Luta contra as crendices — Opinião da educadora sanitária Sônia Matos Diogo
Em palestra com Sônia Matos Diogo, educadora sanitária que auxilia o senhor Rossini, do Pronto Socorro Ipiranga, no seu combate à desidratação, soubemos de coisas aparentemente insignificantes, mas que constituem verdadeiro perigo para a saúde da criança. E entre elas, as...
Crendices
Nos dias de hoje, explica Sônia Matos Diogo, morre grande número de crianças como conseqüência da prática de crendices. Apesar do trabalho, sempre crescente de esclarecimentos, feitos pelos mais diferentes meios de divulgação e nos diversos serviços que cuidam das crianças, ainda há mães que se ressentem dessa orientação. Muitas pensam estar agindo da melhor maneira possível, acreditando em certas "superstições" que muitas vezes causam um atraso no bom desenvolvimento das crianças, chegando mesmo a levá-las à morte. Os familiares "entendidos", as "comadres" e as "benzedeiras", fazem parte de um grupo que desvia as mães do caminho certo que é o seguimento da orientação médica.
Mistura de comadres
Diante do nosso espanto por saber da existência de mães que assim procedem, a educadora sanitária conta um caso verídico, acontecido no Pronto Socorro do Ipiranga:
"Chega aqui em nosso serviço uma criança fraca, mal alimentada, com deficiência orgânica geral e é levada ao pediatra para consulta. Este após examiná-la e pesá-la, explica a família a razão do péssimo estado geral da criança, dizendo que ela está com fome e com falta de cuidados médicos e higiênicos. Cuidados esses que podem ser adquiridos numa das várias clínica de criança, tais como Centro de Saúde, Postos de Puericultura etc. Receita, então, o necessário, inclusive alimentação adequada. A mãe recebe orientação quanto ao preparo do alimento, e é esclarecida sobre os benefícios e vantagens de levar com freqüência seu filho a uma das clínicas de crianças. Acontece que, às vezes, a criança estranha a alimentação que foi recomendada pelo médico, não a aceita. A mãe ao invés de recorrer ao médico novamente, passa a experimentar as misturas mais absurdas receitada pelas "comadres", prejudicando assim a criança.
Às vezes a criança tolera qualquer coisa, então os mingaus receitados pelas "entendidas" surtem efeitos surpreendentes, a criança engorda progride mas isso acontece muito raramente. Com isso a "comadre" sente-se uma "doutora" uma entendida. Aí reside todo o perigo, pois ela inicia a "orientação" de um número enorme de mães incautas. Na maioria das vezes a criança não aceita nenhuma das receitas dadas pelas "comadres" especialistas, começa a vomitar e ter diarréia abundante febre — este é o início da desidratação, perda de água".
Atitude correta: levar a criança ao médico
"A criança cai em plena intoxicação alimentar — prosseguiu Sonia Matos Diogo — progredindo para estados mais graves. Entram de novo em ação as "comadres", dizendo que a criança está com "doença de macaco", "bucho virado" e põe em prática um grande número de "remédios", compressas as mais diferentes, possíveis, os purgantes tão prejudiciais em certos casos, chás de ervas variadas etc. E o tempo vai passando...
Para vômitos, falam em espinhela caída, lombrigas assustadas, aguadas, desconfiadas, alvoroçadas etc.
Para acabar com as lombrigas, há uma série de práticas usadas. Dentre elas, a seguinte: toma-se um fio de palha, corta-se em sete partes, dizendo a palavra "bicha" em cada corte feito e lançado ao fogo. Sendo assim, queima todas as bichas.
Entretanto a única coisa correta que devia ser feita — levar a criança ao médico — só o é em caso extremo, quando as "comadres" já não podem mais "curar", aí então o médico é "obrigado" a salvar a criança que no dizer da maioria das mães está "só há dois dias caidinha", o que não é verdade pois nota-se pelo estado geral, da criança que o início da doença data de muito tempo".
Vinagre, azeite e querosene
E após mostrar como o médico é "usado" só quando a curandeira "não dá mais conta" em grande número dos casos, a educadora insistiu no problema: "As convulsões são geralmente atribuídas a "ataques de bichas", aí entram em ação o vinagre, azeite e querosene, chegando mesmo a criança a ter que engolir colheres de sopa desses líquidos, sendo que o querosene é venenoso. Muito comum também é ouvir-se falar em "diarréia de dentes", provocada quando os dentes nascem. Sabe-se perfeitamente que isso é um grande erro, pois uma criança sadia nada sofre com o aparecimento dos dentes. Para os diversos males que podem atacar as crianças há uma série enorme de crendices, amuletos protetores, benzimentos etc...
Com isso, o mal vai se agravando e quando os pais vêem que já não é mais possível as "comadres" e "benzedeiras" "curarem" seus filhos, recorrem aos médicos para que estes façam o impossível, na maioria das vezes para poder afastar todos os malefícios causados pelos remédios usados."
Conselho às mães
Sônia Matos Diogo encerrou o seu relato sobre "crendices", com um conselho às mães: "Dentro do problema da desidratação — afirmou — a influência das crendices assume um papel de grande importância, pois para vômitos, diarréia, febre etc., não há "comadre" ou "benzedeira" que não conheça um "remedinho que seja tiro e queda". Bem mais fácil e muito mais proveitoso para a saúde das crianças seria se as mães logo procurassem um médico de crianças, aos primeiros sinais de desidratação, para que ele no início da doença as orientasse e em curto espaço de tempo os seus filhos estariam sãos.
Melhor será deixar de lado as crendices e sempre recorrer ao médico logo ao primeiro sinal da alteração da saúde das crianças".