Edição 100 - Março 2007

 

Mais números

João Ribeiro

 

O número dez culmina com o sistema de contar pelos dedos que foi naturalmente o primeiro que ocorreu à inteligência do homem primitivo.

O sistema decimal é o das línguas, arianas, mas não foi o preferido pelos assírios, babilônios e semitas, em geral, que contavam por doze e a tradição que deles vem conserva esse número de extrema divisibilidade nas horas, nos minutos, no tempo e nas divisões do círculo e da esfera. Foram eles os primeiros astrólogos, astrônomos e magos da mais remota antiguidade.

Os arianos adotando o sistema na prática, não o introduziram na linguagem e doze foi sempre dois + dez ou duodecim (na língua latina).

Deixou, porém, outros vestígios de que falaremos depois.

Dez produziu derivados de fácil compreensão: dezembro, dezena, décima (imposto) e dízimo, década (a décima parte). Teve a princípio o nome de Décio o décimo filho. Dinheiro, denário, era dez vezes a unidade ínfima, o as. outro derivado é o deão ou decado, o mais velho num capítulo de dez frades e hoje apenas o mais velho em qualquer corpo civil ou religioso.

Ainda há que notar um derivado curioso e pouco conhecido: decumano. Os nossos clássicos, e entre eles Vieira, referiram-se à onda decumana, a décima onda, a mais terrível que podiam experimentar os navegantes e era quase sempre a causa de naufrágios. Não só havia a onda, mas também o ovo decumano, o décimo da postura e que gozava de estranho prestígio.

Dos múltiplos de dez, vinte deu lugar a conhecidas amplificações: vintém (vinte réis), vintaneiro, dar no vinte (no jogo da malha) e os hussardos, que querem dizer vinte na língua dos húngaros.

Os outros múltiplos não parecem oferecer particularidade notável, até chegarmos a cem.

Cem ou cento, no latim centum, no grego hecaton, tem variegada prole: o centão, que era uma antiga espécie poética em que se compunha à maneira de colcha de retalho ou mosaico, qualquer poesia aproveitando versos avulsos de autores célebres.

Um centão latino e brasileiro foi o que compôs Castro Lopes, numa descrição do trem de ferro, toda feita com versos de Virgílio.

De Sentafolho e Santafolho deu o povo o nome aos folículos do estômago dos ruminantes (de centifolium), por influxo da palavra santo.

Hecatombe, palavra grega, significa cem bois e a hecatombe era um sacrifício de cem animais imolados ao poder dos deuses. Dizem que Pitágoras, em ação de graças por haver resolvido o teorema que tem o seu nome, ordenou uma hecatombe.

De cem passamos a mil com seu séquito, milhar, milhão, bilhão, que todos promanam da mesma fonte.

O termo militar deriva do soldado latino miles, que seria talvez um membro dos mil combatentes.

Milhão é um aumentativo de criação moderna. Os portugueses preferiam outrora dizer um conto por um milhão. Ainda hoje o conto especializado para a moeda equivale a um milhão de réis. Em outro tempo, porém, até o século XVIII podia Manuel Bernardes escrever que a biblioteca de Alexandria continha mais de um conto de livros.

E havia na administração portuguesa a casa dos contos, que era o que é hoje o tesouro, mais ou menos.

Um bilhão está por bimilhão.

Os franceses, hoje em dia, dizem milliard por bilhão e se não dizemos milhar neste sentido, adotamos, entretanto, o adjetivo miliardário com muito mais freqüência que bilionário.

Essas cousas são sem conto e sem conta. Escurecem a vista. Tais números astronômicos, fora do uso e quantificação matemática, são inteiramente vagos e indeterminados: mil cousas, mil diabos, uma miríade (dez mil) são estimações arbitrárias.

O número redondo é uma convenção útil: a guerra dos cem anos durou mais de cem; vimos já que a famosa versão dos setenta incluía um número muito maior de exegetas e como dizia A. Karr, os sessenta professores da Ópera lírica francesa orçavam por uns quarenta a mais dar.

O mesmo deve suceder às centopéias ao milépedes de pés incontáveis.

Voltando, porém, aos sistemas de numeração, os lingüistas mais notáveis revelam que há no fundo das contagens arianas uma fórmula tetrádica inegável na composição dos números.

O número oito (eight, inglês; acht, alemão; octo, latino) é um nome primitivamente dual octons e como dual deve significar o plural de quatro. Esse étimo explica um certo número de fatos nas línguas modernas.

A preferência, por exemplo, de doze na unidade superior, que é a dúzia, expressão vulgar e generalizada, sem embargo da natureza decimal de doze. Recordemos os doze pares de Carlos Magno.

Essa idéia tetrádica encontramos mais modernamente em outras formações: a pataca = 16 vinténs, o cruzado = 20 vinténs, todos múltiplos de quatro, apesar de serem expressões de origens diversas.

Os alemães, como os ingleses, possuem o grande cento, que chamam de gross-hundert, o great hundred, que é igual a cento e vinte. Ainda hoje pescadores ingleses contam os arenques e outros peixes miúdos aos cento e vinte, o great hundred. Na Alemanha do Norte contam assim os peixes, nozes e ovos pelo grande cento. A antiga lei sálica registra a expressão tualepti, no sentido de dez dúzias ou cento e vinte.

Não temos o grande cento dos germanos, mas não é menos certo que não sabemos contar ovos e bolos (de castigo), senão por dúzias.

 

(Ribeiro, João. Curiosidades verbais; estudos aplicáveis à língua nacional. 2ª ed. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1963, p.168-171)
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