Há tempos, recolhemos de um pequeno órfão — o Chico (Epaminondas Cabral dos Santos) — a seguinte "praga" infantil, dita contra um guarda que se postara na rua, impedindo continuasse a pelada dos garotos:
Cruz de fogo
Cruz de ferro
Se o guarda não for embora
Quando morrer
Vai pro inferno!
Segundo meu pequeno informante, esta praga se usa para qualquer coisa que se deseje, mudando-se apenas o terceiro verso; a fórmula é pronunciada cuspindo-se no chão e fazendo, por gesto, as cruzes que ela menciona.
Mais tarde, lendo o precioso registro de folclore maternal e infantil que é o livro L'enfant et sa mére à travers le monde, publicado por madame Humphery d'Honfroi (Paris, 1939), com a colaboração de inúmeras escritoras de todas as nacionalidades, fomos encontrar a possível versão original daquela praga infantil, no registro "en Champagne", França, página escrita por Germaine Maillet. Diz assim o tópico que aqui nos importa: "L'enfant, avec ses camarades d'école, jure sa 'parole d'honneur la plus sacrée', il crache pour terre et fait le signe de la croix en disant:
Croix de fer, croix de fer
Si je mens, [jirai] en enfer"
Tal como a praga capixaba: a mesma cruz de fogo, a mesma cruz de ferro e o mesmo castigo do inferno.Também o gesto que acompanha a jura infantil francesa, se repete na praga, aí entrando, como espécie de sagração simbólica — a saliva e as cruzes.
Recentemente, no livro Folclore venezuelano, de R. Olivares Figueroa (Caracas, 1948, tomo 1, p.190), deparou-se-nos variante da jura francesa, assim disposta:
"Casita de palo
Casita de hierro
Si no me lo pagas
Te vas al inferno"
A casinha substitui a cruz: o pau, ao fogo; o terceiro verso conforme garantia o Chico — deve de ser variável sempre, ao jogo dos acontecimentos e dos desejos infantis. Por fim, o mesmo castigo: "te vas al inferno".
Vê-se, por este breve registro, como é idêntico em toda a parte, o folclore infantil. Praga ou jura (possivelmente de origem francesa — veja-se a rima consoante e perfeita: fer e enfer — fato que não ocorre na versão capixaba e na venezuelana) — praga ou jura percorre os ares e mares e vem tomar na América, feição própria — no Brasil (Espírito Santo) e na Venezuela — servindo, como na França, na boca das crianças, para as suas juras ou pragas ingênuas e sem maldade.
E por falar em jura infantil, aqui vai uma velha expressão irreverente, ainda hoje comum entre as crianças capixabas. Trata-se de um dito rimado ou resposta brejeira, como aquelas que habitualmente se fazem (Que é isso? — Chouriço! — Que horas são? — Oração de São Marcos...). Uma criança conta um fato qualquer. A que ouve não o crê, e logo exclama: — Jura! — a primeira, então, dá-lhe a resposta engatilhada: — Pelo cu da tanajura!
Não vimos registado esse dito em nenhum dos estudos de parlendas e rimas infantis, o que não significa ser ele exclusivamente capixaba.
Essa jura, por sua desbocada irreverência, faz lembrar a resposta menineira de outrora, à pergunta: — Onde? — No cu do conde, sabereis adonde? — dito rimado que Mário de Andrade recolheu também em São Paulo, conforme citação em seu livro Namoros com a medicina, parte referente à "Medicina dos excretos", página 90.
Apesar da aspereza da expressão, continuamos a pensar que não há propriamente maldade nesses e noutros ditos infantis. Já o dizia outrora mestre João Ribeiro — e a advertência servirá aqui para que nos relevem as palavras em reticências:
"Excusem-se no que têm de nada limpos estes versículos, com serem ditos de crianças. Em geral, não ajuntam elas maldade ou propósito de ofensa do bom gosto". (Folclore, página 91)