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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

Galinha que canta como galo

Veríssimo de Melo

Galinha que canta como galo é mau agouro, diz uma superstição norte-riograndense. Quem ouve tal canto sabe logo que vai haver desgraça. A anomalia é prenúncio infalível de "coisa-ruim", como diz o povo.

Domingo de Loreto Couto [1] parece-me que foi o primeiro a consignar a crendice no país. Entre as "principais superstições setecentistas no Brasil", incluiu ele o "cantar da galinha", sem fazer alusão à imitação do canto do galo, mais como prognóstico certo de desgraça. Cornélio Pires, citado por Leonardo Mota [2] anotou abusão idêntica no interior de São Paulo: "Quando a galinha canta que nem galo, é preciso cortar-lhe um dedo, senão também o dono da casa vai prá terra de pés juntos".

Guilherme Studart [3] e Gustavo Barroso [4] registraram a superstição no Ceará, sendo que o primeiro acrescentou: "Para preveni-lo (do mau agouro) mata-se logo a galinha".

Gonçalves Fernandes [5], em Pernambuco, inclui-a também na sua série do "Faz Mal" e José A. Teixeira [6] encontrou-a em Goiás, adiantando que para evitar o mal se deve matá-la ou "cortar a ponta do pé direito".

A propósito da repugnância natural do povo pelos anormais, escreve Joaquim Pires de Lima [7]: "No Minho, quando em alguma casa aparece uma galinha que canta de galo, uma perua que se arma como um peru, ou qualquer outra anomalia assim, é mau agouro, e morrerá dentro de pouco ali alguma pessoa. Para que tal não se suceda, é preciso matar o monstro rapidamente". À página 36 do mesmo livro, isto é, Tradições populares de Entre-Douro e Minho, adianta, citando informação de Tomás Pires: "No Alentejo também matam as galinhas que cantam de galo, para que não morra o dono da casa". Segundo outra versão divulgada por Consiglieri Pedroso, essas aves "deverão vender-se e com o produto devem comprar uns sapatos".

Jaime Lopes Dias [8] recolheu a mesma crendice noutras regiões portuguesas: "Quando as galinhas cantam de galo é sinal de haver mouro na costa com respeito a rapariga solteira ou morte na povoação".

Luis da Silva Ribeiro [9] observou semelhantemente na ilha Terceira, no Açores, anotando: "Galinha que canta de galo, torce-se-lhe o gargalo". Na ilha de São Miguel, ainda de acordo com o etnógrafo açoreano dizem o mesmo e a crendice foi ainda registrada em Portugal por M. Cardoso Martha e Augusto Pinto em Figueira.

Conhecida ainda na Argentina, perguntava à propósito Juan A. Ambrosetti [10]: "Quiem creerá que las encargadas del odioso papel de anunciar las malas nuevas fueram las aves mais serviciales que el hombre cria: las galinhas?" E adianta "... quando la gallina canta como gallo... se pregunta vislumbrando una desgracia: Que sucederá?"

A superstição é corrente na voz do povo em Espanha, Inglaterra e França [11]. Em Lesbos, refere G. Georgearkis, [12] "o agouro depende da direção da qual a galinha está voltada quando canta como galo. Se está voltado para o Oriente, é presságio de felicidade para a casa; se está voltada para o Ocidente, de desgraça; neste caso, a matam e o chefe da família é quem deve comê-la porque seria a ele que se destinaria a desgraça".

Verifica-se de tudo isto que a crendice da galinha que canta como galo é comum à Europa e América. Sua explicação mais lógica está certamente na repugnância que tem o povo pelos bichos anormais.

 

Notas

1. Antologia do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, p.50
2. Violeiros do Norte, p.224
3. Antologia do folclore brasileiro, p.301, nº 49
4. Ao som da viola
5. Folclore mágico do Nordeste, nº 45
6. Folclore goiano, p.434
7. Tradições populares de Entre-Douro e Minho, p 8
8. Etnografia da Beira, v.1, p.185; v.2, p.255
9. Superstições comuns ao Brasil e ao Açores, p.57
10. Supersticiones y leyendas, p.139
11. Citado por José A. Teixeira, op. cit., p.425
12. Citado por José A. Teixeira, op. cit., p.425

(Melo, Veríssimo. "Galinha que canta como galo". [?])

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