Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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A fala nos quartéis

Saul Martins

A recolha, análise e publicação de termos e expressões correntes na fala da gente dessa ou daquela parte do território, ou comunidade, atraíram sempre os estudiosos da língua e os da cultura popular. E quem se interessa pelo assunto com certeza não desconhece o veio feracíssimo de dialetologia mineira, já explorado, e bem, por Sousa Pinto, Manoel Ambrósio, Aires da Mata Machado Filho, Mário de Andrade, Lindolfo Gomes, Fausto Teixeira e outros muito.

Os modismos, em seus vários aspectos e numerosas denominações, presos sem dúvida aos estudo dialetais, também surpreendem agradável ramo da lingüística, razão por que merecem arrolados com inteireza e difundidos com exatidão.

No meio dos centros mais adiantados do país, onde a língua é protegida e cultivada, neles precisamente uma grande classe de homens, a dos soldados, criaram uma fala própria. E, apesar de as corporações militares estarem separadas umas das outras por distâncias às vezes consideráveis, acham-se entretanto unidos os soldados de uma e outras por vínculos comuns de profissão, hábitos e preconceitos. Assim, qual gânglios se comportam, mergulhadas na boa sociedade, anastomosadas entre aí por liames fraternos. E nisto vê-se uma razão do linguajar inerente à caserna, de cujos termos e expressões alguns, é bem de ver, se alinham entre os de gíria, dada a preocupação esotérica que deixam antever, servindo-nos aqui da erudita definição do ilustre gramático Gladstone Chaves de Melo há pouco citada pelo sr. Cristiano Nogueira Filho.

A título de amostra, pois, apresento os modismos que se seguem, resultado de breve pesquisa a que procedi:

A bem da Inácia: Equivale esta expressão a "a bem da disciplina". Com efeito, disse que um soldado foi transferido de unidade "a bem da Inácia" quando se quer dizer que a remoção se deveu a mau proceder.

A meio dia de folga: Serviço apertado; trabalho ou ação que se repete sempre. Trabalhar, — divertir-se — trabalhar demais, divertir-se muito. Claro que a expressão nasceu do ritmo de tarefa em que o militar obtém, das 24 horas do dia, apenas 12 horas de descanso.

Antena: Mexeriqueiro; espoleta.

Bibico: Casquete

Bigodear: Além do sentido clássico de iludir, enganar dão-lhe nos quartéis a ação clara de lesar, prejudicar; "F... me bigodeou na promoção".

Calça-curta: Delegado de polícia. O paisano do interior que exercer esse cargo.

Caxias: Diz-se do superior exigente.

Chutar: Embriagar-se; beber. "F... tá chutando": anda bebendo pinga.

Crente: Diz-se do militar perfeito, de atitude irrepreensível e versado nos regulamentos. Superior exigente.

Cumpincha: Amigo. Superior indulgente para os subordinados.

Desapertar: Furtar. Há mesmo um ditado: "O soldado não furta, desaperta".

Desopilar o fígado: Falar mal de; tesourar.

Dica: O fio da meada; indício; deixa. Pinta que leva alguém a descobrir algo.

Dono da fazenda: Comandante da unidade. O chefe.

Dormente: A insígnia do sub-tenente.

Enquadrado: Mesma significação de crente.

Enquadrar: Exigir, repreender, castigar.

Escrever nas costas: Apresentar o superior parte contra o subordinado.

Estar no toco: Encontrar-se o militar de serviço à guarnição.

Fazer a caveira: Indispor subordinado contra superior. Malquistar.

Fazer macaco: Vender ordens de subsistência, de farmácia, ou vales de cantina, ou cautela, fianças, peças de uniforme recebidas do Estado e outros muitos negócios dessa natureza.

Ferro-velho: Diz-se do praça incapaz para exercícios físicos e militares. Poupado.

Filho-de-Maria: Cadete.

Folheado a ouro: Oficial de administração das polícias militares.

Gato morto: O decreto nº 7.712, de 16 de junho de 1927. Qualquer regulamento obsoleto.

Golinha: Ofícial de CPOR.

Gordurame: O mesmo que bojão.

Grilo: Guarda-civil.

Imbé: Insígnia de oficial de polícia. O modismo, talvez, veio por empréstimo da trepadeira do mesmo nome, dada a semelhança que certamente viram entre o cipó e o laço que caracteriza a platina dos ditos oficiais.

Jegue: Roupa larga. O uniforme pago ao soldado pelo Estado.

João-de-barro: Soldado de polícia. Sem dúvida o apelido foi inspirado na semelhança do cáqui com a plumagem amarelo-barro do pássaro que emprestou seu nome.

Juntar os adobros (adobe): Unir os calcanhares. Tomar o subordinado a posição de sentido para o superior.

Lagartixa: Insígnia de praças de pré. Divisa.

Ligação: O mesmo que cumpincha.

Macarrão: O mesmo que imbé.

Mata-ministro: Anspeçada. Cremos que o termo apareceu após o assassinato, pelo anspeçada Marcelino Bispo, do marechal Carlos Machado Bittencourt, ministro da Guerra do governo Prudente de Morais.

Meganha: Soldado da polícia.

Meninos da Candinha: Soldados.

Mofar: Ficar o militar esquecido no posto de sentinela. Ser prejudicado na rendição do serviço.

O carvão tá curto: Falta de dinheiro.

O que cheira lá, fede aqui: Frase que mostra igualdade na hierarquia militar, por isso equivalente a "somos iguais", "o que você tem eu possuo".

Papagaio: Qualquer parte disciplinar.

Pau-de-tinta: Caneta. Sapecar o... — levar ao conhecimento superior falta disciplinar de subordinado.

Pé-de-poeira: Soldado de infantaria.

Peixinho: O militar protegido por superior importante.

Pelada: Curso intensivo para formação de oficiais, ou de graduados.

Peludo: Soldado do Exército.

Periquito: O mesmo que peludo.

Pica-fumo: Anspeçada.

Pracinha: Soldado da Força Expedicionária Brasileira.

Queimar: O mesmo que escrever nas costas.

Rabo-de-sola: Soldado de cavalaria.

Riuna: O mesmo que jegue; botina larga.

Sapecar: Mesma significação de escrever nas costas.

Sargentão: Inferior que não cursou escola de formação.Tarimbeiro.

Seu Estácio: O superior de cuja pessoa se fala mal. Apelidam-no seu Estácio, naturalmente para desviar suspeitas quando a conversa se verifica no pátio do quartel, ou em repartições sujeitas à ação dos leva-e-trás.

Seu Gê: O Comandante Geral.

Seu pai: O Comandante da Unidade.

Tesa: Exigência. Diz-se do superior dado a traquejar.

Tijolo: Oficial que não cursou escola de formação. Tarimbeiro.

Xilindró: Xadrez, prisão.

(Martins, Saul. "A fala nos quartéis". Diário de Minas. Belo Horizonte, 25 de abril de 1954)
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