A intimidade com os astros é coisa que logo chama a atenção entre os moradores de engenho. Mas é uma intimidade diferente do homem da praia. Nada resulta de prático senão para guiar aqueles que trabalham à noite ou que saem pela madrugada. Uma coisa, porém, chama a atenção: é que as estrelas têm nomes de mulher. São designadas como se fossem velhas conhecidas de muito tempo. Rufina é uma delas, outra é Teresa. Nesse caminho todas trazem um batismo de nomes populares: Joaninha, Maria do Egito e Cipriana, Zefinha-mofina ou então: viúva, enxerida, cansada e milagrosa. Há estrelas que não contam a menor simpatia, tal como se não existissem.
Também não se faz a menor distinção entre os planetas e as estrelas, tudo se apresenta por igual, sendo que umas andam mais depressa e outros custam a sair do lugar, de modo que seus passos no firmamento são por demais familiares. O sol e a lua ninguém a eles se refere com freqüência tamanha como acontece com as estrelas. Estas são mesmo essencialmente populares e amigas do trabalhador rural. O carrego de San Tiago se apresenta como um viveiro de peixes luminosos. Quando ele se mostra muito claro no fundo do céu, então começam as cogitações em torno daquela presença feliz: se o rio descer, vai haver peixe como nunca, ou senão: "o algodão este ano presta", "a cana vai acamar" e o "gado tremerá de gordo". Porém tudo pode falhar. E por que? A razão está numa particularidade bem sensível. Nem todos os olhos vêm umas faíscas correndo acima e abaixo do carrego ou Via Láctea. Aí é que está o buzilis.
Faísca significa ano ruim, ano seco, lavoura cheia de bichos, criação magra e não se vendo aqueles "traços de fogo do ar" se pode dizer, batendo nos peitos: "ano amigo da gente vai ser este".
A mais querida das estrelas é Vênus ou Rufina, certamente por ser bonita na luminosidade e no tamanho. Orienta os viajantes ou os que estão fazendo algum serviço noturno. Ela dá horas como o sol no céu baixo em que basta o camponês espiar a sua posição para dizer seguro qual o "rumo do dia". Teresa é Netuno: luz firme, mulher séria e em quem se pode confiar nas ausências. Joaninha é uma das Ursas, destacando-se entre as outras por causa da vivacidade — "boazinha e divertida". Maria do Egito fica ao sul, isolada e pequenina, tida como "filha de Nossa Senhora". Cipriana ostenta-se bem no canto claro, junto do setestrelo, amada por todos porque é "animada, não esmorece e fura tudo quanto é de nuvem". Zefinha-mofina, o nome está dizendo quem é, indecisa, apaga-se muito. Por "viúva" se denomina uma estrela solitária que se fixa no poente; "enxerida", outra pequenininha que está junto de Vênus; "cansada" é aquela mais escura do Cruzeiro do Sul; e "milagrosa" é chamada a que se acha do lado da lua. Ninguém explica bem o motivo desta última designação. Muito populares, as Três Marias, queridas mesmo.
As estrelas — não são todas — vivem e morrem também. Lá certa vez deixam de existir como a gente. Aqueles pontos luminosos cortando o espaço não se apresentam como outra coisa: foi estrela que morreu. Quando o povo vê uma assim, quase caindo e deixando rastro de luz verde, põe a mão na boca, enquanto diz: "Deus te salve". Há mesmo como coisa generalizada designar-se o fenômeno atmosférico como "zelação". Mas zelação ainda se emprega com outro sentido mais lógico e, talvez, mais comum; emprega-se como significando a fuga de lugar para outro, mudança de posição ou, no dizer popular, "saiu de casa". Estava já cansada de habitar o mesmo canto, ver a mesma paisagem, lidar com as mesmas caras — e, não suportando tanta monotonia, deu-lhe na telha passear e ir conhecer melhor o mundo. Talvez, por causa da vagabundagem, deram a designação referida a essas mudanças, que nas noites negras e sem nuvens tomam uns relevos admiráveis, muito impressionando o homem do campo.
"Zelação" é excesso de zelo de parte das estrelas mais requintadas e mais viajadas, daquelas que gostam de sair, andando nas ruas do vasto latifúndio celestial e, portanto, senhoras de espírito culto, gostando do imprevisto e de amar também. Porém nessas viagens perigosas pode acontecer que se percam no infinito ou caiam no fundo da terra.
E ninguém deixa de dizer: "Deus te salve".