Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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O cão na literatura popular
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Na fala da gente
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O gato
Gatos 1 | 2 | 3
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Nossos irmãos, os gatos no folclore e na realidade
Na fala da gente
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Caprinocultura
Leite de cabra e outros remédios
Na fala da gente
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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

Nossos irmãos, os gatos no folclore e na realidade

Se a promessa de Cristo, contida nesta frase: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça" servir também para os animais, quem vai fazer maiores reivindicações, em futura existência, é o gato. Sim, porque essa história de dizer que o pobre bicho maltratou Nosso Senhor na cruz, não está comprovada por nenhum documento.

Ao que parece, tudo é invencionice de quem gosta de cães. E longe de nós a idéia de censurar o amor por esses recordistas da afeição na terra! Longe de nós. Mas também não é justo que, só para salientar a virtude de um, se lancem aleivosias contra o outro. É bem verdade que o gato não tem a mesma capacidade de dedicação do cachorro. Mas não é por isso que se devem criar lendas, abusões, superstições sobre o coitado do bichano.

Vamos dar um mergulho no passado e rebuscar um pouco do que se tem inventado sobre o gato. O nosso folclore está cheio de coisas deprimentes para ele. Ver um gato preto dá azar. Como se o preto não fosse a ausência total da cor, e portanto nada, nirvana, isto é, felicidade suprema. Para uma moça, pisar o rabo de um gato quer dizer que não vai casar. E assim por diante. Sempre que se fala em gato, vem logo em seguida alguma referência nociva para alguém. Essa associação da ruindade com o gato culminou numa superstição, muito difundida em alguns Estados do país, onde existe um bicho-papão, denominado "alma de gato"! Mal comparando, parece o dinheiro. Todos falam nele, mas ninguém sabe onde está. Se alguém não acredita nesta afirmação, pode fazer a experiência: fale no assunto, e logo haverá meia dúzia de pessoas que se queixam da carestia da vida, da dificuldade em ganhar a vida...

Pois o alma de gato é, como o dinheiro, um fantasma em que todos pensam, que ninguém encontra. Ninguém o vê, nem sabe de que maneira pode defini-lo. É uma assombração assustadora, dominadora, onipresente... Ora, um perigo que não se sabe ao certo o que é, naturalmente fica muito mais perigoso. Pelo menos, o medo cresce em proporção do desconhecido. E é por isto que o alma de gato é tão apavorante, fazendo com que as crianças obedeçam, por temor ao felino fantasma... Essa superstição data de épocas muito antigas no Brasil.

E onde estará a razão dos defeitos que toda gente gosta de apontar no gato? Talvez sua egolatria se tenha desenvolvido excessivamente, naqueles remotos tempos faraônicos, em que tais miadoras criaturas mereciam honrarias de deusas.

Mas, se não quisermos procurar tão longe a origem da sofisticação antipática do gato, talvez a encontremos aqui mesmo no Brasil, na lembrança dos tempos em que um par de gatos valia uma libra de ouro.

Foi ainda nos tempos coloniais em que os paulistas se metiam pelos sertões, alvoroçados pelas lendas criadas a respeito do ouro. Metiam-se pelos sertões, eram devorados pelas feras, mortos pelas flechas dos índios, naufragavam nos rios, sucumbiam ao veneno das cobras ou aos dentes das onças... E se conseguiam atingir algum lugar em que esperavam encontrar ouro, e ali faziam acampamento para plantar o que iria constituir sua alimentação de muitos meses, como aconteceu em Cuiabá, o perigo que os cercava era outro. Vamos citar Capistrano de Abreu: "O milho, antes de brotado, era comido pelos ratos. As ratazanas eram tantas, que um casal de gatos foi vendido por uma libra de ouro..."

"Não há nada como um dia depois do outro" — dirão os bigodudos de quatro patas. Todos falam mal de nós. Mas, quando aparecem os ratos, o melhor meio de combater a praga ainda somos nós!

E é verdade. É preciso fazer justiça, e dar um certo destaque ao papel desempenhado pelos bichanos, no auxílio aos nossos desbravadores da terra. É justo que haja mais complacência para com essas pequenas criaturas de Deus. Não têm culpa se se parecem com um tigre, pela astúcia, pela indiferença para com o semelhante, pelo egoísmo. Sim, o principal crime do gato, é ser egoísta. Grande crime, o pior, sem dúvida, que possa cometer alguém sobre a terra. E, se alguém tem a coragem de atirar a primeira pedra, é porque nós, os humanos, sabemos ocultar o nosso egoísmo com mais habilidades do que nossos irmãos, os gatos escondem suas unhas...

("Nossos irmãos, os gatos no folclore e na realidade". [Não foi possível identificar a autoria e fonte original de publicação deste artigo])

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