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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

A tradição supersticiosa do gato

Luis da Câmara Cascudo

Quem mata um gato tem sete anos de atraso. Solteiro que pisar o rabo de um gato não casa. Gato preto é agouro ou é felicidade. Gato transmite asma. Gato engasgado anuncia fome. Gato tem sete fôlegos. Não há animal que tenha maior número de suspeitas que o gato, companheiro amável ou hóspede intruso e detestado, o mais elogiado dos animais, tendo uma Histoire des chats (1727) de Paradis de Moncrif, da Academia Francesa, pintado pelos mestres, esculpido pelos grandes, imóvel em porcelana, marfim, ouro e prata. Um poeta brasileiro, Félix Pacheco, compendiou muita notícia literária no seu delicioso Baudelaire e os gatos (Rio de Janeiro, 1934).

O povo não é muito amigo dos gatos e sim de sua utilidade venatória aos ratos. O gato é senhorial, egoísta, esquivo, traiçoeiro, desdenhoso. Mas é elegante, nervoso, magnético, incomparável nos gestos lentos, no espreguiçamento de odalisca nervosa, nas graças sucessivas das atitudes originais e aristocráticas. Parece sempre superior ao dono da casa.

O brasileiro recebeu o gato do colonizador português e com ele as superstições. O português também ama e teme ao gato e se diverte pondo-o num pote para partir às cacetadas ou pendura-o num alto de poste, numa vasilha, sobre a crepitante fogueira em tardes festivas. Nós temos ambos os divertimentos. Do Oriente recebeu o português o respeito vagamente tenebroso ao gato. Veio com os orientais que se fixaram na península tantos séculos.

Na maioria dessas religiões semitas o gato é venerado ou expulso. Não há meio termo. No Egito era uma espécie divina cujo fundador era o deus Elerus. No baixo Egito havia a deusa Bast, em Bubastis, com a cabeça de gato. Era Tebas, era a "Dama do Céu". Na luta sideral contra a monstruosa serpente Apopi, o gato vencera à força de unhadas. Havia cemitérios privativos de gatos. Foram descobertos nas escavações e encontramos nos museus, centenas de múmias de gatos e suas figuras em bronze, madeira dourada, com os olhos de esmalte. São milhões de exemplares. Na orla da África setentrional o gato é respeitado. No Egito era dominador. Quem matasse um gato era imediatamente condenado à morte e executado sem remissão. O poder oniponente do faraó não podia excluir do sacrifício quem cometesse esse sacrilégio. Valia por muitas vidas de cidadãos. Na hora de um ataque inimigo ou de um incêndio o primeiro objeto salvado era o gato e assim mesmo quando permitia que alguém o salvasse. Animal divino tinha o direito ao embalsamento ritual. Em Beni-Hassan há inúmeros hipogues dedicados aos gatos. Ai dormem eles há muitos séculos, nas caixas de cartão dourado, como príncipes.

As tradições supersticiosas dos gatos vêm desse Oriente. Vale muitas vidas e dizem que sete, número cabalistico. Castiga sete anos quem lhe tira a vida. Não permite o casamento desejo lógico de rapazes e moças, a quem o fez sofrer pisando a cauda. Alimentado fartamente nos templos, o gato entende que devemos sustentá-lo como seus avós longínquos em Bubastis, Assíria e Babilônia. Não dá muita aproximação pela reminiscência do divino protocolo que o afastava dos fiéis e de suas intimidades dispensáveis a um filho do divino Elerus, vivo na imagem de Bast...

(Cascudo, Luís da Câmara. "A tradição supersticiosa do gato". [O Estado de São Paulo]. 17 de julho de 1948

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