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Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

Três temas do folclore infantil

Guilherme Santos Neves

Ilustração de Marcos Jardim

Há tempos, recolhemos de um pequeno órfão — o Chico (Epaminondas Cabral dos Santos) — a seguinte "praga" infantil, dita contra um guarda que se postara na rua, impedindo continuasse a pelada dos garotos:

Cruz de fogo
Cruz de ferro
Se o guarda não for embora
Quando morrer
Vai pro inferno!

Segundo meu pequeno informante, esta praga se usa para qualquer coisa que se deseje, mudando-se apenas o terceiro verso; a fórmula é pronunciada cuspindo-se no chão e fazendo, por gesto, as cruzes que ela menciona.

Mais tarde, lendo o precioso registro de folclore maternal e infantil que é o livro L'enfant et sa mére à travers le monde, publicado por madame Humphery d'Honfroi (Paris, 1939), com a colaboração de inúmeras escritoras de todas as nacionalidades, fomos encontrar a possível versão original daquela praga infantil, no registro "en Champagne", França, página escrita por Germaine Maillet. Diz assim o tópico que aqui nos importa: "L'enfant, avec ses camarades d'école, jure sa 'parole d'honneur la plus sacrée', il crache pour terre et fait le signe de la croix en disant:

Croix de fer, croix de fer
Si je mens, [jirai] en enfer
"

Tal como a praga capixaba: a mesma cruz de fogo, a mesma cruz de ferro e o mesmo castigo do inferno.Também o gesto que acompanha a jura infantil francesa, se repete na praga, aí entrando, como espécie de sagração simbólica — a saliva e as cruzes.

Recentemente, no livro Folclore venezuelano, de R. Olivares Figueroa (Caracas, 1948, tomo 1, p.190), deparou-se-nos variante da jura francesa, assim disposta:

"Casita de palo
Casita de hierro
Si no me lo pagas
Te vas al inferno
"

A casinha substitui a cruz: o pau, ao fogo; o terceiro verso conforme garantia o Chico — deve de ser variável sempre, ao jogo dos acontecimentos e dos desejos infantis. Por fim, o mesmo castigo: "te vas al inferno".

Vê-se, por este breve registro, como é idêntico em toda a parte, o folclore infantil. Praga ou jura (possivelmente de origem francesa — veja-se a rima consoante e perfeita: fer e enfer — fato que não ocorre na versão capixaba e na venezuelana) — praga ou jura percorre os ares e mares e vem tomar na América, feição própria — no Brasil (Espírito Santo) e na Venezuela — servindo, como na França, na boca das crianças, para as suas juras ou pragas ingênuas e sem maldade.

E por falar em jura infantil, aqui vai uma velha expressão irreverente, ainda hoje comum entre as crianças capixabas. Trata-se de um dito rimado ou resposta brejeira, como aquelas que habitualmente se fazem (Que é isso? — Chouriço! — Que horas são? — Oração de São Marcos...). Uma criança conta um fato qualquer. A que ouve não o crê, e logo exclama: — Jura! — a primeira, então, dá-lhe a resposta engatilhada: — Pelo cu da tanajura!

Não vimos registado esse dito em nenhum dos estudos de parlendas e rimas infantis, o que não significa ser ele exclusivamente capixaba.

Essa jura, por sua desbocada irreverência, faz lembrar a resposta menineira de outrora, à pergunta: — Onde? — No cu do conde, sabereis adonde? — dito rimado que Mário de Andrade recolheu também em São Paulo, conforme citação em seu livro Namoros com a medicina, parte referente à "Medicina dos excretos", página 90.

Apesar da aspereza da expressão, continuamos a pensar que não há propriamente maldade nesses e noutros ditos infantis. Já o dizia outrora mestre João Ribeiro — e a advertência servirá aqui para que nos relevem as palavras em reticências:

"Excusem-se no que têm de nada limpos estes versículos, com serem ditos de crianças. Em geral, não ajuntam elas maldade ou propósito de ofensa do bom gosto". (Folclore, página 91)

 

(Neves, Guilherme Santos. "Três temas do folclore infantil". A Gazeta. Vitória, 24 de setembro de 1952)
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