Edição 100 - Março 2007

 

Os números

João Ribeiro

 

Os números ofereceram-nos já anteriormente algumas reflexões aproveitáveis.

Entretanto, a matéria é de si mesma fecunda e inesgotável.

Os romanos nos seus algarismos adotaram certo hieróglifo rudimentar representando cada unidade por um traço, de um a quatro; cinco — V — é a grosseira imagem da mão e daí por diante recomeçavam VI, VII, até dez, que são dois — V — superpostos pelo vértice — X.

Poder-se-ia concluir desses símbolos que o seu sistema era qüinqüenal, mas a linguagem latina acusa a numeração decimal, pois que só depois de dez recomeçam a contar os números (undécimo, duodécimo, onze, doze).

O número — um — deu extraordinária quantidade de derivações; uno, unidade, único, união, unir, reunir, alg-um, nen-um, cada um etc. Parece esforço inútil dar a explicação dessas formas tanto são elas triviais, fáceis e conhecidas.

Contudo, a semântica em nossa língua acusa uma curiosidade na evolução de sentido de União.

No antigo português união, onion, era o mesmo que rebeldia, ajuntamento sedicioso e as leis proibiam as oniões de vassalos.

O absolutismo não simpatizava com as uniões dos súditos tanto mais fiéis quanto metidos consigo e separados.

O número — dois duo — de que há derivações numerosas, oferece um ou outro caso digno de nota; a dúvida que está entre dois estados de alma e isso acontecia ao homem dubius.

A guerra entre os romanos também deriva de duo; realmente, bellum é uma forma nova e posterior de duellum, a luta entre dois. Nos antigos combates o duelo era o meio habitual de decisão.

Assim é na Ilíada e na lenda dos Horácios e Curiácios.

O número três originou a tribo, uma das três estirpes, em que se dividia a sociedade — romanos, lucere e sabinos, segundo a tradição.

E daí veio o tributo; o comício de tribo, a tribuna, tribunal. E com o tributo veio também atribuir, que era dar o no que parecia justo.

Pela forma grega as sacerdotisas profetizavam sobre a tripode (três pés) e como auguravam males futuros disseram depois que tripudiavam sobre as desgraças humanas.

O triambos, o triunfo, era também um grito e aclamação tríplice a Dioniso.

Enfim, não esqueçamos o trevo, que também vem das suas três folhas (trifolium).

O vernáculo achou que três não era digno de estima e menos digno que a repetição; reler é aceitável, mas tresler é não perceber o que se lê. O sentido depreciativo de três observa-se em tresandar, tresler, tresvariar, tresnoitar.

Explica-se essa tendência pela confusão de três (número) com tras de trans; trespassar e traspassar.

Três conseguintemente em casos tais expressa o excesso, o exagero, além da medida.

O número quatro é estéril quanto ao pitoresco das suas derivações, todas ao primeiro aspecto, compreensíveis: quaresma (quadrigésima), quadro e quadra, quarto, quartejado, quadrícula e provavelmente cadeira (cátedra, em origens mais remotas, inacessíveis ao nosso estudo).

 

(Ribeiro, João. Curiosidades verbais; estudos aplicáveis à língua nacional. 2ª ed. Rio de Janeiro, Livraria São José, 1963, p.158-161)
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