Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

Cachorro e cão

Luis da Câmara Cascudo

O nome popular é cachorro. Cão é nome letrado de quem sabe ler. Para o povo cão é sinônimo diabólico. Cão preto, cão sujo, cão coxo, cadelo é pouco usado. Perro não passou ao Brasil.

O português trouxe o cachorro para o Brasil no século XVI e depressa o indígena, especialmente o tupi, adotou-o como um dos favoritos, um cherimbado querido, guardado nas malocas, companheiro inseparável. Para o Amazonas sua penetração foi lenta. Nas últimas décadas do século XIX ainda não alcançara as cabeceiras do Xingu.

Curioso é que cachorro seja nome mais popular que cão. A denominação dada pelas tribos da península hispânica aos cães trazidos pelos iberos foi perro. Cachorro era de origem basca e seria usual então. Os romanos trouxeram o nome de cão (canis). Assim cachorro é nome já tradicional na Península Ibérica uns 1.500 anos antes da era cristã. E é o que resiste na preferência brasileira nos últimos cinquenta anos do século XX.

Para estudo de sua mitologia basta Gubernatis [1] e para a evolução do nome, o assombroso Child [2]. Dos mais antigos depósitos do quaternário saem seus vestígios ao lado do homem. Domesticou-se no Neolítico. Sem ele o homem não seria pastor. É o mais antigo exemplo de domesticação útil.

Todo nós o chamamos o auau, onomatopéia do latido. Era seu nome entre os egípcios. Numa das estórias populares, a do Príncipe Predestinado, Maspero, Pierret Loret [3] encontram o hieróglifo auo ou au e sua duplicação, auau, significando cão. Esse conto descobrira-o Goodwin no dorso do papiro Harris 500, da época de Ramsés II, 1300-1234 antes de Cristo. Divulgou-o Jorge Ebers.

Child escreve: "Le terme aou devait trés vraisemblablement designer le chien en géneral, quand on ne vouliat pas faire mention du type particulier de l´animal: le caractere onomatopaique du mot, qui est celui qu´emploient naturellement les enfants dénonce sa tré baute antiquité".

Esse aou cria no copta o ouhr, cão, o ur sumeriano, o uru assírio, o ur basco, com a natural intercorrência onomatopaica do rrrrrrrr, sugerindo o rosnado do animal. Ainda o repetimos nós. Rabelais, no prólogo do III do Pantagruel, usa o grrr, grrr, grrr! contra os teólogos da Sorbonne (1546).

Ainda emocional é que o vocábulo valendo cão, ur, vale guardar e defender, dando a idéia de vila, fortificação, muralha. O cão continua com essa missão vigilante e Homero (Odisséia, VII), coloca dois cães de ouro e prata, forjados por Vulcano, à porta hospitaleira do palácio de Alcino.

Não vamos recordar os cemitérios de cães no Egito, em Siut, Shélk-Fadi, Feshu, Saqqarah e Tebas. Nem Anúbis e Uapualtou, deuses de cabeça canina. Nem as múmias de cães, cilíndricas, com a máscara e dizeres de louvor. Os museus europeus estão cheios dessa coleções que o turista olha e passa.

Na Índia e entre os muçulmanos o cão é animal imundo, poluindo pelo contato qualquer objeto consagrado [4]. Na Índia esse conceito do cão deve ser posterior ao Mahabarata, onde o rei Iudistira recusa subir ao céu no carro luminoso de Indra porque o cão não o podia acompanhar (livro X).

Em Roma era insulto o nome de cão, como chamou ao filósofo Demetrius o imperador Vespasiano, "canem appelare" (Suetonio, Vespasiano, XIII), e assim mimoseou o esposo Trimalchion sua doce Fortunata, "Ultimo etiam adjecit: Canis" (Petrônio, Satyricon, LXXIV).

Heli Chatelain, habituado com a tradição heróica do cão na Europa, surpreendeu-se com o cão africano ser um símbolo de sordidez, covardia e servilismo... "but the dog, on the contrary, personifies all that is mean, servile, and despicable" (Folk-tales of Angola, 22).

