Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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O mar e os marinheiros

Aluísio de Almeida

Você diz que sabe muito
Há de me contar
Quero que me diga
Quantos peixes tem no mar.
Cercai o mar em roda,
Sem deixar uma só ponta
Pega todos os peixes
E eu vos somarei a conta

Estas quadrinhas talvez não foram compostas mas foram recitadas por um cantador de fama, o Abrãozinho Folião, Abrão Bispo Doutor da Igreja (sic), que freqüentava com folia do Divino as nossas praias do sul e as do Paraná.

Os caiçaras de Cananéia e Iguape ainda usam as suas toscas rabecas por eles mesmos fabricadas.

São poetas, diante do oceano. Aliás, participam da facilidade dos caipiras para se exprimirem em septissílabos, mesmo que não haja poesia.

Eis uma quadrinha conhecida já mais de cem anos em Itanhaém:

A desgraça quando vem
Não escolhe qualidade,
Dá no rico, dá no pobre,
Te na régia majestade.

A grande maioria dos caipiras do planalto morreu sem ver o mar. Entretanto, basta o ribeirão encher e já o comparam com o mar.

Um mar é uma imensidão de qualquer coisa.

Mar de rosas, mar de prazeres, mar de dores.

A língua conservou as lembranças inconscientes do mar e da marinhagem.

Por esses cafundós de campo quase ninguém navega, diz o Jeca.

Nos primeiros tempos do trem de ferro: Fulano vai embarcar hoje para São Paulo (tomar o trem).

Já viajou embarcado? (de trem).

Dizemos: remar contra a maré, ir de vento em popa (tudo bem), deitar âncora (fixar-se), fazer marcha a ré, cargas ao mar (vomitar), ir a reboque.

À toa, como se sabe, vem da linguagem náutica. Toa é a linha ou corda que prende o reboque.

Este não tem vontade própria. Vai à toa. Daí as variações semânticas por extensão. Mulher à toa é meretriz. Laranja à toa, não é cultivada com esmero, é a laranja da china, as laranjas de porco, que cresce pela semente ao Deus dará.

— Porque não faz isto?

— À toa.

Isto é, sem razão aparente.

Quando se encontra no arroz um grão com casca, é um "marinheiro ou um capitão"

Provérbios e frases

Barco parado não ganha soldo.

Marinheiro de primeira viagem.

 

(Almeida, Aluísio de. "O mar e os marinheiros" [Não foi possível identificar a fonte original de publicação deste artigo])
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