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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

A galinha

Eduardo Campos

Introduccion al estudio de la gallina en el folklore de Venezuela é bem fundamentado estudo de Miguel Acosta Saignes que, após termos escrito o nosso trabalho sobre a "galinha e a mulher", tivemos oportunidade de ler. Miguel Costa Saignes vem apenas atestar a excelência do assunto, deixando-me convencido de que o folclore aqui nascido ou simplesmente aclimatado serve-nos deliciosos motivos para estudos. Dai voltarmos hoje ao tema, com mais interesse, procurando alinhavar neste roteiro de informações do folclore nordestino, que vamos cumprindo aos domingos, mais notícias e aspectos da galinha em relação ao homem e ao meio.

Nunca é demais insistir na sua participação na terapêutica popular. Já por ocasião da publicação de nosso modesto livro sobre o assunto, recenseamos dezenas de receitas dessa terapia nas quais se evidenciava a presença de órgãos e secreções dessas aves domésticas. Desde simpatias da lavagem de nossos pés em mesma água em que se lavou os pés de três galinhas, para extinguir a frieira, até as adivinhações de qual sexo será a criança que vai nascer — para isso terá a futura mãe de cozinhar o coração da ave — ou ao emprego da sua banha untada ao pescoço contra os acessos de tosse, inflamações de garganta, etc... fornece a galinha um sem número de remédios, não nos esquecendo, por certo, de citar as vantagens de seu esterco nem o poder recuperador de sua carne numa canjinha toda especial preparada para convalescentes ou parturientes.

Quis o destino que os homens, na preocupação de disputarem o amor a qualquer preço, fizessem ciumentas algumas mulheres. E como o ciúme provoca o ódio, e o ódio leva as criaturas ao desespero e, por conseguinte, a prática de atos desabonadores, surgiram os despachos, as feitiçarias inevitáveis onde a galinha, imerecidamente, tem a sua participação delituosa.

Porventura já se encontraram, altas horas da noite, com uma galinha recheada de cinza, na intercessão de dois caminhos, rodeada de quatro velas, às vezes deitada sobre uma velha toalha ou um simples jornal. A inocente ave que conquistou um lugar de honra na mesa do gastrônomo nordestino, que serve ao homem as suas qualidades miraculosas, que põe o ovo que entra no preparo de tantos pratos deliciosos da cozinha cabocla, transforma-se nessa ocasião em mandatária do mal. Vá se ver, e é o ódio de alguma mulher despudorada que lhe deseja roubar o marido.

Não importa que em determinadas circunstâncias tenha a sua reputação abalada. Quer seja pinto, frango, galo ou galinha, toda essa família representativa dos galináceos está ligada à vida humana. O galo, representando além do símbolo da fecundidade, o senhor e rei do terreiro, é o relógio do pobre. Canta geralmente à aproximação da meia-noite e às horas mais baixas da madrugada. Quem dorme no campo sente um prazer indefinido ouvir o canto dos galos sendo respondido, ora mais perto, ora mais distante, por outros companheiros que acordam e se afinal pelo mesmo cento de alvorada. Fernandez de Oviedo em sua General Historia, citado por Miguel Acosta Saignes, escrevia: "Los gallos em España e outras partes muchas de los cristanos (y aun asi pienso yo que en Europa toda y en la mayor parte de lo que se sabe) cantan a media noche y quando quiere amanecer, y aun alguns y los mejores tres veces o en tres partes de la noche..."

Os cantadores do sertão sempre nos lembram a presença ora do galo, ora da galinha, em comparações as vezes depreciativas e em outras elogiosas, sendo possivelmente os melhores versos que já lemos sobre o assunto aqueles recolhidos pelo saudoso Leonardo Mota, na feira de Cedro, na voz de um cantador (João Pedro de Andrade, vulgo Bem-te-vi) desiludido com o auditório que não queria pagar para ouvir os seus repentes:

Rancho de cavalo é milho
De cantador é dinheiro!
Quem canta de graça é galo
Pra divertir o terreiro
De home que faz gosto a macho.
Eu só conheço o barbeiro
Que alisa freguês na cara
Passa o pente e bota cheiro.

Se por um lado é prato delicioso a franguinha tenra servida numa canja, não pode haver comida mais irritante do que um galo velho. A ave não cozinha direito, por mais fogo que se lhe bote, o que deu motivo a que nascesse o dito popular: "O galo duro!" Diz-se também na conversa: "Comi um galo pra fazer o serviço", "O negócio foi um galo duro!", etc... Odilon de Brito, cantador cearense, em desafio com Maria Bela, violeira paulista, não teve vergonha de dizer:

Quando cheguei em Marília
No estado de São Paulo
Encontrei uma cantora
Que me deu um grande abalo
Nas unhas desta mulher
Eu quase comi um galo.

O anedotário a respeito do assunto é bem difundido em todo o sertão, valendo-se repetir-se aqui aquela história do padre que ao servir de uma galinha e notando-a mal cozida, e, sobretudo com algumas penas, num gesto de achincalhe, pediu ao vizinho:

— Depressa, um chapéu!
— Pra que? — perguntou o outro sem compreender.
— Pra cobrir esta galinha senão ela voa!

Tanto no anedotário, como na terapêutica, nos repentes dos violeiros mais famosos está sempre a galinha ou a família comentada. Mas, as crianças, principalmente pela proximidade que têm com essas aves, a quem devotam uma ternura bem pronunciada, sempre se interessam pelas canções ou pelos exercícios escolares que falam nelas. Na Venezuela, segundo o autor do trabalho aqui comentado, há uma cantiga de uma brincadeira de saltar, mais ou menos assim:

El gallo, el gallo,
la gallina y el caballo
se pusieron, se pusieron
se pusieron a comer
Que si! Que no! Que en mi casa mando yo.
Lo que dicen las gallinas
Tanto poner! Tanto poner! Y sin zapatos!

Alexina de Magalhães Pinto recolheu uma variedade de danças populares de nosso folclore, apresentando-as em seu famoso Cantigas das crianças e do povo", do qual divulgamos a cantiga de socar: Sinhazinha.

Mulata bonita
Não bambeia;
No fundo do mar
Tem baleia.
Sinhazinha está doente
Muito mal para morrer;
Não há galinha nem frango
Prá sinhazinha comer.

E as adivinhações? Veríssimo de Melo recenseou pelo menos duas, muito interessantes, que se cingem ao assunto do nosso trabalho. A primeira — "O que é que é? Um capão dentro do outro?" — tem como resposta o frango... E a segunda vale a pena ser transcrita na integra:

Tico-tirico-tico,
Não tem pena, não tem perna
E nem bico:
Depois do tico-tirico-tico
Já tem pena, já tem perna
E já tem bico. (Pinto).

(Campos, Eduardo. "A galinha". O Jornal, Rio de Janeiro, 08 de julho de 1956)

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