Escreve Mário Melo:
"Quem aqui pelo Nordeste, não conhece o olhado?"
O que vale é que há sempre o antídoto. Perto donde vive um "olho de seca pimenteira", há plantação de arruda, e alguma velha rezadeira para tirá-lo.
Conheci, no meu tempo de menino, no Paudalho, um velho magro, inteligente, com alguma instrução, alferes da Guarda Nacional, de sobrenome italiano, que era o terror das mães de filhos pequeninos.
Diziam que criança por ele fitada começava a definhar, a mirrar, era atacada de frouxidão intestinal e, sem benzedura, passaria logo a anjo.
Vi e ouvi muitas vezes dizerem:
— Fecha a porta, que seu Fulano vai passar.
Ou:
— Tira o menino da porta. Lá vem seu Fulano.
Rosa que ele fitasse na roseira, entrava logo a emurchecer planta viçosa atingida por seu olhar perdia logo todo o viço.
Tinha ele, de fato, olhos verde que irradiavam olhar penetrante. Gravou-me na memória — teria meus sete ou oito anos — uma criança doentinha, cuja diarréia a tornara esquelética, de olhos semi-apagados.
Uma das perguntas sobre a causa daquele definhamento fora de seu Fulano andara nas imediações.
Com a resposta afirmativa da mãe, o diagnóstico foi preciso e imediato:
É olhado!
Mandaram chamar a benzedeira.
Esta confirmou o diagnóstico e pediu dois galhos de arruda e uma bacia com água.
Levou a criança à janela, molhou o ramo de arruda, traçou nos ares umas cruzes e disse umas palavras que não compreendi.
Vejo agora, por uma comunicação de Abelardo Duarte, que a mesma coisa ocorre em Maceió, onde ele colheu as palavras da reza:
Com dois te botaram
Com três eu te tiro
Com os poderes de Deus
E da Virgem Maria
Olhos excomungados
Olho mau, olho ruim
Eu te esconjuro.
A criança tomou umas doses de homeopatia fornecidas por minha avó, com intercalações de chá de sabugo, e curou-se.
A cura, entretanto, foi atribuída à benzedeira, aumentando a fama da mulher da reza e do poder da arruda.
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso