Os nossos índios do Amazonas sabem histórias bonitas. Era uma vez, quando no mundo só existiam duas coisas: o sol (um sol permanente, chocando aquela imensidão) e a cobra grande.
Quando a cobra grande se acordou teve uma filha. Era branca e bonita. Parecia uma flor.
A filha da cobra grande cresceu. Virou moça. E andava sozinha no meio de uma floresta imensa. Mas vivia triste, porque ainda não tinha encontrado marido.
Um dia apareceu por aqueles lados um moço (ninguém sabe de onde ele veio). A filha da cobra grande olhou pra ele. Gostou dele. Ele gostou dela. Então se casaram.
Houve uma festa muito grande. Convidaram toda a gente. Camelião chegou de roupa nova. Veio o sapo cururu. Compadre jaboti veio também. A anta não pôde vir porque tinha emprestado os sapatos.
Mas quando a festa se acabou, a moça ficou com vergonha de dormir com o noivo, porque naquele tempo ainda não havia noite (o sol não ia embora).
Então resolveram mandar buscar a noite, que estava escondida no fundo do mato, dentro de um caroço de tucumã.
Toda a gente quis ir junto.
— Vamos depressa.
— Ué, vamos!
— Ai, me deixa ir também. Nós vamos fazer a vontade da noiva.
Saíram correndo por aqueles rumos. Uns foram a nado, águas arriba. Outros se sumiram no mato-a-dentro. O sapo foi de canoa.
Andaram. Andaram.
Quando chegaram num lugar-longe, quase houve briga. Cada qual queria agarrar a noite, encerrada no tucumã.
— Olha! Sou eu quem vai levar o caroço. Eu cheguei primeiro.
— Ah, mas eu tenho mais força.
Estavam discutindo esse leva não leva, quando chegou o sapo, de voz grossa:
— Deixa primeiro escutar o que tem dentro.
— Diz que esse barulhinho é a noite, compadre. Nós vamos levar a noite de presente pra filha da cobra grande.
— Ah! Não acredito. Noite aqui dentro? Só mesmo vendo.
Então resolveram abrir o caroço de tucumã. Foi quando a noite estourou, que escureceu tudo. Minhocão se assustou. Pulou pra longe. Foi fazer casa na beira do mato, matim-ta-pereira com medo, começou a gritar:
— Matim-tatim-tatá.
A floresta se encheu de barulho. O caapora saiu correndo, sacudindo as árvores. Um pedaço da noite entrou na barriga do sapo.
Desde então existe noite no Brasil. A filha da cobra grande foi dormir com o noivo. Ficaram felizes. Tiveram muitos filhos. Uns ficaram no Amazonas, outros foram pra São Paulo, Porto Alegre, Maranhão. Outros pra serra do Balalão. O mais moço foi quem me contou esta história.
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