Não encontro na sinonímia peninsular portuguesa do Satanás o cão. Em Angola e na maioria dos idiomas bantu onde o português se projetou a palavra fascinante para o negro insular o companheiro foi sempre diabu, mais no sentido de feitiço do que de perversidade espontânea. Teria vindo pelos africanos arabizados?

Há nos Açores o Cão Negro e Cão Tinhoso valendo Demônio. Os açorianos vieram para o Brasil em maior quantidade na primeira metade do século XVIII, com os casais para o sul. Emigrou o cão demônio com eles também.

De onde nasceria sua aristocratização no conceito popular, o cão valente, dedicado, fiel? Nas fábulas de Esopo e de Fedro, o cão não tem papel simpático nem nobre. Reaparecem vários episódios de sua avidez, correntes do Calila e Dimna e no Katha Sarit Sagara. Esopo acha-os "descontentes e irascíveis". No Roman de Renart, o cão aparece sem maior brilho na corte de Noble, o leão, mas se distancia das artimanhas e velhacarias da raposa invencível. Creio que a Idade Média, com as caçadas fidalgas, com a indispensabilidade do cão, elevou-o a companheiro nas proezas cinergéticas e nas guerras ao infiel.

Quando ele uiva, está chamando a desgraça e o contraveneno verbal é dizer-se: "Todo agouro para cima do teu couro". Ou emborca-se um sapato, virando-se a palmilha para cima. O cão calar-se-á. Cavando na porta da casa, abre a sepultura para o dono. Abrindo buraco com o focinho, está com a mesma profecia. Mas se cavar com o focinho voltado para fora anuncia dinheiro. Dormindo de barriga para cima, agouro. Deitado com as pernas dianteiras cruzadas, bom agouro. Rodando sem parar pela casa, está afugentando o diabo. Dormindo e ganindo está sonhando. Urinando na porta, prognóstico feliz. Uiva sem razão porque vê as almas do outro mundo ou a aproximação da morte. Eram os cães sacrificados a Hécate e avisavam sua presença invisível no uivo terrível e uivavam vendo os deuses, os lêmures, as sombras dos mortos (Ovídio, Fastos, I, 389, Horácio, Epodos, V). O cachorro pesunho (com um dedo suplementar) vê perfeitamente o lobisomem e o persegue furiosamente.

Para não crescer pesa-se com sal. Para não fugir, enterra-se a ponta da cauda debaixo da casa, ou, nas fazendas de gado, no mourão da porteira. Erguendo-o pelas orelhas fica mofino (covarde). Para livrá-lo da hidrofobia deve ter nome de peixe. Puxando pela cauda tornam o cachorro ladrão ou fujão. Para não ter tosse, sabugo de milho ao pescoço. Com a orelha cortada na sexta-feira da Paixão jamais terá hidrofobia. Quem sofre de pesadelos deve fazer um cão ficar debaixo da cama. Perde o faro se passarem uma bolinha de sebo na ponta da cauda e dá-la a comer. Readquire o faro esfregando-lhe no focinho sangue de veado ou de tatu. Quem maltrata ou mata um cão deve uma alma a São Lázaro ou a São Roque.

Notas

1. Angelo de Gubernatis. Zoologicat mythology, "The Dog", VI, Nova Iorque, Mac-millan & Co., Londres: Trubner & Co., 1872.
2. A. Child. Etude philologique sur les noms du "chien" de L´Antiquité jusqu'a nos jours, Arquivos do Museu Nacional. v.39, Rio de Janeiro, 1940.
3. Cantos y cuentos del Antiguo Egipto, Revista del Occidente, Madri, 1944.
4. O brâmane e os três ladrões, Panchatantra, III, 3; Calila e Dimna, VI, Hitopadésia, IV.

(Cascudo, Luis da Câmara. "Cachorro e cão". O Estado de São Paulo. São Paulo, 04 de maio de 1958)

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