Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Ilustração de Marcos Jardim

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 64
MARÇO 2004

Linguagem popular nos Estados
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Frases Feitas

Falares Capixabas

Adágios, axiomas, provérbios, rifões, termos musicais

Gírias e modismos

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O dinheiro na linguagem popular

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Dizeres de nossa gente

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Apelidos sertanejos

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EDIÇÃO ESPECIAL - COISAS QUE O POVO DIZ: Nesta edição, textos sobre linguagem popular, termos e expressões, frases feitas, apelidos.


Adágios, axiomas, provérbios, rifões, termos musicais

Extraídos do trabalho de Gumercindo Saraiva

Afinar a rabeca à custa do próximo: atirar com a pólvora alheia é a mesma coisa. Não ter personalidade, conseguindo as coisas através de amizades. Viver às custas de terceiro. Ser medíocre.

Ainda que o galo deixe de cantar, a manhã aparece: está positivo que ninguém pode impedir a coisa bem estruturada. Ninguém pode cobrir o sol com uma peneira. O que tem de acontecer, previsto em lei, se realiza, mesmo com oposição de terceiros. Ninguém pode fugir ao seu destino.

Aprendeu música engatinhando: quer dizer que aprendeu a arte dos sons ainda jovem, criança. Engatinhar o mesmo que iniciar em alguma coisa.

Arranhar instrumento: músico modesto que, ao se referir à sua profissão, diz sempre: "Eu arranho o violino". Arranhar, isto é, tocar sem técnica.

Bater teclas: tocar piano pessimamente.

Canta Marta depois de farta: depois de conseguirmos atingir o alvo, aí, sim, podemos nos alegrar. Saco vazio não se põe em pé...

Canta o abade, responde o sacristão: quer dizer que está tudo sintonizado, ajustado, cordato. O abade canta e o sacristão responde, isso, nos atos litúrgicos da igreja católica. Existe um adágio muito parecido: Como canta o galo velho, assim cantará o novo.

Cantador de lérias: trata-se de um adjetivo muito usado nas pessoas de conversa mole, onde os lenga-lengas sempre vêm à tona. O palavreado, lábia, loquacidade, são lérias que o povo não dá importância. É um cantador de coisas sem importância.

Cantiga velha não custa entoar: quer dizer que temos que recorrer às tradições e costumes de nossa gente. Um costume antigo é mais fácil compreendermos do que nos situarmos em futilidades do presente.

Em cima de si sem dó: pilhéria pejorativa, usada nas rodas dos músicos.

Entrar na contra-dança: tomar parte numa briga, levando a melhor. Entrou com disposição. Venceu com sua habilidade. Coreograficamente, refere-se à dança de quatro ou mais pares, defrontando-se um com o outro.

Esta música é um estouro: a composição subiu, venceu, fez sucesso. É um estouro de vendagem. seu nome é um estouro. A valsa de Tonheca é um estouro.

Foi ao baile fazer renda (ou fazer crochê): quer dizer que foi ao baile e não dançou.

O instrumento gemeu a noite toda: durante toda a noite foi ouvido o canto do instrumento. O violino gemeu suas mágoas. As cordas do violão choraram, como gente.

Levar gongo: gongo é um instrumento chinês. Levar gongo é o mesmo que ser reprovado. Tomou pau. Foi desclassificado.

Música branca: composição de leitura fácil. Música de grande dificuldade, essa que alguém chama de "branca", em seu desenho, requerendo muita interpretação do artista.

Nem sempre aquele que dança é quem paga a música: o bom paga pelo pecador. As injustiças constantes da vida. O inocente, injustiçado é apedrejado. O prato nem sempre é para quem o fez, dizem.

Nessa música eu não entro: também existem os provérbios: neste samba, não entro; não danço em corda bamba; não danço em forró de negro. Quer dizer que a pessoa não participa de funções duvidosas. Não se arruma em locais desconhecidos.

Pisar na cabeça da nota: mestre de banda de música que ordena ao músico acentuar determinada nota. Outros há que dizem: "pise com força..."

Sem si-ré-lá: pilhéria usada nos meios musicais, principalmente entre os que são mais prosaicos. Não tem significado definido, mas queremos atribuir a ligação das cinco notas musicais, a uma possível composição de frase que significasse, mais ou menos que alguém iria para o solfá, sem se relar. Será?

Som de taboca rachada: diz-se do instrumento mal-tocado, desafinado. O trombone do Zeferino tem som de taboca rachada...

(Saraiva, Gumercindo. Adágios, provérbios e termos musicais. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1985)