Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2009 - Ano XI - nº 127


Sumário

Festança
Dança do lê-lê, agora é mais conhecida
Virgilio Pinto

Cancioneiro
Como pode o peixe vivo
Guilherme Santos Neves

Imaginário
História de assombrações
Franklin Cascaes

Colher de Pau
Brindes e saudações, através dos tempos
Mariza Lira

Oficina
O estouro da boiada
Deise Sabbag

Palhoça
Os tipos populares desapareceram quando os arranha-céus começaram
Oswaldo Amorim

Panacéia
Benzendo e rezando
Plautus Cunha

 

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Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Benzendo e rezando

Plautus Cunha

O folclore não deve ser considerado sertanejo. E sim uma manifestação coletiva que brota com a simplicidade dos costumes, das crenças, danças e cantigas espontâneas até mesmo sem métrica e sem preocupações gramaticais. Benzer e rezar são dois assuntos que estão ligados ao folclore brasileiro. O Ceará então é riquíssimo no assunto. Nosso ilustre conterrâneo Barão de Studart, com a sua invulgar capacidade de pesquisador, deixou cerca de cento e cinquenta trabalhos sobre história e geografia especialmente do Ceará e outros acerca de usos e superstições cearenses. Não sou supersticioso, não é que eu diga mesmo que não acredito "nestas coisas", são ciência também e mereceram trabalhos contínuos até do nosso erudito Barão, formado em medicina e cearense dos mais cultos.

Na seca de 1932 hospedou-se lá em casa uma família enorme, gente sofredora e humilhada, mas possuidores de uma verve que encantava. Contavam histórias, adivinhações e também "rezavam". Recordo a doce simplicidade daquela gente. Retiravam corpos estranhos benzendo ou rezando, olhos, gargantas, ouvidos num passe de mágica. Jamais poderei esquecer aqueles versinhos que evocam a figura da santa donzela que conduz dois olhos numa salva:

Corre, corre cavaleiro
Vai à porta de São Pedro
Dizer a Santa Luzia
Que me mande seu lencinho
Prá tirar esse argueiro.

Dito as últimas palavras abre-se o olho do paciente com o indicador e o polegar, assopra-se com força passa-se o lenço na conjuntiva e retira-se o corpo estranho. O doente então pisca várias vezes as pálpebras e grita incrédulo, do milagre: – É saiu, graças a Santa Luzia!

* * *

Conheci um caboclo, Cassiano, que dormia no alpendre de nossa fazenda e à noite rezavam todos, terços e novenas. Ele apenas dizia depois de tomar a rede:

São Pedro benze a igreja
O padre benze o altar
Eu benzo a minha rede
Onde vou me deitar

E... dormia como um justo.

* * *

Doutra feita o caboclo que tinha fama de prender cobras com orações forte foi posto à prova. Apareceu no pátio uma cobrinha jararaca e gritaram ao Cassiano. Este apareceu com um grosso jucá e gritou em frente da cobra:

– Esteja presa!
De ordem do senhor
São Bento!!!

Ato contínuo distribuiu umas vinte pauladas na cobrinha de quinze centímetros reduzindo-a à massa. Tipo da oração mecânica...

* * *

São Gonçalo do Amarante aparece nos sertões do norte do Ceará e sul do Piauí. Seus discípulos ou melhor seus exploradores carregam a imagem enrolada numa toalha de banho. É um vulto de uns cinquenta centímetros representando o velho santo português. Sua especialidade: casar as moças e melhorar água de cacimba funda. Mas só se dançar o "São Gonçalo" e tem que cantar esses versinhos:

Dá-nos água São Gonçalo
Água muito doce e pura
E mande logo o inverno
Que nós queremos fartura
São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das moças
Casai a mim primeiro
Pra depois casar as outras.

* * *

Certa ocasião ao voltarmos de uma caçada encontramos o negrinho Benedito gemendo de dores com uma entorse. A velha benzedeira com um fio de algodão numa agulha de "rede" fazia que costurava o pé do moleque. Obrigando o negrinho a responder: perguntava insistente.

– Que é que eu coso?

Benedito depois de aprender respondia:

– Carne trilhada
Osso rendido
Nervo torto
Junta desconjuntada.

E a velha Zefinha fingia que enfiava a agulha na parte intumescida completava rezando:

– Com os milagres de
São Frutuoso
Tudo isso eu coso.

Depois de "soltarem" o negrinho a rezadeira com um novelo de fio na mão dizia apontando o doente: – Com mais duas rezas ele estará bonzinho!

 * * *

Aos quatorze anos, morávamos em Afonso Pena, quando fui envolvido por uma afecção dos segmentos medulares. As bolhas róseas apareceram-me na pele distribuídas pela cintura e altura do umbigo. Falava-se muito em sífilis e eu fiquei alarmado. Ignorava que fosse o zona o meu mal. Um amigo me aconselhou a procurar a velha Mariquinha rezadeira. Procurei o casebre dá lavadeira e me expliquei. A velha amarrou uma toalha na cabeça, trouxe um galho de vassourinha, mandou que levantasse a blusa examinou e disse admirada: – Meu fio é cobreiro! E se encontrar o pé com a cabeça você morre! Fiquei gelado, mas depois da reza já me sentia melhor.

* * *

A dor que aparece no apêndice do externo é vulgarmente conhecida com espinhela caída. Quando acontece que o doente é uma criança é suspensa a bandeirola de uma porta e a rezadeira apalpando-lhe o corpo diz três vezes:

Quando Deus andou no mundo
Três coisa deixou,
Arcas e ventos
E espinhela levantou.

* * *

Outra crendice interessante vi aplicarem no meu primogênito quando passávamos as férias na fazenda. Esta então é a mais cearense de todas elas. Ao ser amarrado o dentinho extraído um dentinho mole foi o pedacinho de osso jogado em cima da casa com a célebre recomendação:

– Mourão, mourão
Pega teu dente podre
Me dá meu são!

* * *

Outro caso que, não posso deixar de citar neste pequeno trabalho folclórico é a história de uma espinha na garganta, tratada com esta oração infalível... Dispensando assim os cuidados da Assistência Municipal! Segundo a rezadeira. Bota-se a mão no gogó do paciente e reza-se assim:

– Senhor São Brás
Disse a seu moço
Que subisse
Ou que descesse
A espinha do pescoço.

* * *

Certa ocasião provoquei uma celeuma lá em casa. O meu soluço incomodava menos a mim que aos outros. Todos queriam dormir e eu não deixava. Oh! vida de menino cheia de tanta novidade! Me fizeram sustos e nada... Finalmente veio também a empregada com um caneco d'água e me ensinou que lhe perguntasse:

– Que bebo senhor?

Mal perguntei e a cabocla me arrojou o copo cheio de água pela boca a dentro dizendo:

– Água de Cristo!
Que é bom pra isto!

Quase asfixiava com tanta água, a blusa do pijama molhada. Todos me olhavam admirados da cena, aquele silêncio exigia a cura do soluço. Da rede mesmo abracei o pescoço da negra velha. Eu estava maravilhosamente curado.

Fui dormir impressionado com a culta "cientista", que vivia tão obscuramente, à beira do nosso fogão...

(Cunha, Plautus. "Benzendo e rezando". O Jornal. Fortaleza, 17 de janeiro de 1959)

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