Os tropeiros são comumente "tapejaras". O tapejara é o cicerone do sertão. Ninguém como ele conhece os segredos dos caminhos ínvios das picadas escondidas e dos atalhos quase desconhecidos. Possui o faro das distâncias. Sabe nortear-se no pélago dos matos cerrados, que vicejam nas proximidades das vertentes, na ondulação do "mar de areias" dos tabuleiros e dos chapadões do nosso interior. Aí, ele é o piloto das grandes caminhadas, ora a pé, ora montado nos burros da tropa.
No sertão, a existência de tapejaras é um imperativo ecológico. A paisagem sertaneja tem as suas traições imprevistas. Ora a terra argilosa e seca metamorfoseia-se em minhocal lodoso. Ora a planície serena inunda-se em lago ou alaga-se em ipueira lutulenta. O clima oferece surpresas e sabe o tapejara delas se livrar. Conhece todos os pousos e malhadas, e desfruta ainda do dom de encurtar distâncias. A prática dos atalhos é a sua bota de sete léguas. O guia torna-se indispensável no alto sertão. O tapejara vive desse curioso ofício. É o faroleiro do planalto. Ou antes, como já disse, o piloto rural. Orienta-se pelos picos das serras, pelas depressões dos vales e pelos coleios dos rios. Os hábitos dos animais monteses, os atoleiros, as regiões áridas, tudo ele conhece.
Quem toma um tapejara para uma travessia, não tem perigo de se perder no sertão bruto. Em quase todas as fazendas sertanejas existem tapejaras de boa fama. É um tipo que vem dos mais antigos tempos do povoamento e tem mesmo o seu símbolo histórico e heróico, o guia Lopes que por sua perícia, nos pantanais mato-grossenses, livrou o exército brasileiro na trágica retirada da Laguna de uma derrocada catastrófica.
É curioso observar a linguagem pitoresca de um tapejara indicando o itinerário de Cochó do Pega para Fundão (município de Brotas, Bahia):
"Mecê está vendo aquele serrote? Vá levando ele na lua da sela. Adiantes, não se incomode não, jogue ele na garupa. Adiante, mecê vê a estrada se acabar e esbarrá bem em riba de um lageiro: rache ele no meio. Adiante, mecê topa com uma panela de lambedor; não se importe não, travessa ela! Adiante, uma coisinha, mecê dá com os óio no pasmado. Tire seu chapéu, se benza e dê graças a Pruvidença Divina que em paz e salvamento mecê está dando entrada no Fundão". (Leonardo Mota. No tempo de Lampião, p.114-115)
O texto exige explicação, sobretudo para quem desconhece a linguagem dos tapejaras:
Levar algo na lua da sela é caminhar em sua direção.
Jogar na garupa, deixar para trás.
Rachar no meio, atravessar pelo centro.
Panela do lambedor, terreno salgado e alagadiço, muito comum no sertão.
Pasmado, cruzeiro.
As minúcias, os pormenores e as minúsculas referências à paisagem sertaneja representam, para eles, marcos valiosos na determinação dos roteiros. Só eles conhecem os segredos da terra, da paisagem e do cenário sertanejo.