Edição 100 - Março 2007

 

Cem quadrinhas

 

Não tenho medo do homem
Nem do ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai se vê, não é ninguém

*

Lá no céu tem três estrelas
Vestidinhas de nobreza
Quem quiser casar comigo
Não repare minha pobreza

*

Trepei num morro de fogo
Com “precata” de algodão
Desci numa ponta de nuvem
Com mil coriscos na mão

*

Em cima daquela serra
Tem um ninho de carcará
Quando olho pra tua cara
Dou vontade de lançar

*

Cravo branco na janela
É sinal de casamento
Menina tira seu cravo
Inda não chegou seu tempo

*

Baixa baixa serraria
Que eu quero ver a cidade
Meu amor aqui tão perto
E eu morrendo de saudade

*

Amanhã eu vou-me embora
Pela semana que vem
Quem não me conhece chora
Que fará quem me quer bem

*

Marmelo é fruta gostosa
Onde dá na ponta da vara
Mulher que chora por homem
Não tem vergonha na cara

*

Camisinha de meu bem
Não se lava com sabão
Lava com raminho verde
Água no meu coração

*

Eu plantei um pé de rosa
Para te dar um botão
O pé de rosa morreu
Eu te dou meu coração

*

Mandei buscar na botica
Remédio para uma ausência
Me mandaram uma saudade
Coberta de paciência

*

Lá do céu caiu um cravo
De tão alto desfolhou
Quem quiser casar comigo
Vai pedir quem me criou

*

A folha da bananeira
De tão verde amarelou
O beijinho de meu bem
De tão doce açucarou

*

As moças daqui da terra
Passam fome porque quer
Tanto coco macaúba
Tanto buriti no pé

*

Anteontem à meia-noite
Saiu faca da bainha
Estão querendo me matar
Sabendo que a roxa é minha

*

Esta noite eu tive um sonho
Mas, ó que sonho atrevido
Sonhei que estava abraçado
Com a forma de seu vestido

*

Limoeiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amô

*

Essas meninas d'agora
Só sabem namorar
Botam a panela no fogo
E não sabem temperar

*

Meu benzinho não é este
Nem aquele que lá vem
Meu benzinho está de branco
Não mistura com ninguém

*

Em cima daquela serra
Tem um banco de areia
Onde assenta mulher velha
Pra falar da vida alheia

*

Bate bate coração
Arrebenta este peito
Como cabe tanta mágoa
Num espaço tão estreito?

*

Ninguém viu o que vi hoje
Um macaco fazer renda
E também vi um peru
Caxeirando numa venda

*

Amanhã eu vou-me embora
É mentira não vou não
Quem vai embora é meu corpo
Mas não vai meu coração

*

Lá no céu está trovejando
Mas não é para chover
Meu benzinho está doente
Mas não é para morrer

*

Sexta-feira faz um ano
Que meu coração fechou
Quem morava dentro dele
Tirou a chave e levou

*

Quem tiver o segredo
Não conte à mulher casada
A mulher conta ao marido
O marido à rapaziada

*

Um coqueiro de tão alto
Pôs a rama na Bahia
Onde tem moço solteiro
Casado não tem valia

*

Mamãe me chamou de feia
Ela só quer ser formosa
Ela vai ser roseira
Eu vou ser botão de rosa

*

Quero cantar ser alegre
Que a tristeza não faz bem
Inda não vi a tristeza
Dar de comer a ninguém

*

Quem me dera estar agora
Lá no mato, no sertão
Onde está minha saudade
Onde está meu coração

*

Joguei meu chapéu pra cima
Para ver onde caía
Caiu no colo da velha
Cruz em credo, Ave Maria!

*

Alecrim da beira d’água
Não se corta de machado
Corta só de canivete
Cara de sapo rejado

*

Menina de olhos pretos
Que inda ontem eu reparei
Se há mais tempo eu reparasse
Eu não amava quem amei

*

Quando vim de minha terra
Muita gente lá chorou
Só uma velha muito velha
Muita praga me rogou

*

Quando vejo esta menina
Logo ao despontar da aurora
Comparando mal, parece
Que eu vejo Nossa Senhora

*

Mandei fazer um sobrado
De vinte e cinco janela
Pra botar uma menina
Que ando com o sentido nela

*

Todo o resto de seu corpo
Que beleza deve ter!
Eu, mais ou meno, adivinho
Porém não posso dizer

*

O colo desta menina
É branco como algodão
Tem a beleza das garças
Voando pelo sertão

*

O anel que tu me deste
Era de vidro e quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e já acabou

*

Lá vai a garça voando
Com as penas que Deus lhe deu
Contando pena, por pena
Mais pena padeço eu

*

Um coqueiro de tão alto
Que dá coco na raiz
Uma moça bonitinha
Com três palmos de nariz

*

Lá no céu tem três estrelas
Todas três encarrilhadas
Uma é minha, outra é sua
Outra de minha namorada

*

Limoeiro pequenino
Carregado de limão
Eu também sou pequenino
Carregado de inlusão

*

Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes

*

Você disse que bala mata
Bala não mata ninguém
A bala que mais me mata
São os olhos de meu bem

*

Esta noite à meia-noite
Me cantava um gavião
Parecia que falava
Maria, meu coração

*

Eu plantei e semeei
Carrapicho na “colonha”
A coisa que tenho raiva
É gente branca sem vergonha

*

Eu joguei meu limão verde
Numa moça na janela
O limão caiu no chão
E eu caí no colo dela

*

Em cima daquela serra
Corre água sem chover
Os mocinhos da cidade
Me namoram sem me ver

*

A laranja de madura
Caiu nágua foi ao fundo
Os peixinhos estão gritando
Viva dom Pedro Segundo

