Não tenho medo do homem
Nem do ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai se vê, não é ninguém
*
Lá no céu tem três estrelas
Vestidinhas de nobreza
Quem quiser casar comigo
Não repare minha pobreza
*
Trepei num morro de fogo
Com “precata” de algodão
Desci numa ponta de nuvem
Com mil coriscos na mão
*
Em cima daquela serra
Tem um ninho de carcará
Quando olho pra tua cara
Dou vontade de lançar
*
Cravo branco na janela
É sinal de casamento
Menina tira seu cravo
Inda não chegou seu tempo
*
Baixa baixa serraria
Que eu quero ver a cidade
Meu amor aqui tão perto
E eu morrendo de saudade
*
Amanhã eu vou-me embora
Pela semana que vem
Quem não me conhece chora
Que fará quem me quer bem
*
Marmelo é fruta gostosa
Onde dá na ponta da vara
Mulher que chora por homem
Não tem vergonha na cara
*
Camisinha de meu bem
Não se lava com sabão
Lava com raminho verde
Água no meu coração
*
Eu plantei um pé de rosa
Para te dar um botão
O pé de rosa morreu
Eu te dou meu coração
*
Mandei buscar na botica
Remédio para uma ausência
Me mandaram uma saudade
Coberta de paciência
*
Lá do céu caiu um cravo
De tão alto desfolhou
Quem quiser casar comigo
Vai pedir quem me criou
*
A folha da bananeira
De tão verde amarelou
O beijinho de meu bem
De tão doce açucarou
*
As moças daqui da terra
Passam fome porque quer
Tanto coco macaúba
Tanto buriti no pé
*
Anteontem à meia-noite
Saiu faca da bainha
Estão querendo me matar
Sabendo que a roxa é minha
*
Esta noite eu tive um sonho
Mas, ó que sonho atrevido
Sonhei que estava abraçado
Com a forma de seu vestido
*
Limoeiro pequenino
Carregado de fulô
Eu também sou pequenino
Carregado de amô
*
Essas meninas d'agora
Só sabem namorar
Botam a panela no fogo
E não sabem temperar
*
Meu benzinho não é este
Nem aquele que lá vem
Meu benzinho está de branco
Não mistura com ninguém
*
Em cima daquela serra
Tem um banco de areia
Onde assenta mulher velha
Pra falar da vida alheia
*
Bate bate coração
Arrebenta este peito
Como cabe tanta mágoa
Num espaço tão estreito?
*
Ninguém viu o que vi hoje
Um macaco fazer renda
E também vi um peru
Caxeirando numa venda
*
Amanhã eu vou-me embora
É mentira não vou não
Quem vai embora é meu corpo
Mas não vai meu coração
*
Lá no céu está trovejando
Mas não é para chover
Meu benzinho está doente
Mas não é para morrer
*
Sexta-feira faz um ano
Que meu coração fechou
Quem morava dentro dele
Tirou a chave e levou
*
Quem tiver o segredo
Não conte à mulher casada
A mulher conta ao marido
O marido à rapaziada
*
Um coqueiro de tão alto
Pôs a rama na Bahia
Onde tem moço solteiro
Casado não tem valia
*
Mamãe me chamou de feia
Ela só quer ser formosa
Ela vai ser roseira
Eu vou ser botão de rosa
*
Quero cantar ser alegre
Que a tristeza não faz bem
Inda não vi a tristeza
Dar de comer a ninguém
*
Quem me dera estar agora
Lá no mato, no sertão
Onde está minha saudade
Onde está meu coração
*
Joguei meu chapéu pra cima
Para ver onde caía
Caiu no colo da velha
Cruz em credo, Ave Maria!
*
Alecrim da beira d’água
Não se corta de machado
Corta só de canivete
Cara de sapo rejado
*
Menina de olhos pretos
Que inda ontem eu reparei
Se há mais tempo eu reparasse
Eu não amava quem amei
*
Quando vim de minha terra
Muita gente lá chorou
Só uma velha muito velha
Muita praga me rogou
*
Quando vejo esta menina
Logo ao despontar da aurora
Comparando mal, parece
Que eu vejo Nossa Senhora
*
Mandei fazer um sobrado
De vinte e cinco janela
Pra botar uma menina
Que ando com o sentido nela
*
Todo o resto de seu corpo
Que beleza deve ter!
