Março 2010 - Ano XII - nº 134
Tempos antigos — No Egito, seus deuses estavam ligados aos bichanos. Havia, em certa região, uma espécie de gato selvagem, chamado Chaus, de cauda curta, peludo e bom caçador que passeava pelas vizinhanças do deserto.
O Livro dos mortos fala do "Grande Gato Preto Que Está em Heliopolis"; protegia os homens e enfrentava a serpente do mal. A figura do gato elegantemente sentado nas patas traseiras é comum em revistas e livros que contam as velhas histórias egípcias. Cemitérios eram dedicados aos gatos já mumificados. Mas o gato doméstico, no entanto, chegou mais tarde. Podemos dizer, lá pelo 2.100 a.C.
"A Gata" era o apelido de Mentuboterp I, mãe de um funcionário do rei. A filha de Re (o olho do sol), certo dia, enfurecida fugira para o deserto da Núbia. Quando conseguiram apaziguá-la transformou-se em gata (Bastiti ou Bast). A forma onomatopaica de se chamar o gato era myéu!
A gata era adorada em Tebas com o título de Dama do Céu. A deusa Diana podia transformar-se em gata, quando necessário, e para sua curiosidade, a carruagem de Freyja "era puxada por parelha de gatos". No ano 412 aC., Aristófane escreveu Festas de Ceres e o gato já era o larápio de comidas em Atenas.
Época Medieval — Seguindo o exemplo de Maomé, os árabes eram muito amigos de gatos. De maneira geral toda a população respeitava muito o gato. Chegava-se a temê-lo como prenúncio de bons e maus tempos, castigos e encarnações do demônio. Não mate gato, porque você será criminoso e poderá pagar com a própria vida. A morte natural ou não de um gato levará seu dono a ficar de luto durante algum tempo, num complicado ritual. Chegou-se ao cúmulo de raspar-se as sobrancelhas das pessoas.
Houve um período em que o gato havia perdido seus status, mas quando descobriram que era limpo, passou a conquistar a simpatia de seus observadores; ganhando cartaz foi considerado o grande auxiliar da saúde pública, o maior inimigo dos ratos que traziam epidemias. No tempo em que os animais falavam e gostavam de festas, de danças e tocavam instrumentos musicais, o gato sempre aparecia como violonista. Somente depois das Cruzadas, o gato passou a viver nos grandes castelos da Europa e, com a invasão dos árabes tomou um lugar de senhorio.
A França, no século XIII distinguia o gato de lareira do gato-bravo. Impostos muitos pesados eram cobrados pelo comércio de pele de gato. O gato angorá, da Pérsia, fora introduzido na Inglaterra e na Itália, durante o século XVI, e como não podia ter um lugar importante, foi relegado ao padrão comum, ficando apenas como comedor de ratos, associado à cozinha. Mudou-se o gato para as tabernas humildes, não se permitindo mais sua entrada aristocrática nos salões, salas e quartos.
Outros Tempos — Paralelamente, a história do gato, tão simpática, apresenta episódios estranhos, como o cultivo à beleza dos seus olhos, seu andar, seus golpes...
Patricia Dale Green, conta-nos como este passou a ter poderes noturnos, a transportar a alma dos mortos. Tinha sete fôlegos, portanto muita resistência. Estava ligado ao demônio. Assim, no século XVII o gato foi viver com as bruxas e feiticeiras.
Um gato branco chegou a entrar nos tribunais e julgado como satã por ter sugado o sangue de sua dona. Certas revistas de mistérios, mitos e magias ainda hoje publicam artigos interessantes sobre a vida e o convívio do gato junto àqueles bruxos. Ainda no século XVII a Inglaterra recebe a lenda de Whittington's cat. Estória de herói que tendo apenas um gato como herança, levando-o para as terras infestadas de ratos, resolveu aquele problema de devastação que os roedores faziam nos grande celeiros, trazendo a peste. A lenda correu o mundo: foi à Escandinávia, Rússia, Itália, Portugal.
De lenda em lenda, ficamos sabendo que debaixo do berço do Menino Jesus, uma gata teria dado cria a inúmeros filhotes.
Muita gente hoje em dia não quer saber do gato pois ele carrega bronquite e dá alergia. No entanto é ele o responsável pelo prenúncio de chuva ao lavar sua cara passando as patas por detrás da orelha. Lembro-me perfeitamente que em Presidente Prudente, minha mãe dizia: Pare que vai chover; olhe o que o gato está fazendo.
