Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 90
Maio de 2006
Artigos deste mês em
Festança
O jongo de São Luis do Paraitinga, por Benedito de Souza Pinto

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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

O jongo de São Luís do Paraitinga

Benedito de Souza Pinto

Em dias determinados, reuniam-se os pretos do município para os festejos na cidade. O dia mais importante para eles era e ainda continua sendo o 13 de maio, pela comemoração da grande data da Lei Áurea — a libertação dos escravos.

De noite, em um dos largos da cidade, organizavam a tradicional jongada, sendo o local preferido onde hoje é o campo de futebol.

Os instrumentos usados eram os seguintes:

Tambu: Instrumento feito de um tronco oco com um metro de altura, mais ou menos, tampado com couro no lado de cima. O tocador trazia o tambu amarrado por uma correia à cintura.

Candongueira: Instrumento igual ao tambu, porém menor, e que tocado tinha som que combinava com aquele.

Para afinar esses instrumentos os pretos esquentavam-nos ao fogo até ficarem "temperados", termo que aplicavam para substituir afinados.

Corunga: Uma cumbuca furada, com uma corda de viola que tocavam sobre a barriga descoberta, produzindo som diferente ao dos outros instrumentos.

Puíta: Um barril pequeno, que no fundo tinha amarrado um pedaço de taquara do reino. O tocador deitava-se para tocar e com a mão molhada puxava a taquara e o som diferente e rouco saía.

Esses instrumentos eram tocados sob o compasso que marcava o tocador da "anguaia".

Anguai: É um jacazinho de taquara que traz dentro pedrinhas e folhas imitando os chamados cracachás que vendem para as crianças brincarem.

A dança é de roda, formada por pessoas de ambos os sexos e idades, dançada com todo respeito.

Os dançadores, ao som dos instrumentos e entoando os cânticos próprios, dançavam cumprimentando o companheiro da frente e de trás, fazendo o seu balanceado em frente do companheiro, imitando o "balancê" da quadrilha antiga, comparação já feita por Cornélio Pires. Ao fazer esses balanceados, movimentam a roda.

Quando o povo assistente apertava os dançadores, um encarregado da dança gritava "abre a roda, meu povo".

Para começar a dança, um negro batia no tambu. A esse sinal, todos calavam. Começava ele o seu "ponto", que é uma imitação de charada.

O tocador de tambu dava três pancadas com a mão direita sobre o couro do instrumento. O cantador se adiantava na "reza do ponto" como eles chamavam, e ao soltar o mesmo, o tocador de anguaia dava o sinal. Os instrumentos tocavam inclusive a puíta. Os dançadores e todos cantavam, até mesmo os assistentes.

As últimas frases do ponto terminavam com uma pergunta que era repetida na cantoria, servindo como coro, até que outro negro decifrasse o ponto. O decifrador chegava-se ao tocador de tambu, pedia licença e batia com suas mãos no tambu, sendo aparteado por muitos, que diziam: "Solte o ponto". Todos paravam e ficavam atentos à reza do novo ponto que, às vezes, era dado por um negro de outra "povaria", como diziam eles.

O negro que soltava o ponto era chamado pelos companheiros de "galo".

Dentre os pontos podemos destacar os seguintes: "Eu vim de tão longe, desci e subi morro, lá no céu trovejava, passei rio e bebi muita água, tomei sol e aqui na povoaria cheguei tarde, quando o Galo da Cachoeira já arrastava as asas provocando os outros galos. Eu saúdo o Galo da Cachoreira, saúdo senhor São Luís e todos desta povoaria e agora pergunto, mesmo depois de tudo isto: — Senhor festeiro, a chuva onde é que está?"

A decifração deste ponto é a seguinte: é costume durante as danças, os festeiros distribuírem pinga aos dançadores. A pessoa que se acha meio embriagada, ou "meio queimada" no dizer deles, toma o apelido de Está na Chuva. A pergunta que se acha na última parte do ponto é: "senhor festeiro, a chuva onde é que está?", equivale a dizer: Senhor festeiro, nós estamos querendo beber.

Outro ponto sobre o mesmo assunto foi este: "A canoa está no rio, mas está morta de sede". O que equivale a dizer: A pinga está na casa do festeiro, mas os dançadores estão sem beber.

Outro ponto terminava com as palavras: "O galo tá no terreiro, mas ninguém vem tratar dele". Assim é que faziam pontos lindos e com diversos assuntos.

Os galos mais afamados de São Luís, no reconhecer dos companheiros, eram: Tio Mariano, o Álvaro, marido da Ana Fidélis e o José Paulo. Das mulheres que dançavam e ainda dançam, podemos salientar a Tia Teresa, que embora tenha idade avançada, amanhece no jongo. Tia Teresa representa até hoje a Rainha do Treze de Maio, ladeada pela filha Anfrorosa. Reside na última casa do Alto do Cruzeiro, ao lado da estrada antiga para Ubatuba.

Assim eram repetidos os pontos, os toques e a dança até quando os sinos da matriz tocavam para a primeira missa, que todos iam assistir.

 

(Pinto, Benedito de Souza. "O jongo de São Luís do Paraitinga". Correio Folclórico, nº 45, 04 de fevereiro de 1950)
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