A palavra berimbau, ou birimbau, indica um instrumento de ferro em forma de ferradura, que já existiu na Bahia. Esse mesmo nome, no entanto, é atribuído hoje, na Bahia, a outro instrumento, conhecido universalmente sob a expressão genérica de arco musical, salvo num ou noutro lugares, onde lhe dão nomes próprios.
Urge se indagar agora, como ocorreu o fenômeno da transposição de nome. Será interessante se tentar uma explicação. O birimbau, berimbau ou berimbao, pouco importa a grafia, a despeito de distinção feita por frei Pedro Sinzig, isto é, o instrumento de ferro em forma de ferradura, deve ter sido trazido, no século XVI, para o Brasil, pelos povos da Península Ibérica. Ele existe nos países de língua inglesa, na Suíça, na França e na Espanha. Oneida Alvarenga assegura ser ele conhecido, também, em Portugal, o que não constitui, de certo modo, novidade, de vez que levado na Idade Média pelos árabes para a Península Ibérica, radicou-se tanto na Espanha como no antigo condado portuculanse.
A despeito do registro feito por dom Manuel de Menezes, da entrada do berimbau no Brasil, no começo do século XVII, através da armada de dom Fradique de Toledo, é provável que a emigração maior desse instrumento tenha se dado por intermédio dos portugueses, já desde o século anterior, o que, na falta de documentos esclarecedores, se explica pelo permanente estreito contato da então colônia com o Reino, a contrário do que acontecia com Castela. A citação do autor da Recuperação da cidade do Salvador prova, exuberantemente, a existência do berimbau na Península Ibérica, por ocasião das grandes navegações e confirma a tradição de seu aparecimento, ali com a dominação árabe. Se tão só isso não bastasse para demonstrar a origem ibérica, ou, talvez com maior rigor, lusitana, em relação ao Brasil, deveria ser levado em conta a circunstância de que nem os africanos, nem os íncolas ameríndios nunca possuíram o birimbao entre os seus instrumentos musicais e, não o possuindo, não o poderiam aqueles trazer para o Brasil.
Vários autores já se ocuparam o grau da influência do africano na música brasileira e nesses estudos relacionaram os nossos instrumentos de origem negra. Neles não figura o birimbao, entendido como sendo o de forma de ferradura. Alfredo Gallet relacionou vinte e cinco, ou sejam: o atabaque, o adufe, o birimbau (arco musical), o agogó ou agogô, o carinvó, o ganzá ou canzá (reco-reco), o gonço, o mulungu, a marimba, a puíta, o piano de cuia ou balafon, na África, o pandeiro, a quissange, o roncador, a pererenga, o socador, o tambu ou tambor, o ubatá, o vuvu ou vu, o xequerê ou xequedê e o triangulo. O mesmo autor refere-se a Afonso Costa que dá como exportados para o Brasil os seguintes instrumentos:
1. Tambor, coberto de pele de boi de um lado e de couro do outro lado.
2. Piúta (puíta), que produz um som idêntico ao ronco do porco.
3. Uricungo (também chamado gobo ou bucumbumba), arco de madeira retesado por dois ou quatro fios. Pendurada no centro do arco, uma cuia oval.
4. Sansá, cuia ou casco de jabuti, coberta de uma prancreta de madeira, onde são fixadas tiras metálicas, toca-se com os dedos.
5. Marimba, idêntico ao anterior, mas sem a cuia e tocado com macete.
Manuel Querino não o inclui entre os instrumentos dos negros baianos e Renato Almeida, comentando a relação de Afonso Costa, diz que à mesma se pode ajuntar, ainda: o bansá, instrumento de cordas; a macumba, instrumento com som de rapa; o matungo, cuia com ponteiras de ferro, num atabaque grande; e o xequerê.
Não sendo encontrado entre os instrumentos africanos, mister se torna procurá-lo entre aqueles de origem ameríndia. Mário de Andrade, citado por Oneida Alvarenga, considerou como de procedência ameríndia os seguintes elementos: o chocalho, usado nas orquestras de dança; a forma poético-musical em que a cada verso de uma estrofe se segue um refrão curto; o cateretê e o cururu (danças); a nasal de voz cantada caipira; a variedade de assuntos no canto, em contraposição à predominância amorosa das cantigas de Portugal; os bailados (cabocolinhos, caiapós) e os ritos fetichistas (catimbó, pajelança) de inspiração ameríndia e com larga participação de música; o movimento oratório da melodia coincidindo provavelmente com a influência do canto gregoriano que os índios aprenderam com os padres. A mesma autora afirma que entre os indígenas preponderavam os instrumentos de percussão, especialmente os chocalhos de vários tipos, entre os quais assumia grande importância musical, e mesmo religiosa segundo alguns o maracá utilizado pelos pajés como meio de comunicação dos espíritos. Havia, também, alguns instrumentos de sopro: larga variedade de assobios, trombetas de madeira ou outros materiais fornecidos pelo reino vegetal, flauta de bambu e de ossos humanos, flauta de Pan.
Não há, como se vê, indicação do berimbau, que é desconhecido entre os indígenas brasileiros até os nossos dias. O mesmo não ocorre entre os índios de outros países da América do Sul. Ele já foi encontrado entre os araucanos, os chaquenses e outros aborígenes. Carlos Vega assegura que os índios Maccá são habilíssimos executantes do berimbau, adiantando porém, ser de certo modo recente a introdução do instrumento em foco na América do Sul.
Não se devendo o berimbao aos negros africanos, nem aos íncolas, a presunção mais razoável é de que ele nos chegou através do elemento ibérico.
Importado da Península Ibérica e incorporado, no Brasil, à bagagem musical do elemento radicado aos portugueses, pertencia a um nível cultural superior ao negro, que dele foi também se utilizando e em cujo ambiente medrava o arco musical inglês. Dom Rafael Bluteau oferece, no seu célebre vocabulário, indícios pelos quais se pode admitir o processo de identificação do preto com o berimbao ibérico. Diz o citado autor, nos começos do século XVIII que esse instrumento era de ordinário tangido pelas negras. Assim, nesta época, presumivelmente, não tinha ainda caído no uso dos negros, mais ligados ao amanho da terra, presos à senzala, ao contrário de suas irmãs de raça que mantinham, como serviçais domésticas, melhor contatp com a casa grande, com os elementos culturais dos brancos. Aos poucos, porém, foi aquele instrumento desaparecendo e o seu nome, apropriado pelo arco musical. A usurpação se radicou de tal forma, que, falando-se presentemente de birimbao, entende-se o arco musical outrora conhecido sob nomes de urucungo e variantes, gunga, gobo, bucumbumba e outros.