Cada vez mais me convenço de que é copioso e riquíssimo o filão folclórico existente em nossa terra capixaba, à espera apenas de quem, com paciência e bom interesse, o queira descobrir, pesquisar e recolher.
Não faz muito, fui dar, na praia de Manguinhos, com uma interessante e brejeira cantiga de roda que me era inteiramente desconhecida.Ouvi-a cantar, em sua toada alegre e saltitante, e consegui colher-lhe a letra que aqui vai:
Cecília, minha Cecília
Oh! Cecília, meu amor!
Cecília me deixou
Oh que pena, oh que dor!
Na cabeça de Cecília
Nasceu um pé de arroz
O povo estão dizendo
Que Cecília é de nós dois
Na cabeça de Cecília
Tem um pé de girassol
O povo estão dizendo
Que Cecília é minha só
Na cabeça de Cecília
Tem um lindo pé de flor
O povo estão dizendo
Que Cecília é meu amor
Na cabeça de Cecília
Tem um pé de alecrim
O povo estão dizendo
Que Cecília é só pra mim
Pra terminar esses casos
Que só fala de Cecília
Quem souber agora cante
Os versos de dona Emília
Os versos de dona Emília
Não se canta em nossa roda
Só se canta os de Cecília
Que não são versos da moda
Recolhidos os versos, procurei sondar nos cancioneiros brasileiros e portugueses que possuo, a fonte da Roda Cecília. Debalde. Nem o Brasil cantando, de frei Sinzig; nem Os nossos brinquedos e Cantigas das crianças e do povo, de Alexina de Magalhães Pinto; nem o Ciranda, cirandinha, de J. Gomes Júnior e J. Batista Julião; nem os Jogos e canções infantis, de Aloísio de Lima; nem o magnífico Arquivo Folclórico da Discoteca Pública Municipal de São Paulo, primeiro volume, organizado pela distinda folclorista Oneida Alvarenga; nem os sempre valiosos artigos de Cecília Meireles, Infância e folclore — nada me pôde fornecer a fonte, originária da bonita ronda cantada no Espírito Santo.
Daí, claro, não se pode concluir que Cecília, minha Cecília seja roda original, criada aqui em terras capixabas. Outras pesquisas ainda pretendemos fazer, a fim de melhor perscrutar-lhe a procedência. Depois, então, sim — é possível arriscar tal afirmativa.
Essa ronda infantil, não a cantam apenas as crianças e mocinhas da praia de Manguinhos. Pude localizá-la também em Jacarandá, município de Jabaeté, e em Duas Bocas (Cariacica). As versões dessas localidades, recolhidas graças à colaboração de duas alunas do Colégio do Carmo, não seguem fielmente a cantiga de Manguinhos. Ao contrário — diferem dela em quase todas as quadrinhas, coincidindo apenas em uma ou outra. Trata-se, porém — sem ponta de dúvida — da mesma ronda infantil.
A variante de Jacarandá começa com as seguintes quadras:
Cecília, minha Cecília
Cecília do meu xodó
Chorando pra ir mais eu
Ai que pena, ai que dó
Cecília, vós não choreis
Que eu ainda não me vou
Enxugai os vossos olhos
Pra chorar quando eu me for
Cecília, minha Cecília
Cecília do meu xodó
Toma lá este lencinho
Pra enxugar seu suor
Em seguida, começa a série de quadras com o pé de verso "Na cabeça de Cecília", com rimas diversas ("pé de ameixa — não me deixa"; "pé de arroz — de nós dois"; "pé de repolho — piolho"; "pé de cará — quer casar").
A versão de Duas Bocas principia assim:
Cecília, minha Cecília
Cecília, de mim tem dó
Se quiser casar comigo
Sou solteiro e moro só
Seguem-se as quadras comuns "Na cabeça de Cecília", com as rimas "pé de feijão — de João", "pé de café — de José", e o mesmo "pé de arroz — de nós dois".
Tal variante finaliza com estas duas quadras que não se deparam nas duas outras versões capixabas:
Cecília, minha Cecília
Seu marido está doente
Tomara que ele já morra
Pra você gostar da gente
Cecília, minha Cecília
Seu marido já morreu
Foi na gruta de São Paulo
Que o bicho já comeu
Como se vê, as três versões ora se aproximam, ora se apartam. Aliás, é possível criar, nesse folguedo de roda, uma porção de versos do tipo "Na cabeça de Cecília", dada a feição muito simples e fácil de suas quadrinhas.
Aqui finda o material que até agora pude recolher acerca da brejeira e jovial cantiga de roda Cecília, minha Cecília.
Quem me quererá auxiliar na tarefa prestante de reconstituí-la toda, marcando-lhe as zonas em que tal ronda infantil se canta?