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O gato
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Nossos irmãos, os gatos no folclore e na realidade
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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

O cavalo na zona açucareira

Mauro Mota

Perto do boi, situa-se o cavalo de cotação equivalente no ciclo do pastoril, pequeno, mas ágil, feito para o seu mister de corredor por esse conúbio de bicho com a natureza, que lhe tira em tamanho o que lhe dá em destreza e resistência, os cascos livres e duros, faiscando nas pedras durante as vaquejadas e apartações. Está na literatura de cordel:

Perseguiram um novilho
Que pelo pátio estirou
Torquato fazendo esteira
Francisco tarrafiou
E deu tal queda no bicho
Que o mocotó passou
Miguel Barbosa foi páreo
Treze com Izidro Machado
Barbosa deu tal mucica
Em um boiato lavrado
Que o bicho morreu de queda
Tendo o pescoço quebrado

O meio pégaso sertanejo muda o destino da zona açucareira onde vive mais da glória de ter sido, e de ter sido muito, antes de o automóvel o atropelar, desmontando o senhor-de-engenho, a mulher, a filha moça, o filho rapaz, o menino.

Antes, possuíam todos os pés e as rodas no cavalo de "bonita figura", bem tratado a capim verde, bornal de milho, banho de rio, com escova e sabão, cabras de confiança em vigilância nas estrebarias. Nele, com o orgulho de exibi-lo gordo, lustroso, de rego aberto, em bom passo, bem ajaezado, o senhor-de-engenho e a parentela iam às visitas e passeios, às missas aos domingos, quando não rezada na capela perto da casa-grande, à estação da Great Western, às feiras, às eleições, às festas de pátio de igreja e de carnaval.

Daí escolher-se ou rejeitar-se o cavalo pela cor (castanho, preto, alazão, ruço, ruço-pombo, melado, baio, pedrês, cardão, cardeado, caxito, fouveiro, gázeo); por algumas particularidades (careta, cabano, manalvo, cambeta, cacete, argel); pelo passo e pela conduta nas viagens: meio, baixo, galope, chouto, macio, estradeiro, esquipador, passarinheiro. E daí, também ter aparecido no Nordeste uma arte popular para servir ao cavalo — arte de couro, unindo-o mais uma vez ao boi — de selas, silhões, rédeas, rebenques, botas; e de metal: cabeçadas, cortadeiras, freios, estribos, esporas, às vezes de prata de lei para pratear, mais do que ferrar, os animais com os símbolos da aristrocracia rural. Costume seguido ainda nos centros urbanos — no Recife, até o primeiro quartel deste século — em montarias e parelhas de carruagem de governadores, bispos, bacharéis, comandantes militares.

Mas nem todos os cavalos, só os privilegiados da espécie, ostentavam esse luxo. Na garupa magra da maioria, viam-se as marcas do relho; na barriga, as do aperto da cilha; no focinho, as das bridas; nas costas, as das feridas abertas pelo peso de caçuás, pipas, garajaus, cambitos, cangalha, a cangalha tantas vezes trasnferida ao homem na linguagem popular, significando o trabalho grosseiro, duro, contínuo.

Entre esses extremos, o das ancas roliças, quase de égua no cio, e os das ancas lanhadas de ponteira, como se fossem atacadas por algum pai-d'égua sádico, anotem-se as intermediárias: as do cavalo de aluguel, ainda hoje à disposição dos viajantes do interior, o preço da légua condicionado à passada e aos arreios e ainda às condições do tempo e do caminho, os maus tratos, porventura ocorridos, cobrados à parte; o cavalo de mascate, este sobrevivente das tropas, ainda ambulante pelos engenhos, pelas fazendas, pelos povoados, com os seus baús de chitas, organdis, pulseiras, broches, anéis, brincos, pentes, fitas, frascos de cheiro; o cavalo de vigário, aqui longe da réplica paroquial, a burra-de-padre; a feira de cavalos, sobre a qual Oliveira Limpa conta o episódio do sertanejo que planejara longamente a primeira viagem ao Recife. Dispôs-se a fazê-la quase no fim da vida. Mas, ao atingir Vitória de Sanro Antão, no dia coincidente com o da feira de cavalos, exclama: — Basta de tanta grandeza! E dali mesmo volta aos penates.

Em feiras assim, há quem se abuse de trocar cavalos, conta Téo Brandão em Folclore de Alagoas:

De quatro coisas no mundo
Já ando muito abusado
Trocá cavalo na feira
Fazê negócio fiado
Andá com gente ruim
Dá murro em cabra safado
Há quatro coisas no mundo
Que aperreia um cristão:
É uma casa gotejenta
É um cavalo choutão
É uma muié ciumenta
É um menino chorão
Mas pra tudo isso há jeito
A casa se arreteia
O menino se acalanta
Cavalo se negoceia
E a mulher ciumenta
Se emenda passando a peia.

(Mota, Mauro. "O cavalo na zona açucareira". Brasil Açucareiro. Rio de Janeiro, fevereiro de 1969)

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