Março 2010 - Ano XII - nº 134
O cavalo teve seu lugar de herói. A Europa (Espanha e Portugal) tiveram um culto ao cavalo-animal. A Ordem do Hospitalários ou Cavaleiros de São João de Jerusalém, a Ordem dos Templários, as Ordenações Afonsinas eram entidades em que o cavalo tomava seu posto em defesa de um ideal.
Na literatura peninsular ibérica, a cavalaria constituía uma das maiores aspirações do homem. Os ginetes eram jovens bonitões da época e possuíam seus admiradores, invencíveis ou morriam à heróica. As novelas de cavalaria aparecem em Portugal e Espanha: Amadis de Gaula, Dom Quixote, Livro de Montaria. Mais tarde, em outros países, como a Inglaterra, Carlos Magno, Orlando Furioso, Chanson de Roland, na França.
Ninguém conhecia o cavalo na América do Sul, no século XVI. E quem o trouxe para cá deve tê-lo feito a pé ou de navio, menos a cavalo.
Os ciganos que saíram de Portugal, nos primeiros anos após o descobrimento à procura de aventuras maiores e ares diferentes, ficaram em Pernambuco e trouxeram consigo quantidades de equinos árabes que se fixaram, mais tarde, no Piauí e por lá se fortificaram. Há quem diga que Pedro Mendonça levou cavalos para a Argentina e que de lá atingiram as nossas terras.
O tempo foi passando e as raças foram se distinguindo como a crioula do Rio Grande do Sul, a manga-larga de Minas Gerais, a campolina, cujo nome está ligado à malfadada cavalhada nas "respeitáveis barbas de dom Pedro II". E o cavalo comum, como o mimosiano que gosta de capim-mimoso, o curraleiro encontrado no platô goiano e no sul de Mato Grosso. Estes apresentam denominações regionais como: o pantaneiro e o papagaio.
O primeiro cavalo a chegar nos campos guarapuavanos foi o andaluz, vindo na expedição do espanhol Alvarez Nunes, Cabeça de Vaca, em 1541. Há, no entanto, outras hipóteses como esta: antes da fundação da freguesia de Nossa Senhora de Belém, nos campos de Guarapuava, cavalos foram deixados pela expedição de Antônio da Rocha Loures.
Outro nome de tipo de cavalo é o tobiano, no Rio Grande do Sul, introduzido pelo brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, em 1844, quando os apanhava de Minas Gerais.
O sertanejo é um tipo de cavalo comum, o mais comum, que ninguém liga. Nasce de qualquer modo, em qualquer lugar. Mas é um cavalo bom, cortês, inteligente, aceita o dono e faz o que este quer. Segue o gado, anda pelas caatingas, resiste a tudo. Não usa ferradura. Parece fraco, preguiçoso, mas é forte, arisco e corajoso. É um cavalo que fala com a gente. Gosta de ouvir conversa como a de Juca Mulato que amava a filha da patroa:
"Pigarço: a dor me aquebranta quando lembro o olhar que adoro
e que nunca esquecerei
ai! sinto um nó na garganta
e choro, Pigarço, choro
eu que até chorar não sei. Quando a trote ela nos via
debruçada na janela
nos levávamos, após
com o pó que do chão se erguia
a nosso olhar cheio dela
e o dela cheio de nós
Eu da luz o olhar garço
tu, da dor que te machuca
morreremos e depois
eu fico sem meu pigarço
meu pigarço sem seu Juca
e o olhar dela, sem nós dois"
A antologia do jogo do bicho nos diz: quando você sonhar com arco-íris, convento, luva, prego ou carvão é jogo certo: cavalo. E na literatura oral o jogo do bicho é bastante explorado: o número 11 é o cavalo / que dá sela pro patrão. O número 11 é o cavalo que leva na sela o patrão. O número 11 é o cavalo que anda desferrado e só come capim.
Lendas
Cavalo de cão: muito conhecida no campo e nas cidades do interior. Figura estranha que não gosta de prosa. Não gosta também de ser insultado ou provocado, e se isto acontecer, torna-se violento, capaz de causar tragédias. É hábito dizer: "virou cavalo de cão" ou "está se metendo a cavalo de cão".
Cavalo-marinho: A história de um rei que possuía muitas filhas. Sempre dava festas no seu castelo. Queria casar bem todas as filhas. A caçula teve o melhor casamento e foi morar num palácio, no fundo do mar. Tudo era bom, lindo, maravilhoso, menos o caminho, por terra, até à casa do pai. Isto sim, era penoso. No primeiro aniversário de casamento, o pai resolveu presenteá-la com um cavalo árabe. Agora, sim! Mas o animal também se cansava no trajeto. Precisava de cuidados especiais, na casa da linda moça. Sua criadagem, porém, não era lá de muita atenção e a casa vivia ao Deus dará. Um dia, o cavalo desapareceu. Ninguém mais o encontrou. Certa vez, apareceu na superfície do mar um monstro metade cavalo, metade peixe. Era o cavalo árabe que se tornara um cavalo-marinho brasileiro. Outra história do cavalo-marinho nos é contada pelo povo. Ele é encantado e vive no mar ou nos rios. Muito bonito, aparece como homem em certos lugares do Norte e Nordeste do país. É também chamado cavalo-do-rio o que vive no rio São Francisco. Encanta e seduz as mocinhas que andam às margens daquele rio. Ainda nas lendas do Norte do país, vamos encontrar as amazonas, mulheres cavaleiras, excelentes guerreiras. Extraíam o seio direito para melhor manejo do arco e flecha.