Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Assombrações

Saul Martins

I

O jovem Silvino Carapena, barranqueiro da gema era morto e vivo por bailes. Nem sua mãe, demonstrando-lhe o inconveniente da perda de sono, conseguia demovê-lo do exagero que praticava. Os arrasta-pés eram-lhe diversão, a princípio. Mas, tanto a eles se habituou que se tornaram mau costume ou mesmo um vício.

Dava notícias de todas as festas e conhecia todos os passos, desde o largo da mazurca ao miúdo foxtrot.

E para dormir chegava de madrugada.

Apesar da teima, nunca se deu por vencida a mãe:

— Destá minino, qui tu vai vê!

E viu mesmo.

Certa noite, o moço carpinteiro deixou um baile que se realizava numa casinha da rua de Baixo, perto da igrejinha de Santa Cruz. Dirigiu-se para casa, que ficava no Riacho Seco, extremo sul da cidade, bem distante da festa. Ao ganhar a rua Mata Machado avistou Silvino um homem que, na mesma direção, andava pouco adiante. Julgando tratar-se de alguém do baile, estugou os passos para alcançá-lo. E, dele ao avizinhar-se, gritou com ares de intimidade:

— Olá! Vamos subir de companhia!

O desconhecido parou, olhou-o bem e sorriu.

Foi o bastante. Silvino desandou a correr, dobrando na primeira esquina. É que "companheiro" deixou ver um dente anormal, um dente espantoso, extraordinariamente grande, um dentão do tamanho de sua enxó de lavrar madeira. E correndo atravessou o largo da cadeia e desceu a rua da Matriz, indo parar no jardim, onde se achava recostado a um poste um homem, a quem falou:

— Graças a Deus, moço! Vi um sujeito ali que tinha um dente...

Não terminou de falar, pois o moço, apontando-lhe uns dos seus, o interrompeu para indagar:

— Como este aqui?

Retomou Silvino a corrida, quase assombrado agora até alcançar a calçada na qual estava um primo seu. Aliviado contou-lhe o sucedido e quis dar-lhe uma idéia do dente abrindo as chave da mão. Nessa altura, o "primo" tomou forma diferente e, mostrando-lhe um dente ainda maior, perguntou-lhe:

— Igual ao meu?

Silvino arribou o peito na porta derrubando a cadeira que a escorava e acordando todos de casa.

— Muito bem! disse-lhe a mãe ao ter conhecimento do fato. Você precisa acaba quéssa mania de vivé pra baxo e pra riba atrais de baile.

E o carpinteiro corrigiu-se do mau costume.

II

Ajuntando gado que havia arribado, três vaqueiros andavam pelo campo, certa vez à tardinha. Vítima de imprudente galopeado, um deles caiu do animal que montava, quebrando o pescoço, morrendo sem mesmo ser socorrido. Dos que ficaram, um havia, medroso a mais poder. A este pediu o terceiro fizesse sentinela enquanto ia atrás de meios para a remoção do corpo.

— Io num fico, inhornão! — exclamou-lhe medrosamente o amigo.

— Apois antonce oncê vai, cumpade, que io fico de sentinela, — ponderou-lhe o compadre.

— Inhornão, cumpade! — repisou o covarde. — Io num fico e neim vô.

— Apois cuma vai sê, cumpade?! — protesta o vaqueiro. — Ancê num vai, ancê num fica, cuma é qui fais?

Certo é que não removiam a dificuldade.

Mas o compadre que tinha coragem teve uma idéia. E, pondo-a em prática acendeu um fogo e arranjou uma cama para ambos, certo de que seu amigo não arredaria pé de junto dele. Quase madrugada notou que o companheiro adormecera. Depressa puxou o defunto para o lugar de que se servira, depois montou a cavalo e galopou veloz atrás de recursos.

E antes do amanhecer apeou de volta, agora acompanhado de pessoas residentes nas cercanias.

Mas, acordado pelos que chegaram, reconhecendo no parceiro de cama o corpo do finado, o medroso vaqueiro levantou-se e fugiu dali correndo chapada a dentro alucinado.

E só a custo o contiveram e fizeram-no voltar a si.

III

Certa quadra, há muitos anos, um padre de São Francisco, e seu bagageiro que era também o sacristão, andavam em desobriga pela freguesia, trabalho de que se ocupavam todos os anos, uma vez, a fim de administrar sacramentos aos fiéis da roça. Saíram eles duma fazenda, já ao cair do sol. E, perdendo-se, veio a noite apanhá-los longe do destino. A certa altura, o céu foi enegrecendo. E frias rajadas de vento anunciavam temporal. Aqui seguiam inteiramente alheios, ao livre andar dos animais, pois um palmo ao redor não viam. Mais tarde, confirmando as suspeitas começou a relampejar, circunstância esta que favoreceu a marcha, pois de pedaço a pedaço obrigavam o caminho e acidentes próximos. Adiante, alcançaram uma lagoa, em cuja margem havia uma casa abandonada, um tanto velha, mas segura e confortável até. Sem tempo para cogitações, na casa se agasalharam, corridos, já, da chuva. O sacristão logo dormiu, mas o padre, não. Rezou muito, depois pôs-se a matutar, conjeturando o por que abandonarem aquela casa que lhes servia de abrigo. Lá para as tantas ouviu um grito, que se seguiu de outros, a princípio confusos, depois mais claros:

— Não acho!... Não acho!... Não ach... Nã...

Quem quer que fosse gritava até perder o fôlego, e recomeçava depois de ligeira pausa, abeirando-se da casa. Afinal, jovem mulher apareceu diante do vigário, trazendo nos braços mimosa criancinha.

— Por Deus, — disse-lhe o padre, — fale o que é que não acha!

— Eu fui viúva! — respondeu-lhe piedosamente a mulher. — E morava nesta casa. Mas enganando a boa fé dos outros, tive oito filhos, que eu mesma estrangulei, um a um, após o parto. O último deles, causa de minha morte, aqui está. Todos estão pagãos e não acho um filho de Deus para os batizar.

— Se Deus permitir eu os batizarei! — exclamou-lhe o padre.

— Sim! — garantiu-lhe a mulher.

O vigário tomou o hissope e aspergiu-os de água benta, batizando em seguida a todos os pagãozinhos que a ele foram trazidos.

E a velha casa, escusada outrora, a partir daquela noite tornou-se ponto de rancharia de tropeiros e de agasalhos para os solitários viajantes.

[não foi possível identificar a fonte original da publicação deste artigo]
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005