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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

As baianás

Téo Brandão

À primeira vista pode parecer que as baianás sejam personagens ou danças oriundas da Bahia. Sobretudo porque, além do nome que as nomeiam, vestem-se em estilizações ou adaptações do clássico traje baiano: vestidos compridos de florões, blusas de cor, torços de seda, balangandãs de imitação.

A verdade, porém, é que o folguedo é oriundo do sul de Pernambuco, havendo penetrado no estado a partir da segunda década do século, como clube de carnaval, e posteriormente como função natalina.

É uma modificação rural de maracatus em que elementos de pastoris e de cocos se misturaram à danças e canções de nítida influência religiosa negra. Por isso seu nome primitivo, ainda usado na zona rural de Alagoas ou em Pernambuco, é samba de matuto ou baianal, e por causa de sua filiação religiosa negra é que inicialmente os clubes de samba ou baianais eram ensaiados pelos babalorixás célebres, de Maceió, Manuel Aguleiju, Chico Foguinho, Zumba, etc.

Só a partir de 1930 passou o folguedo ou dança a ser denominado de baianá quando uma variedade de cantiga, de ritmo apressado, por isso denominado pancada-motor, tomou conta do estado, cantigas que justamente se iniciavam pela palavra: baianás, e falavam dos sucessos, pessoas e coisas do decantado sul de Pernambuco:

Baianá
Se for a Recife,
Me traga um rife
Do papo-amarelo;
Parabelo
Do cano bem grosso
Pra dá a este moço
Pra atirá com ela.

Baianá,
Se você quisé
Eu faço um chalé
Mode você morá
Parmares
Que é terra da lua
Que tem uma rua
De prata e metá.

Ai, baianá
Se eu fosse tu
Em Caruaru
Eu não ia mais
Ainda onte
Eu encontrei baiana
Com um feixe de cana
E a puliça atrás.

Fenômeno igual se deu em Rio Grande do Norte onde Hélio Galvão recolheu várias cantigas de baianás, também falando em acontecimentos e pessoas de Pernambuco:

Em Pernambuco
Chegou um tenente
A vortá é crué
Pra mulé, sem marido,
Pra comprá fazenda
Emendar o vestido.

Ao lado das cantigas, multiplicavam-se os grupos dançantes, agora pelo Natal, uns na zona rural — mais rudes e primitivos, as vezes sincretizados nos trajes e personagens com os reisado: outros, sobretudo na capital e cidades mais importantes, adotando o traje clássico de baianas, com influência de pastoris no colorido das saias e blusas ou torços: azul para um cordão, encarnado para o outro.

Ao mesmo passo, apareciam e criavam fama os mestres famosos, uns vindo de Pernambuco: Davi e Carnaubal de Barreiros: José Germano, de Campo-Feliz; Francisco Lourenço, do Cabo; outros de Alagoas: Hermenegildo, de Murici; João Parafuso e João Mariano, de Camarigibe; Lió e Pedro Aleixo, de São Luis do Quitunde; Joca, de União, etc... improvisadores e repentistas notáveis que empunhavam os ganzás e desafiavam os antagonistas entre os saracoteios das baianas e o baque dos tambores e assovios dos morcegos.

Foi a época áurea dos sambas e baianais, quando Hermenegildo cantava a propósito dos clube esportivos de Maceió:

Baiana, quebra o chapéu
No jeito de namorá;
Baiana de Hermenegildo
Meia volta Cêssiá (C.S.A.)

Baiana quebra o chapéu
Bonito para se vê;
Baiana de Hermegenildo
Meia volta Cêrrebé (C.R.B.)

Pedro Aleixo debicava de seu rival Lió:

As baianas de Pedro Aleixo
Pra cantar compraram um bombo,
As baianas de Lió
Pra juntá roubaram um lombo.

Mestre Joca, de São Miguel dos Campos ouvido por Raul Lima, falava dos senhores de engenho que conhecia:

No Poço, o seu Elias,
No Coité, o seu Zé Marcos
No Sinimbu, seu João Cesar,
No Retiro, eu não vou,
No Prata, seu João Sampaio
Lá no sítio do meio o seu Chico;
Aqui na rua da Ponte
O coronel Salvador.

