Março 2010 - Ano XII - nº 134
José Mariano Filho (1881-1946) e eu íamos pela rua Paissandu, no Rio de Janeiro, noite de luar, um luar desmoralizado pelas lâmpadas elétricas. De súbito, atravessou a calma da rua o uivo dilacerante de um cão, uivo alto, prolongado, impressionante. Fiquei, como todo sertanejo que se preza, arrepiado. José Mariano, que parara, declamou o esconjuro: Todo agouro para o teu couro!...
Ficamos conversando sobre a força misteriosa, prodigiosamente evocadora, de certos fatos que sacodem o esmalte da civilização e fazem, num minuto inconsciente, a viagem fulminante do recuo aos tempos desaparecidos na memória coletiva.
O uivo do cachorro vibrara em nossos nervos como se fosse um anúncio terebrante de desgraça, uma voz estranha e sinistra profetizando catástrofes. E tudo se passara independentemente da vontade receptiva. Em nós havia um fermento ressonador, explicando a repercussão inexplicável, imediata e abaladora. Tínhamos ambos nascido em capitais de província, educados carinhosamente, viajado no mundo e nos livros. O uivo do cão despertara a presença de um eco insuspeitado, denunciando a disponibilidade de elementos de assimilação.
E fomos com largo palavreado, José Mariano era médico, debatendo deduções que justificassem o choque interior, tão depressa irradiado no espírito de homens maduros e bem poucos especulativos.
O sertanejo crê que o cão uiva porque está vendo alma de outro mundo. Em Portugal e Espanha, boa herança de Roma, o uivo do cachorro avisa a presença do fantasma.
O animal vê perfeitamente e reage com aquele ululo desesperado e terrífico, guincho de feras primitivas, perdidas e famintas numa floresta assombrosa da época terciaria.
Nas noites de luar os cães permitem-se dar a fabulosa exibição de aula coral de ululações. Com os focinhos erguidos, uivam olhando a claridade lunar, numa homenagem insuportável e fiel, interminável e fatal, como cumprindo missão e rito de obrigação irresistível.
Ainda não houve fundamento fisiológico para esta demonstração de uivos ao plenilúnio sentimental. Haverá influência sutil e decisiva sobre os nervos caninos, determinando a orquestração macabra, horrenda e única de uma tragédia inconcebível e real.
O uivo não avisa apenas a presença espectral mas terá o condão de afastá-la?
Resta-nos a explicação pagã e milenar do uivo à lua romântica.
Delia nota canibus, dizia o ditado romano, lembrando que Artemis seguia pelo firmamento noturno acompanhada na terra pelo ulular dos cães.
A deusa Hécate, na sua encarnação fantástica de Ekate Triodite, a Hécate das horas escuras, descia para viajar pelas encruzilhadas, com o séquito de almas penadas, espíritos de corpos sem túmulos, sem alimentos, sem ofertas simbólicas, condenadas ao desespero semeador de pavores.
O cão, animal votivo de Hécate, identificava-a imediatamente e como nas cerimônias propiciatórias era sacrificado ao culto da divindade cruel, uivava de medo, de assombro, de agonia ante a implacável ameaça.
Virgilio, Eneida, IV 609, evoca o passeio tétrico de Hécate pelas ruas silenciosas: — Nocturnisque Hecate triviis ululate per urbes. Uivo de cão era anúncio incrível que Hécate se acercava, a trivia, sombra sinistra e vaga, espalhando o medo incontido.
E como Hécate, nesta materialização, era malfazeja e sádica, quando ouviam o ulular do cão, gregos e romanos diziam frase de esconjuros, distanciando a deusa sem mercê, tão diversa da Hécate lunar e acolhedora, dúplice de Artemis caçadora e virgem.
Num dos Idílios de Teócrito (II.o, "As feiticeiras"), trezentos anos antes da Era Cristã, há o registro: "Testílis! os cães uivam pela cidade! A deusa anda pelas encruzilhadas! Que o bronze retina, depressa!"
O som do bronze impedia que a fúnebre Artemis se aproximasse.
O cão uivante era uma premonição para o homem que o entendesse. Hécate deixara as alturas e estava pisando a terra, na ferocidade do destino indefensável. Recorriam à defesa dos gestos, percussão de metais, súplicas sagradas, erguendo nos lares a barreira intransponível das fórmulas clássicas.
O uivo do cão era o alarma. O Barão de Studart (Antologia do folclore brasileiro, São Paulo, 1956, p.365) registrara a contemporaneidade do presságio: "Uivo de cão à noite é sinal da morte!"
Durante tempo incontável o homem associou ao uivo do cão a proximidade aterradora da deusa má.
Nas pesquisas dos velhos laboratórios e mesmo, dizem no bojo dos primeiros submarinos, o guincho desesperado dos ratos brancos informava a existência de gás carbôico acumulado. O cão era a única forma denunciadora perceptível da entidade cruel e mágica.
Nem um olhar humano perceberia Hécate, invisível e malvada. Apenas o cão podia vê-la, clara e nítida, com o cortejo de lêmures e trasgos assombrosos. E comunicava, num uivo estridente, a vizinhança inexorável.
Ficou o uivo provocando um reflexo condicionado no plano defensivo. Mas era natural o arrepio de horror quando o clarim canino divulgava a deusa insensível.
Hécate teve seu crepúsculo e desapareceu há vinte séculos. Temos ainda a herança do terror sagrado que o uivo do cão vai provocando na noite de lua cheia.
Chibateavam os cães durante o eclipse lunar para que a treva fosse dissipada pelo grito dos animais votados à Hécate.
O cachorro tinha todos os direitos a lançar seu uivo inacabável, protestos, auxílio, defesa, instinto.
Assim, naquela noite de verão carioca, José Mariano Filho, recifense de Poço da Panela, senhor das tradições, repetiu a fórmula brasileira que tivemos de Portugal, esconjuro fácil e rápido, tão eficiente quanto as de outrora, perdidas no tempo velho:
— Todo agouro para o teu couro!...