Março 2010 - Ano XII - nº 134
Chamamos cabra ao filho do mulato com a negra e não é simpático ao folclore sertanejo. Não há doce ruim e nem cabra bom. A diferença entre o cabra e a cobra é um risquinho no O. O tratamento de cabra é insultuoso. Ninguém gosta de ouvir o nome. Reage quase sempre. Todas as estórias referentes aos cabras são pejorativas e são eles entes malfazejos, ingratos e traiçoeiros. Mas não é cabra que evoco, mas a cabra, capra, uma presença na cultura popular de qualquer país.
Debatem a origem européia da cabra, vinda da Capra ibex do solutrense e madaleniano, ou da Capra egagrus, também dita C. primigenius, que parece ter vencido a contenda. Viera da Armênia, Pérsia, sul do Cáucaso, passando ao Mediterrâneo, Sicília, Itália peninsular, Espanha. Ainda a C. ibex defendia sua liberdade nos Alpes e montanhas possíveis e já a C. primigenius suportava convívio e exploração humana. Ibex e egragus aparecem nas palafitas suíças, cavernas francesas (Roque, Hérault, Baoussé Roussés), e na Itália neolítica, Vibrata nos Abruzos. O europeu levou-a para a América.
A cabra e seu esposo, o bode, mereceram ambiente religioso e ainda se fala no bode de Mendes, força do ímpeto fecundador, também sabedor de segredos comprometedores do casal como aliado às potências infernais e amigo íntimo das bruxas, encarnando o Demônio. O Bode Negro era a forma clássica do Diabo nas festas dos sabats. O Bode Sujo é sinônimo português ainda vivo no Brasil.
O arqueólogo Woolley encontrou em Ur, na Caldéia, 3500 a.C, estatuetas de cabras, erguidas nas patas, deliciosamente esculpidas em madeira, incrustadas de ouro e lápis-lazúli. Uma visão rápida no Ur Excavation IIº, Royal Cemetery, plates 87-89 (C. L.Woolley, Oxford, 1934) dará imagem da perfeição conseguida e abre espaço às disputas se a cabra era ornamento ou objeto votivo. Creio pouco na intenção puramente decorativa há 55 séculos. Tudo teria indicação mágica, religiosa, propiciatória.
Desta participação religiosa nunca a cabra se libertou inteiramente. Não se aproximou de santo algum e não há lenda ou história em que figura como elemento favorável. Familiar, doméstica, da intimidade sertaneja, não inspira confiança integral ao povo. Em lenda alguma da literatura oral cristã comparece a cabra num plano de boa-educação ou afeto. Na etiologia de sua voz há uma condenação popular que tivemos em Portugal. "Cristo nasceu!" cantou o galo. "Aonde?" perguntou o boi. "Em Belém", informou a ovelha. "Mentes, mentes", resmungou a cabra, guardando até hoje a negativa, gaguejada e pagã.
Pela rusticidade de sua manutenção devia aclimatar-se rapidamente no século XVI e a carne, comumente assada, ainda figura nos cardápios populares. O cabrito é de tradicional gabo. Há quase nenhuma atenção ao seu sustento e embora elevada ao título de "miunça", tendo direito ao curral privativo, o inevitável "chiqueiro das cabras" junto à casa vaqueira do Nordeste, não dá praticamente cuidado.
Foi o leite de cabra a grande alimentação da criança colonial do Brasil velho. Era mais grosso, substancial, robustecedor. Em 1810, Henry Koster, indo do Recife à Fortaleza por terra, viajando a cavalo pelo interior, pôde garantir que a maioria das crianças era alimentada pelo leite de cabra. "Children are frequently suckled by goats". Diga-se, de passagem, que o leite de vaca nunca foi popular no sertão. Ninguém o bebia. O leite coalhado e o queijo, sim, eram decisivos. O leite de cabra tinha o primeiro lugar. Era uma herança milenar porque a cabra fora o animal leiteiro por excelência, cantado em Hesíodo, Virgílio, Teócrito, e não as vacas. Tão grato estava o sertanejo que dera às cabras o título de comadre, galardão de supremo louvor. "The goat that has been so employed always obtains the name of comadre, the term which is made use of between the mother and godmother of a child", escreve Koster. Para que um velho vaqueiro de 1810 desse a um animal o nome de comadre era preciso uma capitalização de sentimentos afetuosos. Nenhum outro gabar-se-ia desta vitória. Somente a cabra, entre todos os animais de trato útil, era comadre.
Goza da fama de dispensar água. Ou procurar beber muito parcimoniosamente. O mais difícil no sertão é jumento morrer de fome e cabra morrer de sede. O primeiro porque come tudo. A segunda porque quase não bebe. O dr. Nogueira Paranaguá, do Rio de Janeiro ao Piauí pelo interior do país (Rio de Janeiro, 1905, p.119), escreveu sobre a cabra: "É não só importante fonte de renda, como útil, pela resistência de que é dotado este animal, que pode passar muitos meses sem beber água, apresentando-se sempre nédio, além de fornecer abundante leite".
Permite prognósticos sobre chuvas quando escaramuçam, enfrentam-se chifre e chifre, fingindo duelar, ou alinham-se, antes do escurecer, nas proximidades do beiral da casa, como procurando abrigo.
Dizem que toda a cabra ou bode fica invisível uma hora por dia e esta é a duração de uma rápida visita ao amigo Satanás no inferno. Contam o mesmo na Inglaterra. O perigo do leite de cabra é transmitir ao lactente o caráter inquieto, buliçoso, arrebatado do animal. O menino demasiado vivo, arteiro, endiabrado, tem a justificativa no leite da cabra. Fico pensando que a intranquilidade sexual de Zeus Olímpico talvez tivesse explicação no leite da cabra Amalteia que ele mamou. Daí o cabritar, cabriolar.
A tradição do corno de Amalteia ser o símbolo da abundância inesgotável não mereceu persistência entre os povos ibero-americanos. Os chifres caprinos não têm o mesmo prestígio da cornamenta taurina. Apenas o pequenino e curto chavelho do cabrito alivia dor de cabeça. Seria mais indicado o dos carneiros, porque brigam às cabeçadas heróicas.
O bode, eternamente enamorado, mais em potencial que suficientemente, permite uma ou outra anedota e mesmo uma certa colaboração medicamentosa sempre no terreno sexual. Comentava-se na vila de Augusto Severo, em 1910, de um grande fazendeiro que tomara chá de barba-de-bode, utilizando não a planta mas o cavanhaque de um bode patriarcal. Fora contraproducente o resultado. Ficou com diarréia. É um dos animais, o mais típico, para os processos feiticeiros da transferência simbólica de moléstias venéreas.
Qualquer velha bruxa de outrora, sabedora de orações e remédios fortes, informava do poder do Bode, sinônimo diabólico, temido e respeitado na ambivalência natural. Desde o hipotético Bafomet dos templários aos bodes bufantes do sertão, a memória popular relembra episódios e respeita mistérios insolúveis.
Cesse, pois, a matinada
Porque tudo é bodarrada