Como todo povo conservador, o sertanejo guarda e transmite suas lendas e fábulas. E, tanto numas como noutras, é bem difícil, às vezes determinar a maior co-participação de uma das três raças produtoras dos seus atuais tipos técnicos, de tal modo já se vai dando a fusão de suas crendices.
O sertanejo não tem reminiscências totêmicas; às vezes constrói ciclos de lendas explicativas, consubstanciando-as em animais deles, maxime para sintetizar certas e determinadas qualidades humanas: a raposa representa a esperteza, o gavião a malvadez, a onça, a ferocidade, o gato as encarnações do espírito mau, quando é preto etc.
Essas fábulas são, às veze,s como a do casamento do rato com a catita (camundongo), em que se explica a inimizade do cachorro e da cutia. Começa com uma evocação do modo de vida de cada bicho ao tempo que os animais falavam:
No tempo em que os animais
Seguiam a civilidade
O mundo era melhor
Do que na atualidade...
O tigre era juiz de direito
O burro era doutor,
O macaco era escrivão
A preguiça coletor.
Nesse tempo o jovem rato
Habitava um chalé
E a namorada a catita
A filha do pumaré...
No decorrer do namoro, o rato abusa do amor da noiva e foge. Põe-se tropa em sua procura e, ao narrar a sua prisão, mais uma vez se desvenda a alma irônica do sertanejo:
Avistaram o criminoso
Lá em cima dum penedo
Muitos soldados correram
Outros morreram de medo.
Por fim, o rato resolve casar e, durante o banquete de noivado, o cachorro, que era delegado de polícia, trava-se de razões com a cutia; alguns animais do partido dela, outros do dele; há verdadeira conflagração:
Desde esse dia ficaram
Os animais intrigados...
As histórias de animais são, por vezes, muito engraçadas e muito interessantes. Vamos narrar uma e por ela se poderá ver qual a maneira por que todas são feitas e como é digna de nota a descrição da eterna luta entre os animais da selva.
Passara a manhã chovendo, e o canção todo molhado, sem poder voar, estava tristemente pousado à beira de uma estrada. Veio a raposa e levou-o na boca para os filhinhos. Mas o caminho era longo e o sol ardente. Mestre canção enxugou e começou a cuidar do meio de escapar à raposa. Passam perto de um povoado. Uns meninos que brincavam começam a dirigir insultos à astuciosa caçadora. Vai o canção e fala: — Comadre raposa isto é um desaforo. Eu se fosse você, não agüentava. Passava uma descompostura...
A raposa abre a boca num impróperio terrível contra a criançada. O canção voa, pousa triunfantemente num galho e ajuda a vaiá-la...
Outros dão a explicação de gosto e predileção de um animal por certo e determinado alimento.
O rio desliza mansamente e, no fundo da água, a um canto, a traíra cochilava na rede, adoentada. Chega o pescador, atira o anzol com um pedacinho de carne fresca. A traíra chama uma das filhas:
— Isabel, minha filha, vê o que é.
— Mamãe é um pedacinho de carne fresca.
— Não quero, não. Isto é lá comida de doente.
Vendo que o peixe não beliscava o anzol, o pescador muda a isca. Agora é uma perninha de passarinho. Novo e idêntico diálogo no fundo do rio. O pescador faz a substituição por uma patinha de caçote (pequeno sapo).
E a traíra, ao saber disso brada com pressa para a filha:
— Anda, Isabel, traz minhas chinelas: perninha de caçote é comida de quem está doente.
Quase sempre as fábulas são de origem européia, adaptadas aos animais e às coisas do sertão; são também, às vezes, originárias dos índios, embora idênticas às da Europa, porque é fato conhecido que lendas idênticas com determinações diversas são encontradas em toda parte, desde a Columbia inglesa e o seu ciclo do corvo, ao dilúvio africano a Cendrillon ao próprio Polifermo de Homero.
Todas as lendas são tristes: algumas são até sombrias. Simbolizam o áspero meio dos sertões. Representam, quase sempre, a hostilidade do meio aos desbravadores dos centros inóspitos do Norte nos tempos da colonização.
Grande número delas poderiam ser grupados em um ciclo, porque quase todas partem do litoral para o interior. Depois, procurar-se-iam as velhas lendas autóctones, para construir um novo ciclo em sentido contrário, do interior para as praias.
(Gustavo Barroso em Terra do sol, edição da Livraria São José, Rio de Janeiro)