Março 2010 - Ano XII - nº 134
Daniel Gouveia (Folclore brasileiro, 59-60) registrou: "não se deve cuspir nos cães porque depois de nossa morte, na longa travessia que se faz até chegar à casa de São Miguel, onde serão julgadas as nossas almas, sentimos uma grande sede e neste longo percurso só encontramos a casa de São Lázaro: aí, se não cuspimos nos cães, somos servidos com água boa e fria, e ao contrário, somos acossados por dentadas implacáveis".
Para curar-se úlceras ou "feridas-brabas" fazem pelo Nordeste promessas de oferecer um jantar aos cachorros de São Roque ou de São Lázaro. Rodrigues de Carvalho assistiu o jantar aos cachorros no Ceará, Astolfo Serra no Maranhão, Getúlio César no Piauí!
Prepara-se o melhor e mais abundante jantar, estendendo-se o toalhado no chão, com prato e travessas, e a cachorrada da vizinhança comparece para servir-se e brigar no final, despedaçando muita coisa. Mas a promessa está paga e os santos ficam satisfeitos com esta homenagem aos cães fiéis.
Este "candidato à humanidade", como o chamava Michelet, dará rumo diverso as conclusões dos técnicos em literatura oral. Nos contos populares o cão é invariavelmente uma entidade fiel, valorosa, de forte simpatia. Estes elementos não podem figurar nos contos tradicionais de fundo hindu ou muçulmano onde o cão é repugnante, ladrão e mau. O enredo dispensaria sua participação, figurando outro animal, e o incluiria nos países onde a tradição local tivesse o cão em nível mais alto. Mesmo nas regiões do Cão-maldito, ele possui episódios sugestivos, como no Calila e Dimna, salvando o filho do seu dono, matando a serpente, bem amáveis nas histórias hindus, e sendo morto pelo amo que o julgava ter sacrificado a criança, o Mt-b 331.2, Motif- Index of folk literature, 1.o, 331, de Stith Thompson. O tema do Calila e Dimna, livro VIII, espalha-se na Europa com a história de Llewellyn e seu cão Gellert.
Um cão desconhecido que nos acompanha na rua é sinal de felicidade. Não a conheço no Nordeste e Norte do Brasil mas deve existir no Sul porque me foi apontada por Mário de Andrade. É comum na Europa e Edwin e Mona Radford anotaram na sua Encyclopaedia of superstitions (Nova Iorque, 1949) referente à Inglaterra: "A strange dog following you is a sign of good luck". Cachorro sacudindo-se repetidamente e sem razão está adivinhando chuva no sertão ou novidades na cidade.
Um índice poderoso da credulidade popular é a transferência de dermatoses para o cão. Tanto recebe como transmite ao dono. "Cão que muito anda carrega rabugem para si ou para seu dono".
Nenhum animal possui maior documentário de participação sobrenatural. Desde gregos e romanos, o cachorro vê os deuses e os mortos. Na Odisséia, XVI (162-163), quando Minerva aparece a Ulisses e anima-o, Telêmaco não a vê. Os cães porém ouvem e vêem a deusa e sem ladrar tremem, ocultando-se num recanto com surdos ganidos de pavor, na choupana de Eumeu.
Eloy de Souza contou-me que no Ceará-Mirim um seu velho amigo político, o coronel P. O. C., estava deitado na sala de visitas de sua residência quando bruscamente o seu cão se atirou para frente, ladrando de alegria, agitando freneticamente a cauda, erguendo-se nas patas, como se festejasse pessoa querida. E assim, aos saltos, num incessante júbilo, foi pelo corredor, como acompanhando a invisível visita que o encantava. P. O. C., era viúvo e o cão pertencera a sua esposa. Estava convencido de que o cachorro vira a morta e a identificara, com aquela inopinada e sonora manifestação de reconhecimento.
Francisco José Fernandes Pimenta, o capitão Chico Pimenta, irmão de minha mãe, pequeno fazendeiro no município de Augusto Severo, foi grande fornecedor de histórias e tradições sertanejas ao seu curioso sobrinho. Disse-me ter possuído um cachorro que lhe fora presenteado pelo seu amigo João Gualberto e este falecera meses depois. Uma noite Chico Pimenta acordou com o alarido festivo do cão, saltando, abanicando o rabo, doído de contente, como se visse um amigo dentro da sala que dormia. Chico Pimenta ficou arrepiado e começou a rezar o credo. Ao findar, veio-lhe à lembrança João Gualberto e perguntou alto: João Gualberto? Nenhuma resposta. O cachorro deitou-se, enroscou-se e readormeceu-se. A visita fora embora.
Nos contos populares o cão é quase sempre um herói. Conserva-se na tradição oral uma história européia, justificando a inimizade entre cão, gato e rato. O gato ficara encarregado de guardar preciosamente o diploma de alforria ou de nobreza do cão, e o rato roera o pergaminho, fazendo desaparecer a prova oficial da liberdade e situação elevada do cachorro. Por isso o cão se tornou inimigo eterno do gato e este do rato, causador da catástrofe. É o Mt-200 de Aarne-Thompson. The dog's certificate. Há versões poéticas e Sílvio Romero reuniu uma, das mais antigas, no seu Cantos populares do Brasil.
Aquele uivo dilacerante é denúncia de uma visão sobrenatural que ocorre nas noites de luar. Mais isto é outra história...