O gato que vivia na cozinha tornou-se um dia a Gata Borralheira que ainda hoje anda de boca em boca e em publicações muito bem ilustradas. O seu possível parente — o Gato de Botas — continua fazendo furor com sua vestimenta, seu porte e suas aventuras.
Nos brinquedos e jogos infantis tem o gato um lugar certo, mesmo que o texto literário não seja muito recomendável. Vamos ao brinquedo: Atirei o pau no gato-tô / mas o gato-tô não morreu reu / Nha Chica admirou-se -se / do berrô, do berrô que o gato deu. Miau!. É de influência portuguesa a brincadeira: Era uma vez um gato xadrez. As crianças ainda brincam: Cadê o toicinho daqui? O gato comeu. Cadê o gato? está caçando rato... Em algumas regiões brasileiras brincava-se de Gato no Pote, uma espécie de quebra-potes.
Provérbios, adágios e frases feitas
Fazer de gato sapato — é uma frase muito popular; Vamos encontrá-la numa das comédias de Manuel Figueredo: "Assim o marotinho procedeu mal... vamos ao caso... fazem de mim gato-sapato, logram-me como um criado a um amo, uma mulher a um marido".
Gato pingado: indivíduo pobre, miserável, sem importância. Se alguém lhe perguntar: havia muita gente na festa, ou no baile ou na cerimônia? Com desdém você pode responder: apenas dois ou três gatos pingados.
Gato escaldado de água fria tem medo: Se você tem experiência da vida sabe: Já como gato escaldado / Que foge até da água fria / A qualquer que se lhe inculca / De medo, todo arrepia.
Quem não tem cão, caça com gatos: para resolver a questão.
Minha mãe dizia: Quando os gatos estão fora, os ratos dançam.
Você não gostaria de viver Feito gato e cachorro. E com a esperança pode dizer Nem todos os gatos são pardos. Não deve Utilizar-se da mão de gato e nem mesmo Ter cara de beato e unhas de gato, no entanto deve ter pena daquele que Não tem nem pau para dar num gato.
Só para seu conhecimento: a frase Comer gato por lebre, muito comum no Brasil, teve suas aculturações. O Caminho Francês é a estrada de peregrinação à Santiago de Compostela, vindo da França através dos Pirineus (Câmara Cascudo), então o povo que sempre caricaturou tudo, passou mais tarde a dizer: Em caminho francês / dão gato por lebre / ou em caminho francês, vende-se gato pela rês. Verdade ou não os estudantes de Coimbra fizeram a tão comentada caçada dos gatos para saboreá-los bem condimentados. O Brasil passou também a experimentar o sabor do gato com "feições" de lebre. Camões em Auto dos Enfatriões já usava a expressão: Observemos: Fantasias de Donzela / não quem como eu as quebre / porque certo cuidam elas / que com palavrinhas belas / nos vendam gato por lebre.
No final do século XIX já se falava em gata amarrada, como uma parte da vela do barco. Ele ou ela deveria ficar amarrado ou solta dependendo do vento. Assim: a gata amarrada permitia ao navio (barco) que "andasse" mais devagar e com a gata solta ele iria mais rápido. Substituiu-se a gata amarrada da vela do barco pelos movimentos oscilantes e balanceados do embriagado. Eis os antigos versos recolhidos por Câmara Cascudo: Estou-vos muito obrigado / em falar-me de meu pai / pois Jajana quando cai / vós ficais bem agastado / isto de gato amarrado / não deve ser zombaria / muita gente já bebia / como ele já bebeu...
O gato no jogo do bicho ou... nos sonhos. É na antologia do Jogo do bicho, de Renato J. C. Pacheco, de Vitória do Espírito Santo que vamos encontrar a estória de Hilário, pobre coitado que sofrerá a trágica perda de um membro da família. Tentado por alguém, fez os cálculos do dinheiro que tinha no bolso, para o enterro e outras providências: sobrara um dinheirinho para "tentar" no gato. Associou a Mimi, a gatinha querida da velha morta à possibilidade de uma vitória. Tentação. Bom-senso. Tentação. Jogou. De tarde foi saber do resultado, dera burro. Criou o maior escarcéu com o delegado.
O gato tem o número 14 na série cronológica. Sonhar que levou um tombo inesperado é gato na certa. Sonhar com anjo, bebida, castelo de fada, janela, costura ou que você tá voando... é gato que vai dar. Mas se você sonhar com o bicho jogue nele mesmo.
