Populações de muitos municípios do São Francisco estão conhecendo o avião antes do automóvel e do caminhão. O caso de Barra, importante cidade do interior baiano, é típico. em 1958, entrou ali o primeiro caminhão, importado pelo bispo da Diocese, os barrenses entretanto não se serviam do transporte.
A ausência de caminhões é naturalmente uma conseqüência da inexistência de "rodagens" (estradas). Curioso, porém, é o fato de que os produtos das fazendas cheguem às feiras semanais dos centros consumidores. Levados até à margem do rio no lombo dos animais ou no carro de bois, dali em diante os gêneros seguem pela via fluvial, em barcos a vela, canoas e paquetes.
Por estes e outros motivos, o carro de bois será ainda por tempo o principal veículo das famílias sertanejas. Moroso, é não obstante econômico e eficiente, pois carrega regular quantidade de carga, e, em qualquer estrada, com qualquer tempo, chega sempre ao destino da viagem.
O binômio, carro mais carreiro, se entrelaça ultimamente. Um bom carro só não basta; para o sistema funcionar bem, depende antes da força dos próprios bois, da perícia do condutor, e da boa maneira de compreender e dirigir os animais.
Admitem os sertanejos que o boi carreiro reconhece o condutor mais pelo tom da voz e pelo "cheiro" (olfato) do que propriamente pela vista. Realmente, sempre que os animais se habituam a servir e obedecer ao comando de determinado carreiro e este é mudado, os transtornos se verificam imediatamente e os imprevistos se multiplicam: a boiada se descontrola e a marcha do carro se faz anormalmente, ora muito às pressas, ora devagar, em linhas retas ou sinuosas.
A visão não constituíra assim o órgão nobre dos bovinos. O exemplo nos dão as vacas cujas crias morrem. Elas não aceitam outros bezerros como filhos, mas se estes forem revestidos com o couro do bezerro morto, a vaca permite que ele se amamente e acaba adotando-o, embora a diferença de idade entre um ou outro seja, às vezes, até de 3 meses.
Variável é a índole dos carreiros, mas sempre que afáveis com os animais, melhores são os resultados que colhem. Não obstante,certa feita encontramos um carro cujo animais empacaram. Por mais que o carreiro insistisse, os bois não se resolviam a fazer força para tirar o carro, atolado até os eixos. A esta altura dos acontecimentos, surge um vaqueiro e interroga o condutor.
— O que é que há?
— Os bois não puxam!
— Já se viu boi com querer?
E, tomando de um cacete, malhou vigorosamente os pobres animais que, aturdidos e severamente castigados, acabaram por puxar o carro.
Os castigos que o boi sofre, especialmente durante sua fase de aprendizagem não se limitam aos infligidos pelo carreiro: os pobres bois-mestres sabem enquadrá-lo na disciplina da canga, chifrando-o todas as vezes que comete imprudências.
A presença do carro de bois numa fazendo do São Francisco é sinal de progresso e de atividades agrícolas. Construído, muitas vezes, nas próprias fazendas, por carpinteiros da região, e que servem, ora numa, ora noutra propriedade, o bom carro e as boas juntas de bois constituem orgulho, não só do fazendeiro, como do próprio carreiro.
Modernamente estes carros estão recebendo algumas inovações no sentido de transformar-lhes o aspecto e de dar-lhes algumas melhorias. Assim, o antigo eixo móvel de madeira que rangia ao peso dos fardos, está sendo substituído pelo eixo de ferro, sem dúvida mais durável e resistente.
Perde o carro de bois a sua tradicional cantiga, cantiga dolente, gemido e monótona, que embalava a boiada processional e lerda, emparelhada e jungida sob as cangas luzidias da boa e forte aroeira do São Francisco. Havia até a preocupação de fazer o carro cantar. Para isso, eram construídas as "cantadeiras", ou sejam, pequenas peças de rija madeira que friccionam o eixo. As "cantadeiras" eram untadas com sebo e carvão moído, acondicionadas em um chifre, amarrado e dependurado na parte traseira do carro de bois.
Esta mistura era passada com o "isope", assim chamado ao pincel de crina. O "isope", hoje em dia, continua a ser utilizado mas para passar graxa nos eixos, evitando os desgastes, sem aquela antiga e romântica preocupação de fazer o carro cantar.
Um carro é sempre encangado com três juntas de bois; junta de coice ou de cabeçalho; junta de força ou central e junta de guia ou "guiera". Estas juntas se ligam umas às outras pelo cambão, peça de madeira para amarrar o cabeçalho ou canga. As cangas, por sua vez, colocadas sobre o pescoço do animal, são amarradas inferiormente por uma tira de couro (brocha), que vai de um canzil a outro. Canzil é a peça, também de madeira, que atravessa perpendicularmente as extremidades da canga.
Na lida, o carreiro é ajudado por um auxiliar — o "candieiro" ou "guieiro".
Este auxiliar é sempre um menino, em geral filho do próprio carreiro. Consiste seu trabalho como nome bem define e indica — em guiar ou orientar os bois. Marchando na frente do carro e trazendo nas mãos uma pequena vara, o garoto procura sempre os melhores trechos dos caminhos. Quando, porém deseja mudar a direção do carro, vira-se de frente para os animais, estende-lhes o braço da vara e caminha de costas. Nesta posição, fica naturalmente sujeito a quedas e a ser pisado. Outras vezes, quando o carreiro aguilhoa violentamente os animais com a sua vara de ferrão, os bois assim inopinadamente solicitados assustam-se e arrancam, apanhando o "candieiro" desprevinido.
Trabalho sem dúvida arriscado, todo "candieiro" traz em sua mente infantil uma história a contar,
em que ele escapou por um triz de ser varado por uma chifrada daquelas cabeçorras ou pisado
pelas unhas cortantes dos bois da guia. Assim, porém, é que se fazem no São Francisco os
futuros carreiros; é trabalhando desde cedo, lado a lado ao carreiro, batendo as estradas
de pó e vivendo a vida dura e rude dos condutores de carga.
(Extraído de Fazendas de gado no vale do São Francisco, edição do Serviço de Informação Agrícola, série Documentário da Vida Rural, 1952).
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