Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 90
Maio de 2006
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Festança
O jongo de São Luis do Paraitinga, por Benedito de Souza Pinto

Rapsódia negra, por Doralécio Soares

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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Rapsódia negra

Martins Fontes

Serena, pomba, serena
Eh!

Junta, junta, negrada... Firme tudo! Eta mundo! Eta, quentão!

Eu quero vê pra contá
Eu quero vê mode crê

Esquenta, esquenta. Bota pra fora a pinga
Eh! bendito sinhô
Eh! bendita iaiá

E, em torno ao fogo, que crepita estralejando, num batepé sapateado e estripitante, que faz tremer todo o terreiro em derredor, mulungos e crioulinhos, caboclos e cabranazes, negros do Congo, de Guiné, da África inteira, dançam em ronda, ao retuntum dos atabaques e ao tutucar dos carimbós.

Que samba é este que eles dançam loucamente, rindo e cantando no silêncio do sertão, enchendo os bosques das paragens brasileiras, de burburinhos, barbarisos, burundangas de horrissonâncias africanas?

Este batuque é o bangulê, é o banguelê, o jongo, a chiba, o caxambu, o catupé, o pagará, o guarapé, o batecum, o furrundu, o quicumbi, o caiapó? Isto é o tatu, isto é o saramba, isto é o quimbete, isto é a tirana, isto é a quatrage, isto é a revira, a chica, a dança do corvo, o bochince, o corta-jaca, o fandango, o sarrabalho? Que dança é esta, dança bárbara e brundúsia? Bambá, banzé, bambaré, cangerê, bambaquerê, furdunço de feitiçarias, saranda de pretos bruxos, congando num candomblé?

Não! São os míseros escravos das senzalas, dos zungus e cafundós, gozando a doce liberdade de uma moite, festejando o São João, dançando o cateretê.

Eu quero vê pra contá
Eu quero vê mode crê
Eh! eh!

Zumbem, zunzunem os tambus e os urucungos, zinem brimbaus, gritam estrídulos apitos, troam tambores, reco-recos e timbales, ouvem-se cheios de chinelos e de caixas, cascavelhadas de chocalhos rechuchados, ringindos e remugidos, rouquidos e zangarreios, grulhos, grugrulhos, de cangueiras e de canzas, rascantes sopidos de arranhados de ganzás, ressôos de murmurés, de puítas e de marimbas, zonzons de emocaxiós.

No quiriri da noite fria, uma viola canta, e uma voz de sertanejo, docemente, enche o silêncio de suspiros e queixumes, e em toada terna e triste solta um lundu gemicado, diz versos que fazem rir e às vezes fazem pensar...

Dizem que o cigarro tira
Tristezas do coração
E eu pito, pito e repito
Tristezas nunca se vão

A folha da bananeira
De comprida amarelou
A boca do meu benzinho
De tão doce açucarou

Mulatinha, bonitinha
Não havera de nascer
É como a fruta madura
Que todos querem comer

Em longos, lentos e langues reboleios, bamboleios, um cabra cuera, bom troveiro e dançador, num desafio chama à dança a namorada, a roxa dos seus pecados, que é a flor do maracujá. E ela mimosa, ela dengosa, de olhos baixos, entra dançando, faz mesuras e meneios, enquanto em torno os assistentes, entre risos, lhe dizem:

— Quebra, mulata. Morena cor da pipoca, do lado que não rebenta...

Há casquinadas entre aplausos prolongados... Logo o violeiro, aproveitando este incidente solta uma trova, "faz um verso", de repente:

Mulata, minha mulata
Desconjunta esse quadril
Que a mulata quando dança
Tira fogo sem fuzil

Picando o passo, o dançador desarticula-se, saracoteia e cabriola, regamboleia, corcoveia e perereca, e colubreja, e se distorce e desengonça, e desconjunta-se em tremuras epilépticas, em contraturas espasmódicas, tetânicas, como os doentes, quando dá o tângoro-míngoro, e ficam zangaralhões, bambalhamassas, trangalbadanças.

Como as corujas, como os corvos crocitando, em uivos surdos, em regougos agoureiros, de cururus, jacurutus e noitibós, lúgubres, fúnebres, soturnos, se misturam os zumbos dos urucungos e os rufos dos timbatus. Trinam, tinindo, campainhas retintinulas... Há rataplãs, tarampantãs, de camboris, roucos tutuques de zabumbas e ritumbas — e a batourar, tamborilando, interrupto, no babaréu das mussambas, o barundum dos atabaques.

E em trepe-trepe, em teque-teque, em retém-tem, em reque-reque, em trape-zape, em estralada estrepitosa, estrondeante, taraz-boraz, quadrúpede, estrupidante, rugitando, em rugibó, estalida e zapeteio, retumba o mundo africano, trabuca o cateretê!

(De uma conferência sobre a dança)

 

(Martins Fontes. "Rapsódia negra". O Estado. Niterói, 24 de maio de 1953)
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