda
E saiu, foi embora
A mulher ficou chorando
O seu marido também
Nesta hora foi chegando
Saltou do cavalo abaixo
E foi logo perguntando:
— O que é que tens, mulher
Por que é que tanto chora?
Disse a mulher: — Foi um homem
Que chegou do céu agora
Veio ver remissão do mundo
Saiu não faz meia-hora
E me disse que no céu
A necessidade é grande
Mandei dinheiro e feijão
Mandei roupas pra Fernando
Quando ele quiser mais
Pode vir buscar ou mande
O homem disse: — Mulher
Deixa de ser idiota
Quem parte pro outro mundo
Pra este mundo não volta
Este cabra é mentiroso
Que veio com esta lorota
Disse ele: — Eu vou atrás
Só volto quando pegá-lo
A mulher disse: — Marido
Se tu ainda encontrá-lo
Te contará tanto choro
Que tu dá é o cavalo
Pedro viu que atrás dele
Lhe seguia um burburinho
Ele pensou: — É o homem
Que vem com outro ou sozinho
Escondeu tudo no mato
Ficou em pé no caminho
O homem disse: — Bom dia
Me diga se viu ou não
Passar aqui um sujeito
Com um grande matulão
E um peru debaixo do braço
Do outro lado um capão?
Dizendo que veio do céu
Aqui, buscar remissão
A mulher deu-lhe dinheiro
Fumo, farinha e feijão
Pedro disse: — Isto é armada
De algum cabra ladrão
Ora esta, quem já viu!
Quem lá no céu estiver
Querendo voltar não volta
Porque mesmo Deus não quer
Aquele cabra ladrão
Roubou a sua mulher
Por isso que ainda agora
Quando o senhor vinha ali
Ele entrou naquelas canas
Eu presenciei daqui
Mas não sabia quem era
Por isto deixei fugir
Eu estou com um pé doente
Não posso nem lhe ajudar
Mas se me der o cavalo
Ajudo o senhor a pegar
Neste partido de cana
Antes dele atravessar
O homem disse: — Eu fico
Devendo-lhe este favor
Pegue logo o meu cavalo
Siga pelo corredor
Que eu vou beirando a cerca
Pedro disse: — Sim, senhor
O homem perdeu-o de vista
E começou a gritar
Voltou pra casa e a mulher
Começou a lhe interrogar
Perguntou: — E seu cavalo
Disse ele: Eu mandei ele levar
Pedro chegou na fazenda
De um senhor de engenho
Perguntou-lhe: — Tem trabalho?
O coronel disse: — Tenho
Pedro disse: — Pois eu quero
Que com precisão eu venho
Pedro soube que este homem
Tinha tirado de João
Duas correias das costas
Por ter perdido a questão
Pedro disse: — Agora é tempo
De eu vingar meu irmão
Pedro inventou um meio
Do jeito que o diabo gosta
Disse: — Eu só trabalho
Com o senhor fazenda aposta
Para quem se arrepender
Dá três correias das costas
Fizeram logo o contrato
E no outro dia então
O senhor de engenho deu-lhe
Uma foice e um facão
Disse: — Vá cortar madeira
Linheira e de posição
Quero que você me corte
Uma madeira linheira
Pedro chegou num baixio
Num sítio de bananeira
E disse: — Até muito perto
Já encontrei a madeira
Meteu depressa o facão
Foi a torto e a direito
Fez um montão de madeira
Voltou muito satisfeito
Disse: — Patrão, cortei as linhas
Pra ninguém botar defeito
Quando o homem foi olhar
As bananeiras no chão
Disse: — Pedro, mas você
Fez agora uma traição
Pedro disse: — Arrependeu-se?
O homem respondeu: — Não!
O patrão tinha três filha
Combinou com todas três
Irem pescar com Pedro
Pensando assim: Desta vez
Eu mato ele afogado
Para pagar o que fez
E depois da pescaria
Foram dormir num rochedo
Embaixo da cachoeira
Tão funda de fazer medo
As moças estavam avisadas
Pra noite empurrarem Pedro
Pedro amarrou uma perna
E prendeu na ribanceira
Na hora que lhe empurraram
Deu meia volta ligeira
E gritou: Eita as meninas
Caíram na cachoeira!
O homem disse: — Pedro
Você não tem coração
Pedro perguntou a ele:
— Está arrependido, patrão?
Ele disse: — Não, senhor
Pedro disse: — Eu também não
Ele disse: — Pedro
Amanhã vá embora
Quando o macuca cantar
Pode sair nesta hora
Mandou a velha mãe dele
Cantar do lado de fora
Pedro tinha uma espingarda
Passou o dia ajeitando
Pela madrugada a velha
Se pôs num toco cantando
Pedro sapecou-lhe fogo
A velha caiu gritando
Nesta hora a velha dava
Gritos e mais gritos estranhos
O homem arrependido
Num desgosto sem tamanho
Pedro disse: — Dê-me as costas
Quando eu faço apostas
Tenho certeza que ganho
FIM