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Cachorro e cão
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O cão na literatura popular
Porque o cão uiva
Na fala da gente
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O gato
Gatos 1 | 2 | 3
A tradição supersticiosa do gato
Nossos irmãos, os gatos no folclore e na realidade
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Bodes, cabras e cabritos
Caprinocultura
Leite de cabra e outros remédios
Na fala da gente
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Na fala da gente
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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

Caprinocultura

Mauro Mota

Quem teria a pachorra de reunir a série de expressões vigorizadas e ecologiadas pelo comparecimento da cabra e do bode à nossa fala nordestina? Cabra, aqui, é filho do mulato e negro, cangaceiro, mulher de mau gênio. Cabra-laranja, mulato sarará; cabra-macho, homem valente; cabra-de-peia, homem sem compostura; cabra-da-peste, o aventureiro; cabra-safado, o desprezível; cabra frouxo ou mofino, o covarde; cabra besta, o imbecil, orgulhoso sem motivo; cabra mole, o sem iniciativa, preguiçoso; cabra escovado, o experiente e sabido; cabrão, o que tolera as traições da mulher. Cabra-cega é jogo infantil; chifre de cabra, coisa ou pessoa insignificante. Ser metido a rabo de cabra é ser metido a coisa; cabrinha é um jogo popular com dados; pé-de-cabra, instrumento de arrombadores; olho-de-cabra-morta, pessoa de olhar terno; cabroeira, grupo de cabras safados.

E o adagiário? Não há doce ruim, nem cabra bom; Quem cabras não tem e cabritos vende, de onde lhe vêm? Cabra manca morro abaixo faz viagem; O bom cabrito não berra; A cabra da minha vizinha dá mais leite do que a minha.

O bode não fica atrás nessa corrida sobre o vocabulário. É valete de baralho; almoço de trabalhador rural, servido no campo; alteração, encrenca, sangangu. O indivíduo afônico chamamos de bode rouco; o maçom, de bode preto; a pessoa a quem se atribui sempre a responsabilidade por insucessos, de bode expiatório.

O que dizemos de quem se comporta mal, de quem se mete em aventuras e bagunças? Pinta o bode. E de um trabalho bem feito sem deslize? Certo que só beiço de bode. Sem vergonha que só bode criado em casa, diz de pessoa sem contenção e pudor. Quem menos pode é quem paga o bode, sobre as dificuldades dos mais fracos. Bode quando não salta, berra: o indivíduo revela-se de qualquer modo.

O caprino surge ainda em defesa do bigode: homem tem bigode, quem tem cavanhaque é bode. Eis um dito de valentões e mulherengos: Olhou para mim, olhou para um bode, porque com a minha vida ninguém pode. Botar chapéu de bode significa enganar um homem, fazendo menage à trois. Bodum, mau cheiro de gente. Bode, quando espirra, anuncia chuva, os vaticínios dos conversadores de rodas de botica e cartório nas cidadezinhas do interior.

É este, a comunicante, só mais um exemplo do expansionismo caprino. Mas o bode expande-se culturalmente e definha economicamente. Precisamos restituir-lhe a validez. Precisamos retomar o ciclo da civilização do bode.

(Mota, Mauro. "Caprinocultura". O Jornal. Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1969)

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