Serena, pomba, serena
Eh!
Junta, junta, negrada... Firme tudo! Eta mundo! Eta, quentão!
Eu quero vê pra contá
Eu quero vê mode crê
Esquenta, esquenta. Bota pra fora a pinga
Eh! bendito sinhô
Eh! bendita iaiá
E, em torno ao fogo, que crepita estralejando, num batepé sapateado e estripitante, que faz tremer todo o terreiro em derredor, mulungos e crioulinhos, caboclos e cabranazes, negros do Congo, de Guiné, da África inteira, dançam em ronda, ao retuntum dos atabaques e ao tutucar dos carimbós.
Que samba é este que eles dançam loucamente, rindo e cantando no silêncio do sertão, enchendo os bosques das paragens brasileiras, de burburinhos, barbarisos, burundangas de horrissonâncias africanas?
Este batuque é o bangulê, é o banguelê, o jongo, a chiba, o caxambu, o catupé, o pagará, o guarapé, o batecum, o furrundu, o quicumbi, o caiapó? Isto é o tatu, isto é o saramba, isto é o quimbete, isto é a tirana, isto é a quatrage, isto é a revira, a chica, a dança do corvo, o bochince, o corta-jaca, o fandango, o sarrabalho? Que dança é esta, dança bárbara e brundúsia? Bambá, banzé, bambaré, cangerê, bambaquerê, furdunço de feitiçarias, saranda de pretos bruxos, congando num candomblé?
Não! São os míseros escravos das senzalas, dos zungus e cafundós, gozando a doce liberdade de uma moite, festejando o São João, dançando o cateretê.
Eu quero vê pra contá
Eu quero vê mode crê
Eh! eh!
Zumbem, zunzunem os tambus e os urucungos, zinem brimbaus, gritam estrídulos apitos, troam tambores, reco-recos e timbales, ouvem-se cheios de chinelos e de caixas, cascavelhadas de chocalhos rechuchados, ringindos e remugidos, rouquidos e zangarreios, grulhos, grugrulhos, de cangueiras e de canzas, rascantes sopidos de arranhados de ganzás, ressôos de murmurés, de puítas e de marimbas, zonzons de emocaxiós.
No quiriri da noite fria, uma viola canta, e uma voz de sertanejo, docemente, enche o silêncio de suspiros e queixumes, e em toada terna e triste solta um lundu gemicado, diz versos que fazem rir e às vezes fazem pensar...
Dizem que o cigarro tira
Tristezas do coração
E eu pito, pito e repito
Tristezas nunca se vão
A folha da bananeira
De comprida amarelou
A boca do meu benzinho
De tão doce açucarou
Mulatinha, bonitinha
Não havera de nascer
É como a fruta madura
Que todos querem comer
Em longos, lentos e langues reboleios, bamboleios, um cabra cuera, bom troveiro e dançador, num desafio chama à dança a namorada, a roxa dos seus pecados, que é a flor do maracujá. E ela mimosa, ela dengosa, de olhos baixos, entra dançando, faz mesuras e meneios, enquanto em torno os assistentes, entre risos, lhe dizem:
— Quebra, mulata. Morena cor da pipoca, do lado que não rebenta...
Há casquinadas entre aplausos prolongados... Logo o violeiro, aproveitando este incidente solta uma trova, "faz um verso", de repente:
Mulata, minha mulata
Desconjunta esse quadril
Que a mulata quando dança
Tira fogo sem fuzil
Picando o passo, o dançador desarticula-se, saracoteia e cabriola, regamboleia, corcoveia e perereca, e colubreja, e se distorce e desengonça, e desconjunta-se em tremuras epilépticas, em contraturas espasmódicas, tetânicas, como os doentes, quando dá o tângoro-míngoro, e ficam zangaralhões, bambalhamassas, trangalbadanças.
Como as corujas, como os corvos crocitando, em uivos surdos, em regougos agoureiros, de cururus, jacurutus e noitibós, lúgubres, fúnebres, soturnos, se misturam os zumbos dos urucungos e os rufos dos timbatus. Trinam, tinindo, campainhas retintinulas... Há rataplãs, tarampantãs, de camboris, roucos tutuques de zabumbas e ritumbas — e a batourar, tamborilando, interrupto, no babaréu das mussambas, o barundum dos atabaques.
E em trepe-trepe, em teque-teque, em retém-tem, em reque-reque, em trape-zape, em estralada estrepitosa, estrondeante, taraz-boraz, quadrúpede, estrupidante, rugitando, em rugibó, estalida e zapeteio, retumba o mundo africano, trabuca o cateretê!
(De uma conferência sobre a dança)