Quando viajamos para pesquisas de campo, é claro que nos dedicamos àquela tarefa determinada, mas não podemos deixar de notar tudo quanto se passa ao nosso redor. O chapéu no folclore sempre foi nossa atração.
Ao vermos o amazonense sair com seu barco, ir ao mercado ou realizando qualquer tipo de trabalho, observamos seu chapéu de palha, sem nenhum requisito especial: aba larga com trançado comum. Na ilha de Marajó — mundo que nos oferece pela sua topografia vegetação e habitantes, excelentes estudos relativos à história, geografia, sociologia e especialmente, arte e técnicas populares — olhamos para o chapéu do vaqueiro: palha trançada, de abas muito largas e planas, copa achatada forrada de palhas secas para se defender dos raios solares e das chuvas. O peão de Marajó é caboclo que não larga seu cavalo a não ser nos períodos de cheias quando monta no boi-de-sela para atravessar os alagados. Chegamos em Santarém. Que policromia belíssima! Chapéus de um trançado dificílimo, muito fino e transparente. Há lendas a respeito de cada tipo de trançado que é preparado para receber o colorido contrastante. Hoje, em São Paulo, esses chapéus seriam recebidos com sorrisos abertos pela juventude.
Lá está o nordestino: seu chapéu de couro, achatado na frente e atrás, possuindo duas pingadeiras laterais. Por vezes bordado, ou simples de abas moles. Este vaqueiro também não larga seu cavalo. Canta aboios, comanda o gado. Ao chegarmos nas Gerais, o chapéu é de palha, com traçado simples, aba estreita ou larga quando usado pelos cortadores de algodão e café, como acontece em São Paulo.
O chapéu do tropeiro paulista é de feltro igual ao de Tatuí, Sorocaba ou Capela do Alto, cujo exemplo encontramos nas vestimentas dos dançadores de fandango daquela região. Hoje no entanto, encontramos chapéus de palha, copa redonda, com fitinha entre aquela e a aba, já industrializados, iguais aos usados na Festa do Peão do Boiadeiro, em Barretos. Nossa viagem continua.
Encontramos o gaúcho tomando seu chimarrão. Seu chapéu é de couro ou de feltro, com abas largas, preso pelo barbicacho debaixo do queixo. Também não larga seu cavalo, o pingo. Conversa com ele Juca Mulato, de Menotti Del Picchia. Faz parte da sua vida.
Estudar o chapéu do
folclore brasileiro — sugestão apresentada nesse instante — é matéria de grande interesse para os
professores que poderão deter-se um pouco mais nos estudos brasileiros, oferecendo ao aluno
oportunidade para conhecer técnica popular que os nossos homens simples aprenderam através das
experiências na região que vivem.
(de Folha da Tarde, de 30/11/1972)
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