Edição 100 - Março 2007

 

O cinco

João Ribeiro

 

Continuando as reflexões anteriores, ainda são os números dígitos que nos fornecem o ensejo de interpretar algumas curiosidades do vocabulário.

O número cinco no léxico ariano difundiu variadas formas hoje esquecidas quanto ao sentido primitivo.

A quintessência, admitidos os quatro elementos (ar, terra, água, fogo) era o corpo livre de todas as impurezas elementares — o éter. Parece que não escapou aos antigos romanos essa concepção tanto quanto se pode deduzir da quinta pars de que fala Horácio (I, 13) na ode em que diz ter Vênus cedido a quinta parte do néctar divino; mas não era exatamente a quintessência de Pitágoras nem a dos alquimistas. Alguns intérpretes do poeta venusino (Joh. Bond, entre outros) descobrem naquela quinta parte um sentido torpe e obsceno, porque quinque sunt paertes amoris.

Outra derivação é a quinta, propriedade rural em que o rendeiro tinha a quinta parte dos frutos. Essa tributação dos quintos também foi aplicada à exploração dos metais preciosos.

A palavra quitanda de origens obscuras parece pertencer à família. Nas legiões romanas estavam os legumes e as munições de boca situados na via quintana do acampamento. Daí teria derivado a cantina italiana, cantine francesa e por fácil alteração a quitanda portuguesa. Contudo, não é líquida a etimologia da palavra que dizem ser proveniente da África.

O antigo quintal dos vinhateiros correspondia a cinco puçais ou vinte cinco almudes. O puçal foi uma medida do século XIII, hoje obsoleta.

Derivação mais curiosa do número cinco foi a palavra assaz conhecida, o — quinhão — que não argúi agora a ração da quinta parte que era a primitiva. Hoje o quinhão não mais depende do divisor cinco, e é um quociente qualquer.

Com igual indeterminação entendem-se — aquinhoar e quinhoeiro — nos proventos e benefícios.

De cinco e quinto há outras formas, como a grega pente (pentâmetro, pentateuco, cinco livros, pentecostes, qüinquagésimo), a sanscrítica panth (pantschatantra ou cinco livros) e o persa que deu ponche (punch), que significa cinco, quantos são os ingredientes dessa espécie de bebidas, tomada aos orientais.

Quinau parece equivalente a quinas em certo jogo de dados. Daí dar quinau ou fazê-lo. Os franceses têm quinaud com igual sentido, mas algum etimologistas duvidam da procedência e acusam de obscura semelhante origem.

Outros argutos pesquisadores referem quinau (quinaud) ao antigo francês quine, certo gesto em que se coloca o polegar sobre a bochecha e se agitam os demais dedos, em sinal de irrisão ou remoque. Neste caso, o quinau equivale à repreensão simbólica.

De um dialeto grego, o eólio, veio ponp (cinco) e deste número o nome de família Pompílio e Pompeu que querem dizer o quinto filho.

Ao quinto filho os romanos por vezes davam os nomes de Quinto ou Quinto e os oscos Pontius, Pôncio. Uns e outros figuram na onomástica portuguesa.

Houve em outro tempo quinterno uma coleção de cinco, como houve e há ainda quaderno, ou caderno, coleção de quatro (folhas de papel).

É conhecido o nome de um vento do deserto, o Khamsin, que significa literalmente cinqüenta porque sopra durante cinqüenta dias; khransin é um derivado de khrams, cinco, na íngua arábica.

Aqui, ficamos com as derivações do número cinco em latim e nas línguas que confluíram para o cabedal vernáculo.

É escusado dizer que julgamos inútil rememorar as derivações normais e as eruditas mais familiares: quinze (quindecim), quinhentos, quíntuplo, quinzena, quindênio, quincôncio etc.

Advertimos, entretanto, que cada povo tem as suas preferências verbais; para nós quinzena equivale a quinze dias, quando a intenção é declarar duas semanas, precisamente quatorze dias. Entre alemães e ingleses as publicações quinzenais são declaradamente de quatorze dias, e saem à luz nesse período, viershnte, respectivamente, fortnight.

Concluo essas reflexões com a frase brasileira que corre nas terras do sul: "ir para os quintos" que vale mandar para o inferno.

Explica-se pelo bárbaro costume de quintar os regimentos para sujeitar um soldado ao castigo, em caso de indisciplina coletiva.

Análogo método era o de dizimar ou fuzilar um de dez prisioneiros, em tempos mais grosseiros e incultos.

 

(Ribeiro, João. Curiosidades verbais; estudos aplicáveis à língua nacional. 2ª ed. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1963, p.161-164)
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