Depois, as baianás acentuaram os seus ares de pastoris; as mulheres, que tomaram os lugares dos homens na mestria dos conjuntos, deixaram de lado os ganzás e ficaram apenas com os apitos dos morcegos, substituíram os torços por diademas e os xales por faixas de seda a tiracolo e raramente passaram a improvisar. Na sua maioria apenas repetem composições, jornadas, etc., com antecedência compostas pelo ensaiador ou diretor, como estas colhidas de uma baiana do Poço, há mais de dez anos:

Moça ficou pra namoro
Quando acha um casamento,
Pra rimá Mané Lorenço,
E o Aurélio pra tê fama
Mandei um radiograma
Pruque sou presioneiro
Meste Artur para guerreiro
Mestra Aliça pra baiana.

Vou comprá um carro Fó
Daquela nova sistema
Pra robá uma morena,
De Saúde a Maceió;
O chofré se chama Jó
Por nome Mangeriuva,
A gasolina é a chuva,
A dereção é o só.

Tenho meu revorve Eme,
Da bainha de metá
Quando ele qué dispará
Meu peito saluça e geme;
Amarelo, cô de creme,
Tome esse boquê de frô,
O nome de meu amô
É Jota Efe Esse Eme.

Dinheiro e moça bonita
É quem gunverna esse mundo
Nos trajes de um vagabundo
Os mortos se ressucita
Até os pobres acredita
Eles deseja também
Feliz do home que tem
Dinheiro e moça bonita.

Contudo, as melhores mestras ainda continuam a ser as que improvisam suas loas como Das Dores, do Baianal do Poço, que foi o melhor conjunto do ano passado:

Meu naturá é Pilá
Hoje tou em Maceió
Eu vou mora no Faró
Que avista a beira-má;
Todos pode acreditá
De todas as baianinhas
A do Poço é a rainha
Tira em premêro logá.

A contra-mestra
Da Baiana é Rita,
Minha deretora
Se chama Zezé
A minha mestra
É muito bacana
E as minhas baianas
Só faz o que qué.

Mas decoradas ou improvisadas, o que interessa é o que fica das baianas, além do seu ritmo original e quente, de seus requebros dengosos lembrando nitidamente a África distante, em que se esmeram as morenas cor de azeitona, canela ou jambo, são as narrações dos sucessos, episódios, acontecimentos que impressionaram a mente popular e que, repetidos às vezes com vários anos de distância mantêm a tradição sempre viva e alerta.

Aqui é a lembrança das lutas paraibanas em 1930:

A máquina do bueiro grande
Saiu apitando
Na linha de ferro,
O maquinista gritou pro soldado
Vamos aventurá a nossa própria guerra.

Eu tava na estação
Quando a corneta tocou siná,
Arreunindo todos soldados...
Adeus Paraíba, até quando eu vortá.

Ali as de Lampião:

Arrumo meus matulão
Compra meu pá aprecata
Vou me despedi das mata,
Vou-me embora pro sertão,
Parpita meu coração,
De pressigui cangaceiro
Só vorto para Barreiro
Quando trouxe Lampião.

Agora as vicissitudes da vida nas usinas e engenhos:

Eu prantei cana na Usina Lido
Quando eu fui moê o vácuo se quebrou,
Ofereci o açúca a Lido;
Não quero, não que o açúca baleou.
Tinha valô embarquei para o estrangeiro
Quem tivé dinheiro compre aquela frô
E meu sinhô, não fui que roguei fama,
Requebra, baiana, que meu meste mandou.

A carestia da vida (ainda em 1940, é bom que se diga):

A era de 40
Tá ruim de se passá
Mas um pobe pai de famia
Só leva o tempo em chorá
A farinha que vai comprá
O quilo é quinze mil réis,
A caras de porco, é pur dez
Por dezoito a Ciará.

A mile duzento é o sá
Seis mil réis é o arroz
O bacalau pur vinte e dois
Quatro cruzeiro o fubá;
Duma que eu peguei a rimá
Sou a bamba de Alagoa
Se a peça não tive boa,
Todos queira desculpá.

E naturalmente o amor, sempre o amor:

Meu guia me pede
Uma peça em cima
Eu descubro a rima,
Dos mestes afamado,
Eu tenho casado
Uma fita com um laço.
Um amô com um abraço,
Em seu colo deitado.

 

(Brandão, Téo. "As baianás". Diário de Notícias [não foi possível identificar a data original de publicação deste artigo])

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