*

Cigarrinho de papel
Fumo verde não fumega
Eu vejo moça bonita
Meu coração não sossega

*

O padre quando namora
Passa a mão pela coroa
Namora, padre, namora
Namorar é coisa boa

*

Da folha da bananeira
Pingou três pingos de prata
Da família de meu bem
É só ele quem me mata

*

Em cima daquela serra
Tem dois pilãozinhos de ferro
Um bate, outro responde
Meu bem está no inferno

*

Menina toma esta uva
Da uva faça seu vinho
Seus braços serão gaiola
Eu serei seu passarinho

*

Toda vez que o galo canta
No retiro onde moro
Me lembro do meu benzinho
Saio do terreiro e choro

*

Anum é pássaro preto
Pássaro do bico rombudo
Foi praga que Deus deixou
Pra todo negro beiçudo

*

Em cima daquela serra
Passa boi, passa boiada
Também passa moreninha
De cabelo cacheada

*

Toda vez que considero
Que tenho de te deixar
Me foge o sangue na veia
E o coração do lugar

*

Atirei meu limão verde
Lá atrás da sacristia
Deu no ouro, deu na prata
Deu na moça que eu queria

*

Esta noite eu tive um sonho
Um sonho todo de louco
Abraçado com uma pedra
Dando bicota num toco

*

Em cima daquela serra
Tem um velho fogueteiro
Quando vê moça bonita
Fica todo regateiro

*

Eu pus minha mão na sua
Você a sua na minha
Ficou uma coisa justa
Como faca na bainha

*

Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de veludo
Vamos berganhar os olhos
Com sobrancelhas e tudo

*

Oh! linda Pirapora
Lugar de ganhar dinheiro
Vou ganhar mil e quinhentos
Na turma dos engenheiros

*

Sete cravos sete rosas
Na ponta de um alfinete
Meu benzinho está no meio
Servindo de ramalhete

*

Adeus plantas, adeus rios
Adeus gente do lugar
Vou partindo, vou chorando
Com vontade de voltar

*

O anel que tu me deste
Na procissão do Senhor
Era frouxo no meu dedo
Acochado no amor

*

Calango desceu pra baixo
Foi vender sua farinha
Lagartixa respondeu
Vende a sua e deixa a minha

*

Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Soletra quem sabe ler
A paixão de cada um

*

Você de lá e eu de cá
Ribeirão passa no meio
Você de lá dá um suspiro
Eu de cá, suspiro e meio

*

Menina não veste curto
Se tens a perna roliça
O padre da freguesia
Tudo que vê cobiça

*

Se eu soubesse da certeza
Que meu bem vinha cá hoje
Eu varria a casa cedo
Semeava pó de arroz

*

Em cima daquela serra
Tem um caldeirão de ferro
Quem falar de minha vida
Está na porta do inferno

*

Se eu soubesse quem tu eras
Quem tu havia de ser
Meu coração não te dava
Para agora eu padecer

*

Mandei fazer um sobrado
De vinte e cinco janelas
Pra prender moça bonita
Morena cor de canela

*

Você disse que vai embora
Eu também já quero ir
Você disse não vai mais
Eu também “arresorvi”

*

Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Ou de ouro ou de prata
Para meu bem passear

*

Os olhos desta menina
Às vezes gravo na areia:
Parece malacacheta
Em noite de lua cheia

*

Em cima daquela serra
Tem um pé de papaconha
Tira a folha e lava a cara
Descarado sem vergonha

*

Lá no céu tem nuvem
Mas não é para chover
Antes de chegar domingo
Meu benzinho vem cá me ver

*

Joguei o branco n’água
O moreno no jardim
Quem quiser o branco eu dou
O moreno é só para mim

*

A perdiz pia no campo
Comendo seu capinzinho
Quem tem amor anda magro
Quem não tem, anda gordinho

*

Comprei uma camisinha
Que custou mil e quinhento
Toda vez que visto ela
Acho muito casamento

*

A garça pôs o pé n'água
Pode estar quarenta dia...
Eu fora do meu bem
Nem uma hora, nem um dia

*

Eu não dou a mão rapaz
Nem que seja meu parente
Porque rapaz tem o defeito
De apertar a mão da gente

*

Os meus olhos mais os teus
Grande culpa eles tiveram
Os teus porque me agradaram
Os meus porque te quiseram

*

Eu tenho um vestidinho
Todo cheio de babado
Toda vez que visto ele
Quarenta e cinco namorado

*

Não me chame boiadeiro
Não sou boiadeiro não
Sou tocador de boiada
Boiadeiro é meu patrão

*

Você disse que sou bonita
Mais bonito é seu cabelo
Cada cacho vale um conto
Cada conto vale um selo

*

Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Eu tenho sete namorados
Mas eu gosto é só de um

*

Amanhã eu vou-me embora
Eu não vou-me embora não
Se eu tivesse de ir-me embora
Eu não estava aqui mais não

*

Quem inventou a partida
Não entendia de amor
Quem parte, parte chorando
Quem fica, morre de dor

*

Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Meu benzinho quando dorme
Põe a mão no coração

*

Meu amor é só meu
Não é de mais ninguém
Quem tiver inveja dele
É fazer assim também

*

Caititu do Mato-Grosso
Corre mais do que cotia
Quando vejo mulher velha
Dou bênção e chamo tia

*

Da Bahia me mandaram
Um presente num canudo
Tinha mais de conto de réis
Fora o dinheiro miúdo

*

Minha mãe me deu um pente
Todo crivado de ouro
Para fazer uma pastinha
Na janela do namoro

*

Duas correntes pesadas
Eu arrasto sem poder
Uma é do meu capricho
Outra é do meu dever

*

Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de retrós
Dá um pulo na cozinha
Vá coar café prá nós

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