Eu, mais ou meno, adivinho
Porém não posso dizer
*
O colo desta menina
É branco como algodão
Tem a beleza das garças
Voando pelo sertão
*
O anel que tu me deste
Era de vidro e quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e já acabou
*
Lá vai a garça voando
Com as penas que Deus lhe deu
Contando pena, por pena
Mais pena padeço eu
*
Um coqueiro de tão alto
Que dá coco na raiz
Uma moça bonitinha
Com três palmos de nariz
*
Lá no céu tem três estrelas
Todas três encarrilhadas
Uma é minha, outra é sua
Outra de minha namorada
*
Limoeiro pequenino
Carregado de limão
Eu também sou pequenino
Carregado de inlusão
*
Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes
*
Você disse que bala mata
Bala não mata ninguém
A bala que mais me mata
São os olhos de meu bem
*
Esta noite à meia-noite
Me cantava um gavião
Parecia que falava
Maria, meu coração
*
Eu plantei e semeei
Carrapicho na “colonha”
A coisa que tenho raiva
É gente branca sem vergonha
*
Eu joguei meu limão verde
Numa moça na janela
O limão caiu no chão
E eu caí no colo dela
*
Em cima daquela serra
Corre água sem chover
Os mocinhos da cidade
Me namoram sem me ver
*
A laranja de madura
Caiu nágua foi ao fundo
Os peixinhos estão gritando
Viva dom Pedro Segundo
*
Cigarrinho de papel
Fumo verde não fumega
Eu vejo moça bonita
Meu coração não sossega
*
O padre quando namora
Passa a mão pela coroa
Namora, padre, namora
Namorar é coisa boa
*
Da folha da bananeira
Pingou três pingos de prata
Da família de meu bem
É só ele quem me mata
*
Em cima daquela serra
Tem dois pilãozinhos de ferro
Um bate, outro responde
Meu bem está no inferno
*
Menina toma esta uva
Da uva faça seu vinho
Seus braços serão gaiola
Eu serei seu passarinho
*
Toda vez que o galo canta
No retiro onde moro
Me lembro do meu benzinho
Saio do terreiro e choro
*
Anum é pássaro preto
Pássaro do bico rombudo
Foi praga que Deus deixou
Pra todo negro beiçudo
*
Em cima daquela serra
Passa boi, passa boiada
Também passa moreninha
De cabelo cacheada
*
Toda vez que considero
Que tenho de te deixar
Me foge o sangue na veia
E o coração do lugar
*
Atirei meu limão verde
Lá atrás da sacristia
Deu no ouro, deu na prata
Deu na moça que eu queria
*
Esta noite eu tive um sonho
Um sonho todo de louco
Abraçado com uma pedra
Dando bicota num toco
*
Em cima daquela serra
Tem um velho fogueteiro
Quando vê moça bonita
Fica todo regateiro
*
Eu pus minha mão na sua
Você a sua na minha
Ficou uma coisa justa
Como faca na bainha
*
Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de veludo
Vamos berganhar os olhos
Com sobrancelhas e tudo
*
Oh! linda Pirapora
Lugar de ganhar dinheiro
Vou ganhar mil e quinhentos
Na turma dos engenheiros
*
Sete cravos sete rosas
Na ponta de um alfinete
Meu benzinho está no meio
Servindo de ramalhete
*
Adeus plantas, adeus rios
Adeus gente do lugar
Vou partindo, vou chorando
Com vontade de voltar
*
O anel que tu me deste
Na procissão do Senhor
Era frouxo no meu dedo
Acochado no amor
*
Calango desceu pra baixo
Foi vender sua farinha
Lagartixa respondeu
Vende a sua e deixa a minha
*
Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Soletra quem sabe ler
A paixão de cada um
*
Você de lá e eu de cá
Ribeirão passa no meio
Você de lá dá um suspiro
Eu de cá, suspiro e meio
*
Menina não veste curto
Se tens a perna roliça
O padre da freguesia
Tudo que vê cobiça
*
Se eu soubesse da certeza
Que meu bem vinha cá hoje
Eu varria a casa cedo
Semeava pó de arroz
*
Em cima daquela serra
Tem um caldeirão de ferro
Quem falar de minha vida
Está na porta do inferno
*
Se eu soubesse quem tu eras
Quem tu havia de ser
Meu coração não te dava
Para agora eu padecer
*
Mandei fazer um sobrado
De vinte e cinco janelas
Pra prender moça bonita
Morena cor de canela
*
Você disse que vai embora
Eu também já quero ir
Você disse não vai mais
Eu também “arresorvi”
*
Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Ou de ouro ou de prata
Para meu bem passear
*
Os olhos desta menina
Às vezes gravo na areia:
Parece malacacheta
Em noite de lua cheia
*
Em cima daquela serra
Tem um pé de papaconha
Tira a folha e lava a cara
Descarado sem vergonha
*
Lá no céu tem nuvem
Mas não é para chover
Antes de chegar domingo
Meu benzinho vem cá me ver
*
Joguei o branco n’água
O moreno no jardim
Quem quiser o branco eu dou
O moreno é só para mim
*
A perdiz pia no campo
Comendo seu capinzinho
Quem tem amor anda magro
Quem não tem, anda gordinho
*
Comprei uma camisinha
Que custou mil e quinhento
Toda vez que visto ela
Acho muito casamento
*
A garça pôs o pé n'água
Pode estar quarenta dia...
Eu fora do meu bem
Nem uma hora, nem um dia
*
Eu não dou a mão rapaz
Nem que seja meu parente
Porque rapaz tem o defeito
De apertar a mão da gente
*
Os meus olhos mais os teus
Grande culpa eles tiveram
Os teus porque me agradaram
Os meus porque te quiseram
*
Eu tenho um vestidinho
Todo cheio de babado
Toda vez que visto ele
Quarenta e cinco namorado
*
Não me chame boiadeiro
Não sou boiadeiro não
Sou tocador de boiada
Boiadeiro é meu patrão
*
Você disse que sou bonita
Mais bonito é seu cabelo
Cada cacho vale um conto
Cada conto vale um selo
*
Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Eu tenho sete namorados
Mas eu gosto é só de um
*
Amanhã eu vou-me embora
Eu não vou-me embora não
Se eu tivesse de ir-me embora
Eu não estava aqui mais não
*
Quem inventou a partida
Não entendia de amor
Quem parte, parte chorando
Quem fica, morre de dor
*
Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Meu benzinho quando dorme
Põe a mão no coração
*
Meu amor é só meu
Não é de mais ninguém
Quem tiver inveja dele
É fazer assim também
*
Caititu do Mato-Grosso
Corre mais do que cotia
Quando vejo mulher velha
Dou bênção e chamo tia
*
Da Bahia me mandaram
Um presente num canudo
Tinha mais de conto de réis
Fora o dinheiro miúdo
*
Minha mãe me deu um pente
Todo crivado de ouro
Para fazer uma pastinha
Na janela do namoro
*
Duas correntes pesadas
Eu arrasto sem poder
Uma é do meu capricho
Outra é do meu dever
*
Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de retrós
Dá um pulo na cozinha
Vá coar café prá nós