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Tradicionalismo, nutrição e catadores

Talvez ninguém entenda tanto o sentimentalismo e amor do gaúcho pelo cavalo quanto um folclorista, e talvez não haja um folclorista mais por dentro do folclore do Rio Grande do Sul, como João Carlos Paixão Cortes. Acho a industrialização da carne de cavalo não apenas certa, mas também recomendável. As estâncias de hoje já estão muito industrializadas, e não possuem mais aquele mundo de campo, como antigamente. E depois, além do campo ser menor, o cavalo come muito pasto. Come mais que o bovino e que o ovino. O animal que nâo tem mais função, mais serventia, tem que ser substituído por outro, e ser canalizado para um outro setor. Não se pode mais invernar manadas de cavalos sem serventia como em outros tempos. Assim, com a industrialização da carne de cavalo, o cavalo ao ser substituído, torna-se uma outra fonte de renda através de seu aproveitamento nos frigoríficos. Vai servir de alimento, trazer divisas para o Brasil. Criar novas indústrias, novos empregos. Ajudar a matar a fome do mundo.

E parece que este amor do gaúcho pelo cavalo não é assim tão grande como muitos dizem, ou pelo menos como alguns historiadores-viajantes da antiga província de São Pedro, e o próprio Paixão:

— O aspecto sentimental do gaúcho pelo cavalo não é assim essas coisas que dizem por aí. Antigamente haviam as potreadas, quando se matavam os animais para fazer botas. Eram as famosas botas de garrão de potro. Matavam-se dezenas de animais para a fabricação das botas de garrão de potro. Até éguas se matavam, era o "correr égua". Faziam-se sebo e vela da gordura dos cavalos.

Mas enquanto Paixão vai falando, seu companheiro de folclore, Carlos Castilhos, vai cantarolando: "como pretendem que yo/ que lo crié de potrillo / clave en su pecho un cuchillo / por que el patrón lo ordenó dejenlo no mas pastar / no rechase mi consejo / que yo lo voy a enterrar / cuando se meura de viejo". Castilhos é contra a matança de cavalos para a industrialização. Argumenta que o boi, a ovelha e o cavalo, não comem o mesmo pasto. Um come o maior, outro o médio, e o cavalo, com os dentes, o pasto mais rasteiro. Mas é um protesto tranqüilo de Castilhos, diferente de Kleber Mércio, que num Congresso Tradicionalista, apaixonadamente bradou contra o crime de se matar cavalos, o "irmão do gaúcho".

Nutrição

Quanto às qualidades da carne eqüina, não há restrições. Segundo Alceu de Castro Romeu, médico nutrólogo, a carne de cavalo possui, em princípio todas as qualidades das outras carnes comestíveis, como a de boi, peixe, baleia e de caça. É rica em proteínas de primeira qualidade e vitaminas do complexo "B". Não há diferença fundamentais, e nutricionalmente, todas as carnes comestíveis são semelhantes: ricas em proteínas e de fácil digestão.

Catadores

É, mas parece que mesmo com ótimas qualidade e com toda a explicação de Paixão Cortes, muita gente ainda é contra a matança de cavalos. Assim, com os frigoríficos-abatedouros de eqüinos ocorre o inverso dos de bovinos. Neste último, o criador procura o estabelecimento para vender seu produto. No primeiro, é o estabelecimento que procura o produto. Por isso existem os catadores, que vão de estância em estância, comprando animais para o aparte. A Sonya tem 120 catadores trabalhando para ela. A maioria não é proprietária, mas comerciante, intermediário no negócio. Compra por cabeça nas estâncias e revende por quilo ao frigorífico. E catador é o termo exato, pois conseguem no máximo umas cincos cabeças por estância, e olhe lá. Ninguém gosta de vender seu "pingo" para matadouro. Uns chegam a pedir recibo passado, dizendo que o animal não vai ser morto em frigorífico, virar carne de exportação.

E ainda há outro problema. A compra é sempre feita à vista e no ato. Isso obriga o frigorífico a gastar dinheiro sem ter o cavalo, pois os catadores recebem a verba adiantada para suas compras. Quando voltam com os cavalos, fazem as contas com o frigorífico, que já lhes dá outra importância, para novas aquisições. Assim, está sempre com dinheiro na rua, adiantado, pagando por algo que ainda não recebeu.

 

("Tradicionalismo, nutrição e catadores". Folha de Tarde. Porto Alegre, 08 de agosto de 1970)
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