A moda Bicharada é uma cantoria em moda de viola que Clemente Jardim registrou numa fazenda no município de Cajuru: ...o catorze é gato / pula de dentro pra fora. Maria de Andrade Marconi, minha amiga de Franca, recolheu em 1960 a Moda do jogo do bicho: ... a 14 é o gato / que tem o bigode penteado...
Na obra de Renato J. C. Pacheco a literatura oral continua: ... 14 é o gato / que quando caça não mia / O 14 é o gato que pega o rato a qualquer hora / o 14 é o gato deitado no lado do fogão.
Esse bicho foi pintado por artistas famosos bem como esculpidos por mãos extraordinárias em marfim, prata, ouro, bronze e madeira. Foi o gato modelo para berloques, broches, pulseiras, colares, brincos. No Museu do Vaticano existia (não sei se ainda existe), na sala dos animais, algumas figuras de gatos em bronze e mármore. No museu de Madri há o quadro de Paulo de Vos intitulado Combate de gatos numa cozinha. Bason gravou Combate de um gato com um cão. Na Pinacoteca de Munique há o quadro de Hamilton, Gato roubando caça. Teniens pintou Concerto dos gatos e dos macacos.
O gato na literatura
Muitos escritores brasileiros utilizaram-se de adágios e frases feitas nas suas obras como usos e costumes do nosso povo. O poeta Wilson W. Rodrigues deu um sabor todo especial à filosofia de vida dos gatos no conto O rei dos gatos. Estavam presente nesse conto o Romão, o Mimoso, o Bichano, o Gato de Botas, o Pisa-Telhado, o Professor, o Sete-Fôlegos, o Gatanhudo, o Guarda-Noturno que numa assembléia procuraram eleger o rei entre eles. Não houve possibilidade, porque "todos os gatos são felizes porque são livres".
Félix Pacheco publicou, em 1934, Baudelaire e os gatos. Colette escreveu muito sobre os gatos chegando a ser a obra de destaque na literatura mundial. Christabel Aberconway publicou A dictionary of a cat lover, biografias de gatos amigos e fiéis que participaram da vida de grandes personagens.
Pereira da Costa em Folclore pernambucano anuncia os azares e as sortes que temos em relação ao gato. Mais tarde, lendas com influência indígena apareceram. Você conheceu bem aquela estória da onça que ensinou o gato a pular.
Foi o colonizador português que nos presenteou o gato cheio de fitinhas coloridas das superstições e crendices. Por isso há muitos anos, no Brasil, as noites eram tenebrosas. Era a hora do cortejo das bruxas com o gato preto no ombro andando no ar em vassouras voadoras.
A luz dos olhos dos gatos tinha significados diversos. Era temido e seu prestígio, no fundo do quintal e nas estradas aumentava cada vez mais. Esse prestígio, depois muda de sentido: gato preto agora dá sorte. Todos precisam ter um em casa, com fita vermelha no pescoço e pequeno guizo.
O gato na geografia
Nome dado a uma ilha no estado da Bahia; Ilha no Rio Teles Pires ou São Miguel no trecho de Minas Gerais e Pará; ilha no litoral do estado do Rio de Janeiro entre as ilhas de Itacuruçá e da Madeira; enseada do estado do Paraná, perto de Paranaguá; antigo nome da Ilha do Governador, na baía do Rio de Janeiro; serra do estado da Bahia entre os rios São Francisco e Paramirim.
Gato-do-mar ou Gato-marinho — nome dado a um peixe.
Na África, há um tipo de gato-de-sapato ou gato-calçado porque tem a sola totalmente preta. É o menor gato selvagem do mundo. Há gatos que não têm cauda. O gato tem parentes que vivem em regiões diferentes como o caso do gato-do-mato-grande, ou do-mato-pintado, gato mourisco preto ou vermelho e, ainda o gato dos pampas.
Você pode chamar ao gato de: bichano, mich, michinho ou até com nome de pessoas. Se você não gosta de serenatas de gatos procure dormir com a cabeça debaixo do travesseiro. Não vá tentar matar os bichinhos: lembre-se quem mata um gato tem sete anos de atraso e, ainda mais, pode ser que estes tenham como herança os sete fôlegos... Você vai se cansar!
Atenção! Ouça a batida, o ritmo! Agora este samba tem mais som, mais harmonia! E o gato perdeu a paz. O seu couro é usado na confecção do tamborim ou da cuíca. Ninguém mais no morro teve medo de gato preto.