I
O jovem Silvino Carapena, barranqueiro da gema era morto e vivo por bailes. Nem sua mãe, demonstrando-lhe o inconveniente da perda de sono, conseguia demovê-lo do exagero que praticava. Os arrasta-pés eram-lhe diversão, a princípio. Mas, tanto a eles se habituou que se tornaram mau costume ou mesmo um vício.
Dava notícias de todas as festas e conhecia todos os passos, desde o largo da mazurca ao miúdo foxtrot.
E para dormir chegava de madrugada.
Apesar da teima, nunca se deu por vencida a mãe:
— Destá minino, qui tu vai vê!
E viu mesmo.
Certa noite, o moço carpinteiro deixou um baile que se realizava numa casinha da rua de Baixo, perto da igrejinha de Santa Cruz. Dirigiu-se para casa, que ficava no Riacho Seco, extremo sul da cidade, bem distante da festa. Ao ganhar a rua Mata Machado avistou Silvino um homem que, na mesma direção, andava pouco adiante. Julgando tratar-se de alguém do baile, estugou os passos para alcançá-lo. E, dele ao avizinhar-se, gritou com ares de intimidade:
— Olá! Vamos subir de companhia!
O desconhecido parou, olhou-o bem e sorriu.
Foi o bastante. Silvino desandou a correr, dobrando na primeira esquina. É que "companheiro" deixou ver um dente anormal, um dente espantoso, extraordinariamente grande, um dentão do tamanho de sua enxó de lavrar madeira. E correndo atravessou o largo da cadeia e desceu a rua da Matriz, indo parar no jardim, onde se achava recostado a um poste um homem, a quem falou:
— Graças a Deus, moço! Vi um sujeito ali que tinha um dente...
Não terminou de falar, pois o moço, apontando-lhe uns dos seus, o interrompeu para indagar:
— Como este aqui?
Retomou Silvino a corrida, quase assombrado agora até alcançar a calçada na qual estava um primo seu. Aliviado contou-lhe o sucedido e quis dar-lhe uma idéia do dente abrindo as chave da mão. Nessa altura, o "primo" tomou forma diferente e, mostrando-lhe um dente ainda maior, perguntou-lhe:
— Igual ao meu?
Silvino arribou o peito na porta derrubando a cadeira que a escorava e acordando todos de casa.
— Muito bem! disse-lhe a mãe ao ter conhecimento do fato. Você precisa acaba quéssa mania de vivé pra baxo e pra riba atrais de baile.
E o carpinteiro corrigiu-se do mau costume.
II
Ajuntando gado que havia arribado, três vaqueiros andavam pelo campo, certa vez à tardinha. Vítima de imprudente galopeado, um deles caiu do animal que montava, quebrando o pescoço, morrendo sem mesmo ser socorrido. Dos que ficaram, um havia, medroso a mais poder. A este pediu o terceiro fizesse sentinela enquanto ia atrás de meios para a remoção do corpo.
— Io num fico, inhornão! — exclamou-lhe medrosamente o amigo.
— Apois antonce oncê vai, cumpade, que io fico de sentinela, — ponderou-lhe o compadre.
— Inhornão, cumpade! — repisou o covarde. — Io num fico e neim vô.
— Apois cuma vai sê, cumpade?! — protesta o vaqueiro. — Ancê num vai, ancê num fica, cuma é qui fais?
Certo é que não removiam a dificuldade.
Mas o compadre que tinha coragem teve uma idéia. E, pondo-a em prática acendeu um fogo e arranjou uma cama para ambos, certo de que seu amigo não arredaria pé de junto dele. Quase madrugada notou que o companheiro adormecera. Depressa puxou o defunto para o lugar de que se servira, depois montou a cavalo e galopou veloz atrás de recursos.
E antes do amanhecer apeou de volta, agora acompanhado de pessoas residentes nas cercanias.
Mas, acordado pelos que chegaram, reconhecendo no parceiro de cama o corpo do finado, o medroso vaqueiro levantou-se e fugiu dali correndo chapada a dentro alucinado.
E só a custo o contiveram e fizeram-no voltar a si.
III
Certa quadra, há muitos anos, um padre de São Francisco, e seu bagageiro que era também o sacristão, andavam em desobriga pela freguesia, trabalho de que se ocupavam todos os anos, uma vez, a fim de administrar sacramentos aos fiéis da roça. Saíram eles duma fazenda, já ao cair do sol. E, perdendo-se, veio a noite apanhá-los longe do destino. A certa altura, o céu foi enegrecendo. E frias rajadas de vento anunciavam temporal. Aqui seguiam inteiramente alheios, ao livre andar dos animais, pois um palmo ao redor não viam. Mais tarde, confirmando as suspeitas começou a relampejar, circunstância esta que favoreceu a marcha, pois de pedaço a pedaço obrigavam o caminho e acidentes próximos. Adiante, alcançaram uma lagoa, em cuja margem havia uma casa abandonada, um tanto velha, mas segura e confortável até. Sem tempo para cogitações, na casa se agasalharam, corridos, já, da chuva. O sacristão logo dormiu, mas o padre, não. Rezou muito, depois pôs-se a matutar, conjeturando o por que abandonarem aquela casa que lhes servia de abrigo. Lá para as tantas ouviu um grito, que se seguiu de outros, a princípio confusos, depois mais claros:
— Não acho!... Não acho!... Não ach... Nã...
Quem quer que fosse gritava até perder o fôlego, e recomeçava depois de ligeira pausa, abeirando-se da casa. Afinal, jovem mulher apareceu diante do vigário, trazendo nos braços mimosa criancinha.
— Por Deus, — disse-lhe o padre, — fale o que é que não acha!
— Eu fui viúva! — respondeu-lhe piedosamente a mulher. — E morava nesta casa. Mas enganando a boa fé dos outros, tive oito filhos, que eu mesma estrangulei, um a um, após o parto. O último deles, causa de minha morte, aqui está. Todos estão pagãos e não acho um filho de Deus para os batizar.
— Se Deus permitir eu os batizarei! — exclamou-lhe o padre.
— Sim! — garantiu-lhe a mulher.
O vigário tomou o hissope e aspergiu-os de água benta, batizando em seguida a todos os pagãozinhos que a ele foram trazidos.
E a velha casa, escusada outrora, a partir daquela noite tornou-se ponto de rancharia de tropeiros e de agasalhos para os solitários viajantes.