Março 2010 - Ano XII - nº 134
Bicho de pequeno porte, fácil de criar e manter é a cabra. O leite de cabra, de alto conceito no uso popular, bom para crianças magrinhas e para os fracos do peito (pulmão) é geralmente aconselhado. Inteligente, a campanha que o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais vem fazendo para difundir a criação de caprinos, inteligente por ser de grande alcance, na luta contra a mortalidade infantil, contra a carência de proteínas dos que escaparam da morte no primeiro ano de vida. Ter "cabra de meia" é muito comum nas cidades do interior. As pessoas que têm crianças em casa e não podem adquirir uma cabra, pedem cabras de meia. Consiste em obter uma cabra e criá-la em casa. Quando "dá cria", isto é, nascem cabritos, o lucro da metade deles é de quem comprou a cabra. Minha mãe, quando morava em Nazaré da Mata, jamais negava dar cabras de meia. Sobretudo pelo prazer de ir visitar a casa quando havia cabritinhos novos. Bichinhos encapetados e lindos como não há. Por falar em encapetado, sabe-se que o povo relaciona o bode com o diabo. A cabra preta também está envolvida na mesma relação e o sangue de caprino preto é derramado nos rituais afro-brasileiros. A cor preta é muito significativa.
A galinha totalmente preta, por exemplo, tem grande valor na medicina popular. Não pela carne, mas pela enxúndia, isto é, a gordura que é retirada do animal e dissolvida no fogo e depois de fria, guardada em vidros, cuidadosamente. Se qualquer garoto aparece com furúnculos, a gordura de galinha (preta) vem na certa. O remédio consiste em aquecer, ao máximo, a enxúndia e aplicá-la sobre o caroço por meio de folha de pimenta. O leite da cabra preta tem grande aplicação na cura do nervoso. Se a pessoa está "fraca da cabeça", deve, durante nove dias, tomar em jejum um copo de leite de cabra preta, naturalmente. Em assunto de leite, também é muito conceituado o leite de mamão. É remédio para "fraqueza", isto é, tuberculose. Cada dia, de manhã, deve-se comer um mamão recém-tirado do mamoeiro. A pessoa come até enjoar e o que sobra, enterra. Não pode dar a quem quer que seja, sob pena de tirar o efeito.
O "mingau de cachorro" é outro grande remédio para fraqueza. Consiste em fazer um mingau de farinha de mandioca, temperado com sal, pimenta-do-reino e alho. Toma-se de manhã e de noite. Mas na enorme lista de remédios-alimentos usados pela gente pobre, figura, em primeiro lugar , o leite de cabra. Mas o fato é que, atualmente, há muita gente que não pode manter cabra, sobretudo por não ter onde amarrá-la. E a subnutrição está aí, documentada pelos inquéritos realizados pelo Instituto de Nutrição da UFP, dirigido pelo professor Nélson Chaves.
Muito interessante o sentido de cabra com o artigo masculino. Há a expressão popular, por exemplo: "fulano é um cabra da peste", isto é, destemido, valente, equivale a cabra macho. Fora dessas expressões, cabra é pejorativo e o coletivo cabroeira ainda mais. Significa reunião de cabras (homens) ou infestação de cabras. Pode-se, por exemplo, dizer a respeito de uma festa popular, na rua: "Não vi lá ninguém, era uma cabroeira danada".
Cabra preta ou de qualquer cor, é animal de grande utilidade e a criação de caprinos precisa, de fato, de ser reabilitada e difundida.
(Delouche, Ângela. "Leite de cabra e outros remédios". Jornal do Commercio. Recide, 12 de novembro de 1967)