1904
Há nas Travessuras de Juca e Chico, livro de histórias infantis, uma que começa: "Meninos, quem tem um tio deve trazê-lo mimado..."
Acontece que os endiabrados Juca e Chico têm um tio, e não o trazem mimado. Numa noite quente apanham besouros e os colocam sob a coberta da cama do tio, momentos antes que ele se vá deitar. O tio deita-se, os besouros que estão do lado dos pés vêm caminhando, o tio se assusta, acende a vela e põe-se a matá-los.
Mas o tio está de camisola!
Não sei quando tinha nascido a camisola. Mas sei que teve a sua sentença de morte em 1904, com a guerra russo-japonesa.
Vencedores os japoneses, vieram os quimonos e pijamas.
Creio que toda gente saiba o que é quimono. Para os que não sabem, fica dito que é um roupão ou robe de chambre, para uso feminino, tendo bordados o vulcão Fujiyama, uma cerejeira ou uma gueixa. Quase todas as mulheres substituíram os robes de chambre pelos quimonos.
E penso que não é preciso explicar o que seja um pijama.
Até 1904, todos os homens vestiam camisola para dormir.
A diferença entre a camisola masculina e a feminina estava em que a feminina era como uma batina, de seda, de baptiste, de linho ou de algodão, conforme as posses, e a masculina era como uma atual camisa de homem muito comprida, de lã, de linho ou de algodão, com dois cortes laterais; pela parte da frente dava pelos joelhos, e por trás dava pelo meio da canela.
Outra diferença era que a camisola feminina tinha rendas valencianas, e a masculina tinha ponto russo (um cadarço bordado à moda egípcia).
Com a vitória dos japoneses em Porto Arthur, apareceu o pijama. Era isso que é hoje. Uma calça e um casaco.
Mas o casaco tinha alamares nos botões.
Quem quiser saber o que é alamar procure o Dicionário da língua portuguesa, de Morais e Silva. "S.M. (do Hebr. alam, trançado ou colchete). Obra de lã, seda ou fio metálico trançado ou torcido, espécie de firmal, com que se apertam, adornam vestido."
Não está claro? Vamos ver o Dicionário da língua portuguesa, de Cândido de Figueiredo: "Alamar, m. cordão de requife ou de metal que guarnece e abotoa a frente de um vestuário (Do ár. al + amara)".
Enfim, é um bordado em cadarço que vai, horizontal e simetricamente, dos dois lados de cada botão de pijama e faz em cada extremo um trevo. Visto à distância, figura as costelas.
Quem queira referir um homem espesso ao progresso e ao desenvolvimento moral, diga dele, que ainda usa camisola.
Pode-se fotografar, de pijama, o herói que, com risco da própria vida, salvou do incêndio a moça do quinto andar. Mas não é possível fotografá-lo de camisola.
Além disso, jamais foi possível conceber, na história da humanidade, um homem de camisola dirigindo automóvel.