Edição 100 - Março 2007

 

Ainda os números

João Ribeiro

 

De cinco em diante, os números esmaecem e apagam-se perdidos entre as abstrações.

O povo primitivo dificilmente contaria além de cinco que representa a mão.

Daí a pequenina prole dos números a partir de seis, a não ser em formações eruditas e cultas, jurídicas e sociais em estádio da maior civilização.

Notemos, entretanto, que seis produziu a sesmaria que era a data de terras estéreis e maninhas (o sésimo, isto é, a sexta parte) mais tarde aplicada aos domínios coloniais incultos que convinha desbravar.

Derivação curiosa é a da sesta, dedicada ao sono e repouso do meio-dia. Realmente na computação antiga das horas, a começar do nascer do sol, a hora sexta era a do meio-dia ou as doze horas de hoje.

Da sexta parte do círculo sextante se serviram os atiradores da besta ou de arcabuz para regularizar a arma e o tiro; desse emprego resultou o verbo assestar, fazer pontaria ou colocar a arma em posição conveniente.

Há um derivado técnico do antigo calendário juliano, o bissexto, dia que se intercalava a 25 de fevereiro como segundo sexto dia antes das calendas de março (ante diem bis sextum Cal. Mart.)

O número sete é igualmente infecundo na língua popular.

Notemos, todavia, a palavra semana do septem mane, sete manhãs ou sete dias e a forma do português antigo, doma e domãa tomada ao grego hebdomas, o sétimo, ainda hoje temos derivado hebdomadário de uso na literatura ou na ciência.

Ainda a sete podemos referir o setestrelo, nome popular da plêiade, grupo de constelação do Touro e nele contavam os antigos sete estrelas, não parecendo, entretanto, que existam mais que seis.

Não é muito razoável supor que a vista na gente moderna tenha diminuído.

Por metáfora, chamou-se plêiade um grupo de poetas líricos de Alexandria em que era Licofron o mais notável.

Também na França houve uma plêiade de poetas, entre os quais fulgura em primeira grandeza o velho Ronsard.

Os povos semíticos, caldeus, judeus e árabes sempre tiveram grande consideração pelo número sete, e, com ela, vieram os sete dias da criação, as sete pragas do Egito, os sete pecados mortais, e a versão dos setenta hebreus de Alexandria que fizeram a primeira tradução da Bíblia dois séculos antes de Cristo.

Os hebreus falavam em sete setenta e setenta vezes sete como números simbólicos. Os setenta hebreus tradutores eram cerca de cem.

Lembremos ainda, segundo a tradição judaica, o formoso soneto de Camões:

"Sete anos de pastor Jacó servia..."

e a espera de Noé duas vezes sete-dias, na arca que flutuara sete meses sobre o dilúvio. (Expetavitque nihilominus alios septem dies).

De caminho parece-nos digno de nota, Setentrião, um dos nomes do norte, tomado aos Septem triones, isto é, os sete bois, nomes dados pelos antigos lavradores às sete estrelas da constelação da Pequena Ursa.

O número oito, como os antecedentes, carece de derivações populares. Não merecem notícias de interesse as derivações semicultas: oitante, oitava, outubro, oitenta etc.

Nove ficou igualmente sem prole vulgar. Em fase remotíssima da língua ariana verifica-se a afinidade da estirpe entre nove e novo, pois que nove marca o começo de uma numeração tetrádica, de quatro a quatro. Esse tema excede o âmbito das nossas reflexões limitadas naturalmente a campo mais restrito e compreensível. Deixá-la-emos para as anotações finais no capítulo seguinte destinado ao número dez e seus grandes múltiplos nas línguas arianas, sem abuso de transcedências inadequadas aos nossos modestos propósitos de vulgarização.

 

(Ribeiro, João. Curiosidades verbais; estudos aplicáveis à língua nacional. 2ª ed. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1963, p.165-167)
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