Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Feira popular em Belém: Ver-o-Peso

As feiras no Nordeste e Norte do Brasil constituem um conjunto de rica vivência popular. A exuberância do folclore dessa região fez uma literatura e uma arte específicas no panorama cultural do país. As feiras populares são justamente o palco das várias gerações que fizeram essa arte — humana e individual — sem escolas, inspiradas apenas no lado emotivo que fixa coisas e aspectos do meio ambiente.

A feira de Santana, na Bahia, é uma das mais famosas do país. A da cidade de Caruaru, em Pernambuco, conhecida em todo mundo através dos "bonecos" do mestre Vitalino, grande ceramista popular que fundou, em sua terra natal, com seus conterrâneos, os célebres irmãos Condé, o Museu do Folclore. Outro centro de difusão da arte popular é Limoeiro, também em Pernambuco. Aliás, o Nordeste é fonte conhecida de valores artísticos, através suas feiras.

Domingo, é o dia de gala, em Ver-o-Peso, mas a movimentação começa no sábado com a chegada de centenas de barcos veleiros, vindos da ilha de Marajó. E vão atracando ao longo do cais e descarregando desde a cerâmica até as frutas regionais. O Guamá e o Guajará que banham a cidade de Belém recebem veleiros vindos das cidades ribeirinhas.

Pela madrugada, as primeiras barracas começam a ser armadas. O movimento se intensifica quando as donas de casa começam a chegar na manhã de domingo, bem cedo, antes da missa. A feira, então, ganha corpo e alma. Os pregões ecoam no ar. O visitante que não está preparado se deixa envolver pela algaravia de sons soltos no espaço. O paraense não. Distingue um por um e vai na barraca certa comprar o que quer. O visitante, coitado, debaixo de um sol tropical, impiedoso, percorre a feira de ponta a ponta. Olha uma tenda, outra, sem saber o que quer. A curiosidade aqui ou ali, torna-o indeciso. Caminha, pára para admirar uma "coisa" ou um "tipo" característico da região. Leva a mão ao bolso, puxa o lenço e passa no rosto. E no ar continua aquele tumulto de vozes soltas a invadir-lhe os ouvidos. Mais uma vez tira o lenço do bolso e o usa em volta do pescoço sob o colarinho da camisa.

Os vendedores-ambulantes de refrescos são ensurdecedores. Anunciam os mais variados, feitos com frutas regionais para todos os paladares. O visitante olha aquelas mesinhas de pinho, cheias de vidros de boca larga, suarentos por fora, mas gelados... "Graças a Deus! A garapa de maracujá! O ananás de Marajó, doce como moça casadoira! Jenipapo geladinho, alivia vosmecê!

Começa a indecisão para o suarento visitante. Qual deverá ser tomado primeiro? E a sede o põe nervoso. Zanga-se consigo mesmo.

Os pregões continuam alvoroçando-o.

— Cupuaçu! Bacuri e açaí! Perpunhha, inajá, beribá e ingá. Escolha que o calô tá apertando...

O visitante se decide. O melhor é consultar o vendedor de refresco. Ele é autoridade no assunto.

Nas barracas de frutas e guloseimas especialidade da região, é a mesma coisa. O pregoeiro ou pregoeira fica na frente da tenda e anuncia os produtos. São muitas as barracas que vendem as mesmas mercadorias. E a concorrência é feita a base do "desafio" de rimas jocosas inspirada na rivalidade do produto. A feira nortista ou nordestina é também diversão para o comprador. Há muita coisa humana nesse comércio-ambulante que pousa uma vez por semana em lugares pré-determinados pelas autoridades locais. E depois tornam-se históricas e estóricas no tempo e na vida dessa população, profundamente nativa em seus costumes.

A crendice popular também tem mercado. Os pregões se sucedem convidativos à compra. Atuam mesmo sobre aqueles que não acreditam em "curas". "Couro de macaco, pra quem sofre de insônia! Couro de jacaré, cabeça de paca, pé de veado, dá sorte! Couro de tamanduá, couro de peixe boi, faz milagres!" E o caboclo do Norte vai nessas barracas comprar "remédios" para sua crendice. Outras tendas vendem ervas ou raízes que curam doenças. O vendedor receita chás para diversas doenças. Concorre com o médico que ainda apavora muito "cabra" valente.

"Canela macho. Pataquera. Chamá, Chega-te a mim". Grita o pregoeiro especificando seu valor curativo.

Outras barracas vendem penas de aves que são receitadas para muitos males, principalmente os do coração...

Os frutos regionais são o grande motivo comercial da feira. Com justa razão, pois o visitante não resiste à tentação de prová-los. São os mais saborosos do país. Trazendo em seu paladar toda a pujança da terra quente e gostosa do nativismo regional.

No fim da visita, depois de receber a mais completa aula de folclore, o visitante deixa a feira satisfeito e feliz. Os quatrocentos anos de brasilidade deram muita coisa boa: literatura, arte, superstições e culinária tipicamente nacionais, que não passaram pelas alfândegas nem sofreram deturpações acadêmicas ou "bossa nova" de elemento alienígenas.

Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005