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Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Os charutos do padre Brito Guerra

Manuel Dantas

O sertanejo, antigamente, apesar da simplicidade da vida do campo, quase nada ficava a dever aos outros povos no tocante aos hábitos de boa sociedade. Famílias havia que se tratavam até com certo luxo.

Naqueles tempos era costume todos os fazendeiros abastados irem anualmente ao Recife fazer compras, de modo que daquela cidade traziam sempre as últimas novidades do vestuário.

As festas que se celebravam todos os anos, no Caicó, no mês de julho e no Acari, em dezembro, eram muito concorridas e notadas pelo luxo e riqueza de trajes dos sertanejos.

Em outras coisas, porém, os nossos antigos eram um pouco descuidados: a habitação e a mesa.

As casas tinham pouco conforto, e o passadio, muito substancial, era simples e servido sem o gosto e o requinte das sociedades cultas, apesar de serem comuns em algumas casas as baixelas de prata.

O padre Guerra [1], tendo sido eleito deputado geral em 1833, quando voltou do Rio de Janeiro, no ano seguinte, trouxe excelente mobília de jacarandá, um rico aparelho de jantar, copeiros adestrados nos costumes da corte, e preparou a sua casa no Caicó com certo luxo e bom-gosto.

Entre as novidades que o padre Guerra introduziu na sociedade caicoense, não foi menor a do charuto, que até então nem talvez de nome fosse conhecido.

Conta-se que, à volta do padre Guerra do Rio de Janeiro, foram visitá-lo dois amigos, cujos nomes a tradição não conservou.

O padre mandou servir-lhes o almoço e, no fim da refeição, depois de atacados, com a força de estômagos sertanejos, a carne assada, a galinha torrada, o queijo e outros quitutes da cozinha de um vigário rico que sabia tratar-se, o criado carioca apresentou aos hóspedes, numa rica salva de prata, dois magníficos charutos.

Os pobres matutos ficaram em dificuldades, porque desconheciam o manjar que, por apresentarem em bandeja de prata, não podia deixar de ser uma das iguarias finas do Rio de Janeiro. Convencidos de que se tratava de uma comedoria, foram com o charuto ao dente, porém não lhes soube bem o gosto. Recorreram, então, ao expediente de cortá-lo miúdo e comê-lo com farinha seca.

Assim repletos com tão saborosa sobremesa, voltaram à sala de visitas, onde o padre, obsequioso, perguntou-lhes:

— Então, compadres, almoçaram bem?

— Muito bem, respondeu um deles, mas aquele doce seco que nos deram no fim era amargo demais. Só com farinha seca pudemos tragá-lo.

Conhecida a natureza do doce, o padre riu gostosamente da forma pela qual seus amigos saborearam o precioso baiano, e ainda hoje se relembra naquelas paragens o que bem se poderia denominar — a história do primeiro charuto no Caicó.

 

Reproduzido de Homens de outrora, VI, Biblioteca de História Norte Rio-grandense, IV, Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1941

Nota

1. O padre Francisco de Brito Guerra (1777-1845), vigário colado do Caicó (RN), em 1833 tomou assento na Câmara dos Deputados como suplente do deputado José Paulino de Almeida e Albuquerque. Eleito deputado geral pelo (1834-1837), concorreu à vaga senatorial de Afonso de Albuquerque Maranhão, em maio, sendo escolhido senador do império pela Carta Imperial de 10 de junho de 1837, empossando-se a 12 de julho do mesmo ano. Foi o segundo senador pelo Rio Grande do Norte, no Império, e o único nascido na província que representava na Câmara Vitalícia.

 

(Em Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977, p.130-131)

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