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O carreiro e o carro de boi

José Norberto de Macedo

Populações de muitos municípios do São Francisco estão conhecendo o avião antes do automóvel e do caminhão. O caso de Barra, importante cidade do interior baiano, é típico. em 1958, entrou ali o primeiro caminhão, importado pelo bispo da Diocese, os barrenses entretanto não se serviam do transporte.

A ausência de caminhões é naturalmente uma conseqüência da inexistência de "rodagens" (estradas). Curioso, porém, é o fato de que os produtos das fazendas cheguem às feiras semanais dos centros consumidores. Levados até à margem do rio no lombo dos animais ou no carro de bois, dali em diante os gêneros seguem pela via fluvial, em barcos a vela, canoas e paquetes.

Por estes e outros motivos, o carro de bois será ainda por tempo o principal veículo das famílias sertanejas. Moroso, é não obstante econômico e eficiente, pois carrega regular quantidade de carga, e, em qualquer estrada, com qualquer tempo, chega sempre ao destino da viagem.

O binômio, carro mais carreiro, se entrelaça ultimamente. Um bom carro só não basta; para o sistema funcionar bem, depende antes da força dos próprios bois, da perícia do condutor, e da boa maneira de compreender e dirigir os animais.

Admitem os sertanejos que o boi carreiro reconhece o condutor mais pelo tom da voz e pelo "cheiro" (olfato) do que propriamente pela vista. Realmente, sempre que os animais se habituam a servir e obedecer ao comando de determinado carreiro e este é mudado, os transtornos se verificam imediatamente e os imprevistos se multiplicam: a boiada se descontrola e a marcha do carro se faz anormalmente, ora muito às pressas, ora devagar, em linhas retas ou sinuosas.

A visão não constituíra assim o órgão nobre dos bovinos. O exemplo nos dão as vacas cujas crias morrem. Elas não aceitam outros bezerros como filhos, mas se estes forem revestidos com o couro do bezerro morto, a vaca permite que ele se amamente e acaba adotando-o, embora a diferença de idade entre um ou outro seja, às vezes, até de 3 meses.

Variável é a índole dos carreiros, mas sempre que afáveis com os animais, melhores são os resultados que colhem. Não obstante,certa feita encontramos um carro cujo animais empacaram. Por mais que o carreiro insistisse, os bois não se resolviam a fazer força para tirar o carro, atolado até os eixos. A esta altura dos acontecimentos, surge um vaqueiro e interroga o condutor.

— O que é que há?

— Os bois não puxam!

— Já se viu boi com querer?

E, tomando de um cacete, malhou vigorosamente os pobres animais que, aturdidos e severamente castigados, acabaram por puxar o carro.

Os castigos que o boi sofre, especialmente durante sua fase de aprendizagem não se limitam aos infligidos pelo carreiro: os pobres bois-mestres sabem enquadrá-lo na disciplina da canga, chifrando-o todas as vezes que comete imprudências.

A presença do carro de bois numa fazendo do São Francisco é sinal de progresso e de atividades agrícolas. Construído, muitas vezes, nas próprias fazendas, por carpinteiros da região, e que servem, ora numa, ora noutra propriedade, o bom carro e as boas juntas de bois constituem orgulho, não só do fazendeiro, como do próprio carreiro.

Modernamente estes carros estão recebendo algumas inovações no sentido de transformar-lhes o aspecto e de dar-lhes algumas melhorias. Assim, o antigo eixo móvel de madeira que rangia ao peso dos fardos, está sendo substituído pelo eixo de ferro, sem dúvida mais durável e resistente.

Perde o carro de bois a sua tradicional cantiga, cantiga dolente, gemido e monótona, que embalava a boiada processional e lerda, emparelhada e jungida sob as cangas luzidias da boa e forte aroeira do São Francisco. Havia até a preocupação de fazer o carro cantar. Para isso, eram construídas as "cantadeiras", ou sejam, pequenas peças de rija madeira que friccionam o eixo. As "cantadeiras" eram untadas com sebo e carvão moído, acondicionadas em um chifre, amarrado e dependurado na parte traseira do carro de bois.

Esta mistura era passada com o "isope", assim chamado ao pincel de crina. O "isope", hoje em dia, continua a ser utilizado mas para passar graxa nos eixos, evitando os desgastes, sem aquela antiga e romântica preocupação de fazer o carro cantar.

Um carro é sempre encangado com três juntas de bois; junta de coice ou de cabeçalho; junta de força ou central e junta de guia ou "guiera". Estas juntas se ligam umas às outras pelo cambão, peça de madeira para amarrar o cabeçalho ou canga. As cangas, por sua vez, colocadas sobre o pescoço do animal, são amarradas inferiormente por uma tira de couro (brocha), que vai de um canzil a outro. Canzil é a peça, também de madeira, que atravessa perpendicularmente as extremidades da canga.

Na lida, o carreiro é ajudado por um auxiliar — o "candieiro" ou "guieiro".

Este auxiliar é sempre um menino, em geral filho do próprio carreiro. Consiste seu trabalho como nome bem define e indica — em guiar ou orientar os bois. Marchando na frente do carro e trazendo nas mãos uma pequena vara, o garoto procura sempre os melhores trechos dos caminhos. Quando, porém deseja mudar a direção do carro, vira-se de frente para os animais, estende-lhes o braço da vara e caminha de costas. Nesta posição, fica naturalmente sujeito a quedas e a ser pisado. Outras vezes, quando o carreiro aguilhoa violentamente os animais com a sua vara de ferrão, os bois assim inopinadamente solicitados assustam-se e arrancam, apanhando o "candieiro" desprevinido.

Trabalho sem dúvida arriscado, todo "candieiro" traz em sua mente infantil uma história a contar, em que ele escapou por um triz de ser varado por uma chifrada daquelas cabeçorras ou pisado pelas unhas cortantes dos bois da guia. Assim, porém, é que se fazem no São Francisco os futuros carreiros; é trabalhando desde cedo, lado a lado ao carreiro, batendo as estradas de pó e vivendo a vida dura e rude dos condutores de carga.
 

(Extraído de Fazendas de gado no vale do São Francisco, edição do Serviço de Informação Agrícola, série Documentário da Vida Rural, 1952).

 

(Macedo, José Norberto de. "O carreiro e o carro de boi". Diário de São Paulo, 15 de fevereiro de 1957)

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